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Pensamento e Linguagem

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explicar. São apenas erros de comunicação (abordagem conversacional) e dependem da forma de apresentação da informação, e não do algoritmo. O julgamento indutivo humano não se resume às heurísticas.
Abordagem dualista:
Os processos cognitivos subjacentes aos julgamentos podem separar-se em dois tipos:
· Autónomo: respostas intuitivas, processos opacos à consciência (heurísticas);
· Envolve memória de trabalho: deliberado, baseado em regras.
Ambos os tipos estão especialmente bem adaptados para responder a diferentes situações e, por isso, na maioria das vezes agem em consonância. Algumas vezes, contudo, propõem respostas diferentes para um mesmo problema, provocando conflito.
A maioria dos modelos dualistas emergiram na tentativa de conseguir integrar aparentes discrepâncias na forma como os indivíduos reagem aos mesmos estímulos em circunstâncias diferentes. De uma forma global, estes modelos assumem que os indivíduos podem tomar decisões, fazer diferentes tipos de avaliações e julgamentos, com base na sua «intuição» ou «elaborando a resposta mais apropriada à situação». A natureza diferencial dos processos pelos quais os indivíduos respondem «intuitivamente», ou de uma «forma ponderada», dita a necessidade de se conceber a dualidade de processamento na nossa mente.
Argumentos fenomenológicos e experimentais dão suporte adicional a esta ideia. Em termos fenomenológicos, são relevantes as circunstâncias em que os indivíduos se dão conta da discrepância das respostas que emergem destes dois tipos de processos (critério S). Sloman (1996) ilustra esta situação com as nossas reações a frases do tipo «A baleia é um peixe!». Se, por um lado, a associação que fazemos das baleias aos peixes nos faz reagir positivamente à frase, a verdade é a de que o conhecimento que temos sobre a classificação das baleias como mamíferos suscita-nos uma reação negativa. Por outro lado, em termos experimentais, os dados, que têm vindo a demonstrar o impacto diferencial de algumas variáveis sobre cada um dos modos de processamento (ou sistemas de processamento), sugerem que estes desempenham diferentes funções. Tal como sugerido por Tulving (1983), estes três critérios (diferente natureza, simultânea ocorrência, e independência funcional) corroboram a existência de um sistema dualista de processamento de informação.
Muitos estudiosos da área da psicologia cognitiva reconheceram a existência de dois processos cognitivos: o “Sistema 1” e “Sistema 2”. 
Segundo Kahneman, o Sistema 1 é o que opera automática e rapidamente, com pouco ou nenhum esforço e nenhuma perceção de controlo voluntário, já o Sistema 2 aloca a atenção para as atividades mentais laboriosas que o requisitam, incluindo cálculos complexos. O sistema 1 representa as tarefas/situações de forma altamente contextualizada e o sistema 2 representa as tarefas/situações de forma descontextualizada (com base nos princípios subjacentes.
As operações do sistema 2 são muitas vezes associadas com a experiência subjetiva de atividade, escolha e concentração. O Sistema 1 reflete o pensamento automático, inconsciente, e pouco exigente em termos de capacidade, de menor esforço associativo e normalmente carregado de um certo nível de emoção, governado pelos hábitos e difícil de ser controlado ou modificado. 
A perspetiva da decisão baseada na intuição sugere que a maior parte das decisões são tomadas, ou pelo menos direcionadas, pelo uso de habilidades intuitivas do indivíduo, que possui no seu sistema cognitivo a capacidade de “ler” o cenário e fazer conexões com experiências vivenciadas, tomando decisões para atender satisfatoriamente a necessidade momentânea sem necessariamente a realização de uma análise sistemática ou a busca pela decisão ótima. 
Das atividades automáticas que são atribuídas ao sistema 1, pode-se referir: detetar hostilidade em uma voz, ler palavras em grandes cartazes e dirigir um carro por uma rua vazia. O Sistema 2 é responsável pelo pensamento mais lento, serial e controlado, realizado com maior esforço, relativamente flexível e potencialmente governado por regras.
Nas operações do sistema 2 estão atividades que exigem mais atenção, e são interrompidas quando a atenção é desviada, como por exemplo: manter o passo mais rápido do que o natural, comparar dois produtos em relação ao seu valor global e verificar a validade de um argumento lógico complexo.
Neste sentido, Frederick (2005) ressalta que apesar do processo de decisão poder ser explicado por dois sistemas: o tácito ou intuitivo (sistema 1) e o analítico ou deliberativo ( sistema 2), o sistema intuitivo acaba por ter uma ligação maior com as heurísticas ou se sobrepõe quando a questão que precisa ser resolvida é vista como fácil pelo indivíduo. Isso ocorre quando, num primeiro momento, sem nenhuma análise mais detalhada, a pessoa já chega a uma alternativa que parece ser boa o suficiente para resolver o problema.
Porque é que o sistema 2 (ou processamento T2) não evita os erros e viéses de T1 (heurísticas)? Será falta de inteligência?
Stanovich testou se os enviesamentos de julgamento são mais evitados pelas pessoas mais inteligentes, apresentando-lhes problemas de conjunção (ex. problema da Linda) e problemas de lógica (Belief bias, ex. silogismo das rosas- Todas as flores murcham, as rosas murcham, logo as rosas são flores). No entanto, apercebeu-se que estas correlações são moderadas e a maioria dos erros e enviesamentos não se correlacionam com a experiência, mas sim com base rates, ancoragem, falácia da conjunção, etc. Ou seja, pessoas inteligentes são igualmente suscetíveis a cometer erros heurísticos.
Mente reflexiva:
É a resistência à preguiça cognitiva, que permite evitar efeitos de contexto e ter mente aberta para resistir às primeiras intuições e considerar alternativas.
Envolve a capacidade de autorregulação epistémica, responsável pela deteção da necessidade de usar a mente algorítmica e da iniciação do processamento da mente algorítmica.
Exemplos: Quantos animais de cada espécie levou Moisés na arca do dilúvio? Nenhum, a arca era de Noé. Sem mente reflexiva, diríamos 2 animais.
Uma bola e um taco custam 1.10€. O taco custa mais 1€ que a bola. Quanto custa a bola? 0.05€. Sem mente reflexiva, diríamos 0.10€
Mente algorítmica:
É a capacidade intelectual para inibir as respostas intuitivas e substituí-las por respostas alternativas. Implica possuir estruturas de conhecimento adequadas (mindware) como raciocínio probabilístico, literacia financeira e pensamento científico que permitem raciocinar de forma racional (maximizar a utilidade esperada).
Envolve a capacidade para inibir estímulos indesejados (respostas intuitivas) e descontextualizar a informação de forma a poder correr simulações (decoupling).
Exemplo: considere um teste para detetar uma doença que afeta 0.1% (1/1000) da população portuguesa. Um indivíduo que não tenha a doença tem uma probabilidade de 5% (50/1000) de ter um teste positivo. Um indivíduo que tenha a doença testa sempre positivo. Qual é a probabilidade de uma pessoa que tenha um teste positivo ter, de facto, a doença? A resposta intuitiva seria de que a probabilidade é de 95%. No entanto, a resposta certa é de 1/51, ou seja 1.8%.
Modelo tripartido:
De acordo com este modelo, é possível identificar três estruturas distintas que contribuem de modo diferencial para o julgamento: a mente autónoma, a mente algorítmica e, também, a mente reflexiva. 
Mais especificamente, enquanto as funções da mente autónoma se prendem essencialmente com a computação automática de respostas na presença dos estímulos desencadeares apropriados, a mente algorítmica é principalmente responsável por encontrar uma solução alternativa à resposta heurística através da utilização de regras e conhecimentos específicos. Por sua vez, a mente reflexiva corresponde a uma estrutura de controlo superior que é responsável por enviar a mensagem de que é necessário computar uma solução alternativa à resposta associativa que surge naturalmente na mente. 
Assim, a relação entre estas três estruturas