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Epistemologia da história da psicologia

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explicar o visível e hipotetizar o invisível.
A psicologia é geralmente fundada em um de dois pontos de partida: na ética e na epistemologia. Fundar a psicologia na ética, implica afirmar um modelo de ação e tentar compreender o que temos de fazer para nos adequar a esse modelo.
A outra fundação da psicologia é a procura de como pensar a verdade. Para isso, temos de descrever as operações que nos permitem chegar a conceitos.
Assim, Platão fundou a maior parte dos temas da filosofia posterior e afirmou a superioridade da mente sobre o resto da nossa vida.
Aristóteles:
Aristóteles não aceitava a teoria das formas: considerava que o espírito humano não possuía as ideias – essências- do belo, do justo, do puro, e defendia que a mente não era um espelho dos sentidos.
Aristóteles chamava a atenção para a natureza corporal e material das funções da vida- possibilitada pela alma-, adotava uma posição mais idealista e mais próxima do platonismo quando se referia às capacidades epistémicas (à procura das essências). Essas essências ou “universais”, não poderiam ser avançados pelos sentidos: teriam de ser identificados “de dentro” da alma.
Segundo Aristóteles, pode-se fazer dez tipos de juízos sobre uma coisa, e esses tipos de juízos são designados de categorias:
· Substância (uma coisa é uma determinada coisa: Sócrates é um homem);
· Qualidade (determinada coisa é preta);
· Quantidade (uma dada coisa tem dimensão);
· Relação (uma coisa é maior/menor que outra);
· Espaço (o lugar onde está);
· Tempo (esta coisa apareceu ontem);
· Posição (está deitado);
· Estado (aquilo está molhado);
· Ação (A age sobre B);
· Afeção (B é afetado por A).
Estas características não são propriamente psicológicas- são abstrações dos tipos de conceitos usados para pensar as coisas- mas são necessárias ao entendimento. Estão presentes nas coisas, existem independentemente da mente, mas têm de estar também na mente para que a perceção e o pensamento delas seja possível.
Embora rejeite as ideias inatas platónicas, Aristóteles pergunta “como poderíamos aprender e apreender sem conhecimento pré-existente”. Quer isto dizer que conhecer uma coisa resulta das características quer da coisa, quer do conhecedor.
As ideias não estariam, então, originalmente presentes na mente, mas apenas a capacidade para as apreender a partir dos sentidos e de as formular. Essa capacidade seria mental e anterior à experiência. Aristóteles pensava que, a partir dos sentidos apenas se atinge o acidental: é a razão, ou a mente, que deve encontrar as essências e os universais.
Assim, quando Aristóteles se refere à mente como uma folha em branco, quer dizer apenas que a experiência e os sentidos têm de lhe fornecer a matéria-prima para ela funcionar. Mas a experiência só é possível se houver, na razão, qualquer coisa de prévio (a priori) e que possibilite que a experiência seja recebida, avaliada e generalizada. 
Nesta perspetiva, a mente deteta os universais através da generalização, mas não os cria: eles existem, não como coisa física, mas como realidade do pensamento.
Um outro aspeto importante em Aristóteles é a distinção entre potência e ato, que tem o significado próximo de realização. Uma bolota tem o carvalho em potência, mas tem de crescer para que o carvalho seja realizado, ou seja ato. As noções de potência e ato significam que Aristóteles acreditava que o mundo tinha um sentido, uma direção. Que a natureza estava organizada teologicamente. Acreditava, pois, que todas as coisas estavam associadas a um plano divino e que a função do homem era desvendar o plano da natureza.
Outra característica do pensamento de Aristóteles é a afirmação de que todas as coisas são compostas por forma (alma) e a matéria. A forma determina a essência de uma coisa, e a matéria pode ser transformada de maneira a tomar outra forma. Chamou-se a esta teoria de Teoria das causas ou Teoria da forma+matéria ou Hilemorfismo.
O De Anima e o seu significado:
O texto que funda a psicologia é o De Anima, ou Peri Psyches em grego. 
A base do pensamento de Aristóteles é o Hilemorfismo: todas as coisas têm matéria e forma são independentes mas criam um ser uno.
A palavra alma em Aristóteles tem vários significados. Uma definição de alma seria: a alma é a forma ou enteléquia (essência da alma?) do corpo, ou seja, é a passagem da potência a ato (o corpo tem potencialmente uma alma, e a existência dessa alma é a atualização dessa potencialidade). Por “forma”, no caso de alma, Aristóteles parece quere dizer “finalidade”. Assim, a alma seria responsável pelas funções (função = finalidade) que o corpo desempenha.
Na sua teoria, a explicação de um fenómeno implica elucidar quatro aspetos (causas):
· A matéria de que é feita;
· A forma que foi imposta à matéria;
· A causa eficiente (ou quem fez com que a coisa exista);
· A finalidade.
Aristóteles afirma que, ao estudar os organismos, é necessário compreender primeiro a finalidade para depois se poder compreender a organização. Atualmente, diríamos que, para estudar os organismos, deve-se primeiro identificar a função e, depois, compreender a organização.
Aristóteles distingue três almas:
· Alma das plantas/vegetativa, que assegura a vida e se baseia na alimentação e reprodução;
· Alma sensitiva (perceção e movimento), que caracteriza os animais:
· Os 5 sentidos fundem-se (senso comum) numa imagem mental (fantasma);
· Percecionar é sintonizar o que é comum entre objeto e sujeito;
· Percecionar implica prazer e dor e, por isso, desejo;
· O desejo baseia-se em imagens mentais (imaginação, phantasia);
· Essas imagens podem ser guardadas na memória.
No Homem, aparece mais uma nova característica da alma: a mente (ou razão, ou inteligência, ou nous). Há dois tipos de mente:
· Prática: planeamento e estratégia;
· Teórica
Tal como a perceção, a mente prática é concebida como a captura, pelo organismo, da forma de uma coisa exterior, A inteligência teórica, seria a captura das formas das próprias ideias (ex. a ideia de um triângulo). 
Assim, a mente pode ter consciência de si própria e tentar analisar-se.
O pensamento implicaria sempre imagens mentais, provenientes dos sentidos. Mas a mente não é cópia desses sentidos: tem de existir, na mente, antes de qualquer cópia, formas prévias que identifiquem as ideias. A mente tem, assim, uma espécie de armazém de formas que possam reconhecer o que os sentidos lhe fornecem. As formas inatas equivalem às ideias puras de Platão.
Contudo, a ênfase é diferente: enquanto Platão fala de reminiscências (conteúdos) das verdades, Aristóteles fala da capacidade de transformar o que existe apenas em potência de realidades do pensamento: a alma não teria ideias puras, mas apenas processos de chegar a formulações abstratas que são universalmente verdadeiras.
A mente ativa, Nous Poiêtikos:
Aristóteles faz ainda mais uma separação do nous. Por um lado, há a mente como potência, isto é, como possibilidade de se transformar nos seus objetos (se pensarmos e nos concentrar-mos em algo, a mente transforma-se na coisa pensada). Por outro lado, há o princípio ático que causa essa possibilidade de transformação da mente nos conceitos.
A esse princípio ativo, ou produtivo, chama-se mente ativa (nous poiêtikos). À mente que se transforma em todas as coisas, passou-se a chamar de mente passiva (nous pathetikós).
· Nous poiêtikos: tem as formas puras;
· Nous pathetikós: tem as imagens mentais, a memória e os sentidos que se estrutura, por influência do nous poiêtikos, em universais, sem matéria.
É a partir desta distinção de mente ativa e passiva que é possível compreender a posição de Aristóteles quanto à imortalidade da alma.
Apenas a mente ativa é imortal, porque é princípio criador, inalterável, independente das mentes individuais e existe no plano divino. Está separada do corpo.
A mente passiva é, por definição, independente do corpo, embora nele participe durante a vida do corpo. Por outro lado, o conhecimento individual, a experiência, os universais a que cada indivíduo chegou em vida através dos sentidos, da memória e das imagens