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Relatório Final - Iniciação Científica em Imunogenética UFPR

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tem como objetivo geral investigar a associação de neoplasias intraepiteliais cervicais com o polimorfismo dos genes HLA-B e HLA-C, responsáveis por codificar proteínas celulares envolvidas com a resposta imunológica ao HPV. Os objetivos específicos da pesquisa são: comparar as frequências alélicas dos genes HLA-B e HLA-C entre mulheres com NIC (casos) e sem lesão (controles), e comparar a frequência de alelos pertencentes aos grupos HLA-C1/ C2 e HLA-Bw4/ Bw6 nesta população. Estudos como este podem contribuir com a hipótese de uma associação de certos genótipos com uma maior susceptibilidade, ou maior proteção às lesões pré-câncer, fato que pode ocorrer tanto pela ligação aos peptídeos virais do HPV, quanto pela tendência de ativação das células Natural Killer.
REVISÃO DA LITERATURA
Câncer de colo de útero e HPV
	O CCU é o terceiro tumor maligno mais frequente na população feminina (atrás apenas do câncer de mama e colorretal), sendo a quarta maior causa de morte de mulheres por câncer no Brasil. Estimativas brasileiras para o ano de 2020 sugerem a incidência de 16.590 novos casos no ano, dentre estes, 990 apenas no estado do Paraná (INCA, 2020). A infecção pelo Papilomavírus Humano é considerada como um pré-requisito para o desenvolvimento de NICs e CCU (PRENDVILLE E DAVIES, 2004). A transmissão deste vírus geralmente ocorre através do contato com a mucosa infectada, principalmente pelo ato sexual (BURCHELL et al., 2006).
	As lesões cervicais precursoras do CCU, de acordo com o sistema de nomenclatura de Bethesda (1998), podem ser classificadas a partir de exame histopatológico como neoplasia intraepitelial de grau I (baixo grau), II e III (alto grau). 
	A prevenção primária do câncer de colo de útero está relacionada à diminuição do contágio pelo HPV, e pode ser feita através da vacina tetravalente contra o HPV, ofertada gratuitamente pelo Ministério da Saúde para meninas e meninos de até 14 anos. Porém mesmo as mulheres vacinadas devem fazer exames preventivos periodicamente, visto que a vacina não protege contra todos os tipos oncogênicos do vírus, mas apenas os quatro tipos mais prevalentes: 6, 11, 16 e 18 (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2020).
	Os papilomavírus possuem tropismo por células epiteliais e está presente na pele e mucosa de vários animais. Os HPVs que afetam as mucosas e genitais podem ser classificados em dois grupos levando em conta o potencial carcinogênico: o de baixo risco (HPV 6, 11, 40, 42, 43, 44, 54, 61, 72 e 81), e de alto risco (HPV 16, 18, 26, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 53, 56, 58, 59, 66, 68, 73 e 82) (PRENDVILLE E DAVIES, 2004).
	A infecção por HPVs de baixo risco pode causar proliferação celular local, levando ao desenvolvimento de verrugas e condilomas, no entanto, a maior parte desses tumores benignos regride espontaneamente (PRENDVILLE E DAVIES, 2004). Já a infecção por HPV de alto risco poderá progredir para o câncer, e este precedido por uma longa fase de doença pré-invasiva caracterizada por graus variados de displasia e neoplasia intraepitelial cervical (NIC I, NIC II e NIC III). A progressão vai depender de diversos cofatores como, por exemplo, o início precoce da atividade sexual, uso de contraceptivos hormonais, tabagismo, susceptibilidade genética, tipo do HPV, co-infecções por outros patógenos, e a presença de doenças que podem afetar a resposta imunológica dos indivíduos (WALBOOMERS et al., 1999).	A maior parte das pessoas sexualmente ativas serão infectadas por HPV durante a vida, porém, a grande maioria das infecções são rapidamente resolvidas pelo sistema imunológico (SCHIFFMAN et al., 2011), 
	O HPV pertence à família Papilomaviridae, e apresenta um genoma com aproximadamente 8Kb em uma dupla fita de DNA circular. Conserva três oncogenes (E5, E6 e E7) que codificam proteínas envolvidas com a estimulação da proliferação celular, imortalização e transformação das células do hospedeiro. Apresenta também genes E1 e E2, responsáveis por modular a transcrição e replicação viral, e os genes L1 e L2 responsáveis por codificar proteínas que constituem o capsídeo viral. Existem fortes evidências que as mutações nos genomas do HPV são eventos raros (VILLIERS et al., 2004).
	O ciclo do HPV está ligado ao programa de diferenciação da célula do hospedeiro. A infecção ocorre pela penetração do vírus através de microlesões, as quais expõem a camada basal do epitélio de modo a permitir que o vírus infecte as células. Quando isto ocorre, a expressão dos genes virais é ativada. As proteínas E1 e E2, responsáveis por modular a replicação, são essenciais para este passo. Posteriormente ocorre a síntese de proteínas do capsídeo, a montagem e liberação do vírus nas camadas suprabasais (LONGWORTH e LAIMINS, 2004; GEORGESCU et al., 2018). 
	A carcinogênese é mediada pelos oncogenes já citados. As proteínas E6 estão presentes no núcleo e citoplasma, e possuem a habilidade de induzir a formação de um complexo com a enzima ubiquitina-ligase e p53, resultando na ubiquitinação e degradação da p53, o que suprime a resposta da proteína p53 aos danos no DNA. Já as proteínas E7 estão majoritariamente no núcleo e tem a habilidade de inativar as proteínas retinoblastoma (Rb), p21 e p27, importantes na regulação do ciclo celular, de modo a alterar o ciclo e permitir que a célula entre na fase S. Normalmente, após esta alteração feita por proteínas E7, a p53 atuaria levando a apoptose da célula, mas como já mencionado, esta proteína é inibida pela ação da E6, o que leva a uma multiplicação descontrolada das células alteradas (LONGWORTH e LAIMINS, 2004; GEORGESCU et al., 2018; ZUR HALSEN 2002; MARULLO et al., 2015).
	A alta incidência de infecção por HPV em indivíduos imunocomprometidos é uma forte evidência da importância de uma resposta imune adequada para evitar a progressão. A susceptibilidade genética também teria grande impacto no câncer de colo de útero, visto que mulheres com histórico familiar são mais sujeitas ao desenvolvimento da doença devido a uma menor capacidade em combater a infecção (PRENDIVILLE e DAVIES, 2004; MAGNUSSON e GYLLENSTEN, 2000). 
	Quando receptores celulares de reconhecimento de padrão (PPRs, do inglês Pattern Recognition Receptors) detectam o HPV, isso desencadeia a ativação da resposta imunológica inata, e posteriormente da resposta imunológica adaptativa. As lesões cervicais de baixo grau na maioria dos casos tem resolução espontânea, fato decorrente principalmente da resposta mediada por linfócitos T, resposta esta que depende da apresentação dos peptídeos antigênicos mediada por proteínas HLA (SANTOS et al, 2017).
Complexo Principal de Histocompatibilidade (CPH) em Humanos (HLA)
	Os linfócitos T, células do sistema imunológico, são essenciais para a resposta contra o HPV, e reconhecem antígenos apresentados por células apresentadoras de antígenos (APCs) através de receptores denominados TCRs (T cell receptor). A capacidade destas células de apresentarem peptídeos antigênicos irá depender da presença de proteínas especializadas, codificadas por genes presentes no Complexo Principal de Histocompatibilidade, em humanos denominado HLA (Human Leukocyte Antigens). Os genes que codificam as moléculas HLA são altamente polimórficos e polialélicos, e estão localizados no braço curto do cromossomo 6, região que possui mais de 220 genes codificadores de proteínas, em sua grande maioria relacionadas a resposta imunológica. Como já citado, o genótipo do hospedeiro influencia na persistência do HPV no organismo, e um dos fatores genéticos mais importantes é o polimorfismo dos genes HLA. (CHRISTIANSEN et al., 1994; TORRES e MORAES, 2011; MACIAG e VILLA, 1999).
	O MHC é dividido em três classes: I,II e III. A região de classe I possui genes que codificam as moléculas HLA-A, -B e –C, referidas como clássicas. Estas moléculas estão presentes em todas as células nucleadas, e tem função de apresentar peptídeos aos linfócitos T citotóxicos (CD8+). Existe também um sub-grupo de genes HLA de Classe I, referidos como não- clássicos (HLA-G, HLA-E e HLA-F) , cujos produtos