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SOCIEDADE DISCIPLINAR : O Sistema Punitivo e o Cárcere

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SOCIEDADE DISCIPLINAR : O Sistema Punitivo e o Cárcere 


INTRODUÇÃO 

Este trabalho tem a função de analisar o sistema punitivo e o cárcere sobre a visão do jurista e sociólogo da área de criminologia, David Garland e do filósofo, Michel Foucault. Definindo conceitos e examinando como são na prática manifestados. Esses sistemas sofrem de uma carência estrutural, o sistema punitivo é visto como forma de repressão ao crime e o cárcere como uma instituição de normalização dos indivíduos.

SOCIEDADE DISCIPLINAR: O SISTEMA PUNITIVO E O CÁRCERE 

Partiremos da ideia de que o sistema punitivo é o conjunto das penas previstas em Lei, que tem a função de punir os infratores e manter a organização de um Estado, afirmando sua condição de poder dominante. Assim, intensificando o direito de punir desse Estado, o sistema punitivo é visto como uma forma de controle da sociedade, que em muitas das vezes se manifesta de forma violenta, ferindo os direitos humanos e a integridade física dos indivíduos. 

No Estado do Rio de Janeiro, os mais afetados por esse sistema punitivo, tendo a polícia como principal agente de exercício de poder, são os jovens negros, pobres e moradores da periferia. Que sofrem com o processo de marginalização por parte dos outros membros da sociedade. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, houveram 5.159 mortes em intervenções policiais no ano de 2018. No mesmo ano, o Atlas da Violência indica que a taxa de homicídios de negros foi de 40,2%. 

Desde o início da história da humanidade os sistemas de punição estiveram presentes, e com o passar do tempo foram se desenvolvendo até chegar ao modelo atual que segue a ideia de privação de liberdade como forma de reprimir e reformar os indivíduos. Surge então o conceito de prisão, uma instituição criada para uniformizar os indivíduos que estão sob às suas normas. 

No Brasil foram 729.551 pessoas encarceradas no ano de 2016, de acordo com o infográfico do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, são 368.049 vagas, sendo duas pessoas para cada vaga. 

Aqui pretendo tratar do assunto dividindo-o em duas partes utilizando como base os estudos do jurista e sociólogo da área de criminologia, David Garland e do filósofo, Michel Foucault. 

1. Sistema Punitivo 

David Garland inicia seu artigo As Contradições da “Sociedade Punitiva”, feito para revista de Sociologia e Política colocando um ponto de vista compartilhado por Friedrich Nietzsche e Émile Durkheim, que é de que: 

“os regimes politicamente fortes não têm a menor necessidade de apoiar-se em sanções especialmente punitivas. A repressão pode ser tida como um símbolo de força, mas ela também pode ser interpretada como o sintoma da ausência de autoridade e como repressão inadequada.”

Em sua análise, tendo como base o contexto dos Estados Unidos da América e da Inglaterra, David Garland tenta mostrar como o controle do crime e a justiça criminal foram afetadas por mudanças na organização social das sociedades, pelos problemas de ordem social próprios da forma de organização social e por adaptações políticas, culturais e criminológicas que sobreviveram em resposta a esses problemas específicos. 

Ele afirma que a sociedade se formou culturalmente em torno das altas taxas de criminalidade e da insegurança crescente, transformando-as em fatos sociais normais. O sistema punitivo é visto como ineficaz e impróprio, as rotinas defensivas são comuns e existe um grande mercado de segurança privada. 

Examinando o caso britânico em especial, Garland, expressa em seu artigo como as políticas penais são contraditórias, de um lado está a necessidade de se enfrentar a criminalidade e do outro a negação dessa realidade. E diz: 

“Esse tipo de repressão criminal dualista, ambivalente e frequentemente contraditória é atravessado por uma forma de pensar a criminologia do mesmo modo dualista e ambivalente, dilacerada entre o que eu designarei pelas expressões “criminologia do eu” e “criminologia do outro”. Esse dualismo contraditório expressa um conflito que está no próprio coração da política contemporânea, e não uma resposta logicamente diferenciada às diversas espécies de criminalidade.” 

No que se trata da “criminologia do outro” e “criminologia do eu”, Garland define a primeira como sendo uma forma de enxergar o criminoso como inimigo, uma não pessoa. A segunda se refere ao criminoso como um igual, na busca de promover ações preventivas e se banaliza o crime. A partir disso surge um novo conjunto de teorias criminológicas, baseada na teoria da escolha racional e da teoria da atividade de rotina. 

“O crime não é mais o signo de que algo deu errado, de que o indivíduo é sub socializado ou está perturbado, ou ainda tem um desvio de caráter: o crime é doravante o que ocorre no curso normal das coisas. Para o indivíduo incriminado, é uma ocasião, uma escolha de carreira, um meio de conseguir emoções fortes ou de “vingar-se”.”

Sendo assim, para os indivíduos da população que se tornarão vítimas, o crime será como um acidente de percurso a ser evitado ou um risco a ser calculado. Passando então a responsabilidade de segurança pública do Estado para o indivíduo. Incentivando vítimas a se armarem e reorganizarem suas rotinas para evitar ocasiões desagradáveis, “que devem substituir o dinheiro vivo por cartões de crédito, embutir travas nas colunas de direção dos automóveis” (GARLAND, 1999, p.66). É quando as instituições de segurança privada ganham força. Sendo assim as pessoas não devem “confiar nas eventualidades das penas dissuasivas, na incerta capacidade da polícia de prender os bandidos ou na vã esperança de que se possa ensinar o domínio de si aos jovens cidadãos [...]” (GARLAND, 1999, p.66).  

No que diz respeito ao incentivo as vítimas a se armarem, podemos trazer como exemplo recente o caso do Brasil, onde o Presidente da República editou sete decretos e um projeto de lei para que tornassem mais flexíveis as exigências para o porte e posse de armas, onde três deles já estão valendo atualmente. A intenção dessa nova política sobre o porte e a posse de armas tem a mesma finalidade de incentivar pessoas a andarem armadas assegurando sua proteção, terceirizando ao cidadão a responsabilidade por sua segurança que deveria caber ao Estado. Onde indivíduos seriam os responsáveis por punir aqueles que o fizessem algum mal. 

2. O Cárcere 

Michael Foucault, na terceira parte de seu livro Vigiar e Punir, descreve todo um instrumento de poder utilizado para melhorar indivíduos e torná-los capazes de cumprir funções. Utilizando o exemplo dos soldados que antes eram aqueles que já possuíam um corpo adequado para o ofício e depois: 

“o soldado tornou-se algo que se fabrica; de uma massa informe, de um corpo inapto, fez-se a máquina de que se precisa; corrigiram-se aos poucos as posturas; lentamente uma coação calculada percorre cada parte do corpo, se assenhoreia dele, dobra o conjunto, torna-o perpetuamente disponível, e se prolonga, em silêncio, no automatismo dos hábitos; [...]."

Através disso podemos analisar o surgimento de técnicas, de um projeto disciplinar que pretendem docilizar o indivíduo, tornando-o mais útil e obediente. Projeto esse que será utilizado por escolas, hospitais, fábricas e até mesmo igrejas. E principalmente, pelas prisões. 

Foucault se resume ao apontar que antes mesmo de existir as prisões a sociedade já era gerida por mecanismos de poder que tinham o controle sobre o indivíduo. E a prisão surge então como a única forma total de coação e transformação desses indivíduos, por meio do isolamento e solidão. Ele diz que:

“Ela se constituiu fora do aparelho judiciário, quando se elaboraram, por todo o corpo social, os processos para repartir os indivíduos, fixálos e distribuí-los espacialmente, classificá-los, tirar deles o máximo de tempo, e o máximo de forças, treinar seus corpos, codificar seu comportamento contínuo, mantê-los numa visibilidade sem lacuna, formar em torno deles um aparelho completo de observação, registro e notações, constituir sobre eles um saber que se acumula e se centraliza.”

A prisão era vista como um lugar onde os criminosos teriam tempo de refletir sobre seus crimes passando a odiá-los.  

A vigilância ganhou grande importância, através de um boletim de conta moral anotavase as observações, feitas pelos diretores e agentes das prisões, a respeito do detento. Podendo assim classificar e diferenciar o infrator do delinquente, dividindo-os e aplicando a cada um uma pena diferente e definindo o tempo necessário para sua reabilitação. 

Esse processo que transforma as prisões em mais austeras foi defendido pelo Ministro do Interior da Grã-Bretanha, Michael Howard: 

“que declarou repetidas vezes sua intenção de tornar o regime carcerário mais austero, de construir prisões “de choque”, de fazer passar leis que permitam apresentações imediatas para delinquentes reincidentes (alguns delitos, se repetidos uma única vez, podendo levar à prisão perpétua), que permitam limitar e eventualmente suprimir as libertações antecipadas, e anunciar em alto e bom tom que “a prisão funciona”.

Mas não significa que esse processo funcione, pois a intenção de punir é fazer com que o indivíduo se ressocialize, retirando-o da sociedade e inserindo-o em instituições de correção, mas isso pode tanto quanto reintegrá-los quanto torná-los mais hostis. 

No caso do Brasil, a ressocialização é um desafio. Menos de 18,9% dos presos trabalha e cerca de 12,6% estuda. Essa é uma das principais falhas do sistema penitenciário. A falta dessas oportunidades de trabalho e estudo, faz ressaltar ainda mais o lugar que a prisão ocupa como produtora e reprodutora da violência. 

CONCLUSÃO 

A partir dos conceitos estabelecidos a respeito do sistema punitivo e do cárcere, é possível concluir como em ambos a prática foge a teoria. As políticas de controle do crime não apenas se caracterizam pela punitividade mas também pela ambivalência. A criminalidade e a insegurança são tidas como normais. O encarceramento assume uma dimensão de severidade, tendo o Estado um papel primordial. Tanto o sistema punitivo quanto o cárcere têm como objetivo disciplinar, transformar os indivíduos em objetos, com o intuito de reduzir os desvios quanto a disciplina.

BIBLIOGRAFIA 

GARLAND, David. 1999. As contradições do Sistema Punitivo. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, nº 13. 

FOUCAULT, Michel. 1987. Vigiar e Punir. 20º edição. Editora Vozes. 

FÓRUM DE SEGURANÇA PÚBLICA. Infográfico. Atlas da Violência 2018. Publicado em 2019.  

FÓRUM DE SEGURANÇA PÚBLICA. Infográfico. 13º Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2018. Publicado em 2019. 

G1 GLOBO. Monitor de Violência. https://g1.globo.com/monitor-daviolencia/noticia/2019/04/26/menos-de-15-do-presos-trabalha-no-brasil-1-em-cada-8estuda.ghtml 

G1 GLOBO. Política. https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/06/27/posse-e-porte-dearmas-entenda-o-que-esta-valendo-e-o-que-falta-definir.ghtml 

MATERIAL DE: Giulia Portes Tavares