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CONCILIAÇÃO DA ÉTICA CRISTÃ COM A ERA DA GLOBALIZAÇÃO - um olhar reflexivo

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e complexa de trabalho; uma rede cada vez maior de fluxos e intercâmbios que ligam partes da economia mundial ao sistema global”. Portanto, este fenômeno integra países e povos do mundo, reduzindo custos de transporte e comunicação e eliminando barreiras para garantir os fluxos de mercadorias, serviços, capital, conhecimento e pessoas através das fronteiras internacionais (STIGLITZ, 2002). Dessa forma, a globalização ocorre em diferentes escalas e possui consequências distintas entre os países, sendo as nações ricas as principais beneficiadas por esse processo, pois, entre outros fatores, elas expandem seu mercado consumidor por intermédio de suas empresas transnacionais. 
A globalização é um dos termos empregado com frequência para descrever a atual conjuntura do sistema capitalista e sua consolidação no mundo. Na prática, ela é vista como a total ou parcial integração entre as diferentes localidades do planeta. O conceito de globalização é dado por diferentes maneiras conforme os mais diversos autores em Geografia, Ciências Sociais, Economia, Filosofia e História.
Friedman (1999) acrescenta a ideia de aldeia global, ao definir o fenômeno da globalização como “a integração do capital, da tecnologia e da informação para lá das fronteiras nacionais, criando um mercado global único e em certa medida, uma aldeia global”. As mudanças econômicas e sociais trazidas pela revolução da microeletrônica refletiram não só no crescimento de novas indústrias ligadas ao complexo eletrônico, como na transformação de todos os outros setores industriais e das atividades de serviços, a partir da utilização das tecnologias de informação e comunicações.
Observa-se, assim, que o ser humano vive e convive em um mundo globalizado, nessa aldeia global, termo criado pelo filósofo canadense Herbert Marshall McLuhan em seu livro “A Galáxia de Gutenberg”, para indicar que as novas tecnologias eletrônicas encurtam distâncias e o progresso tecnológico reduz todo o planeta à mesma situação que ocorre em uma aldeia: um mundo em que todos estão interligados. O desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte possibilita também um fluxo maior de informações e pessoas.
Em contrapartida, Santos (2000) ressalta que é uma ilusão afirmar que se vive num mundo sem fronteiras, uma aldeia global, pois, na realidade, as relações chamadas globais são reservadas a um pequeno número de agentes, os grandes bancos e empresas transnacionais, alguns Estados e as grandes organizações internacionais. O autor pontua que seria melhor denominar “globaritarismo” em que o indivíduo apenas é um ‘cidadão global’ se possuir os meios tecnológicos que possibilitam que isto aconteça. No entanto, a globalização produz ainda mais desunião e desigualdades, crescem o desemprego, a pobreza, a fome, a insegurança do cotidiano, num mundo que se fragmenta e onde se ampliam as fraturas sociais. 
Nesse contexto, Susin (1999, p. 101) expõe que “as totalidades tradicionais perdem sua posição solitária e entram em choques que podem levar à fragmentação, à lateralidade, ao sincretismo e até à irrelevância”. Esclarece que o mundo globalizado tem criado movimentos e fluxos globalizantes, choques civilizatórios e fragmentações, onde os indivíduos assumem interações tensas e conflitivas. Assim como Santos (2000), o autor afirma que “não se pode mais pensar em comunidades tradicionais, comunidades locais mais ou menos isoladas, aldeias onde há intensa pertença dos membros” (SUSIN, 1999, p. 103).
Realmente, é uma árdua tarefa conciliar o nacional e o global (até mesmo no plano cultural) frente aos conflitos profundos que ocorrem no mundo, como, por exemplo, entre o ocidente secularizado e o mundo islâmico teocrático, além das “discriminações de crença, de cor e de grupos minoritários, num mundo em que as migrações e os meios de comunicação provocam a convivência de populações étnica, religiosa e culturalmente diferentes” (OLIVEIRA, 2001, p. 175).
Nessa linha, Suess (2005) pontua que a globalização não une a humanidade. Pelo contrário, acentua a divisão, a segregação e a exclusão. O neoliberalismo faz confundir um suposto mundo “sem fronteiras” com um mundo real “sem limites”, em que lucro e rentabilidade impõem normas, valores e perspectivas. Os avanços tecnológicos e científicos permitiram que o homem perdesse sua autonomia e que a humanidade se tornasse cada vez mais superficial e dependente da lei do mercado que, por sua vez, passou a reger a sociedade. Segundo Silva (2002), alguns conseguiram acompanhar o ritmo galopante desse mercado, porém, outros, passaram a viver a mercê da “sorte” e do tempo, “jogados à margem da sociedade”, caracterizando o individualismo que é fruto da Indústria Cultural.
Percebe-se, portanto, que este capítulo trata dos efeitos intencionais e não intencionais a partir do paradigma global sobre a sociedade urbana contemporânea, sobretudo frente à Ética cristã. O filósofo e historiador argentino Dussel (2012, p. 17) pontua que “nos dias atuais assistimos ao aumento crescente do número de vítimas do sistema que se globaliza e alcança níveis mundiais”; vítimas consideradas como os "refugos humanos da fronteira global" para Bauman (2011, p. 45), que, por sua vez, define a globalização como a “linha de produção de refugo humano” (BAUMAN, 2005, p. 13).
Justifica-se esta afirmativa porque o capitalismo e os mecanismos do mercado, bem como as condições de produtividade, do lucro e das exigências desse mesmo mercado não têm beneficiado todas as pessoas, e sim, gerado há muito tempo, “exclusão e desigualdade sociais, comprometendo a liberdade e pondo em risco a democracia” como aponta Beck (1999, p. 58).
Observa-se que assim como a humanidade assistiu o emergir das nacionalidades europeias nos séculos XVI e XVII, ela assiste hoje o emergir de uma comunidade planetária, pois a globalização é a continuação deste processo de alargamento das fronteiras morais e políticas (SINGER, 2004). Quanto a isso, Dussel (2012, p. 27 e 114) ressalta que as raízes sólidas da globalização econômica desenvolveram-se em solo europeu (os chamados países de centro), afetando “de modo singular a realidade latino-americana, entre outros países da periferia, acompanhada pela realidade africana e asiática. [...] A periferia é vítima dos impactos do colonizador do centro” ressalta o sociólogo.
De acordo com Ianni (2003), PNUD (2010), Abílio (2013) e Petrin (2014), as características da globalização podem ser assim sintetizadas:
· A tecnologia é a principal condutora da globalização. Seus avanços, principalmente na tecnologia da informação, têm criado ferramentas poderosas aos agentes econômicos, permitindo identificar e captar novas oportunidades econômicas;
· A globalização se manifesta em diversos campos que sustentam e compõem a sociedade: cultura, espaço geográfico, educação, política, direitos humanos, saúde e, principalmente, a economia. Dessa forma, quando uma prática cultural chinesa é vivenciada nos Estados Unidos ou quando uma manifestação tradicional africana é revivida no Brasil, evidencia-se a integração entre culturas que também se influenciam mutuamente; 
· A globalização ou ‘mundialização’ (no idioma inglês prefere-se o termo globalization ao vocábulo francês mondialisation (do latim mundus), mundo, universo) do espaço geográfico é caracterizada pelo processo de interligação global tanto econômica e política, quanto social e cultural. Ela está em constante evolução e transformação, de modo que a integração mundial por ela gerada é cada vez maior ao longo do tempo. Regiões e redes constituem polos interdependentes dentro do novo mosaico espacial de inovação global; 
· A globalização busca o barateamento do processo produtivo pelas indústrias, uma vez que muitas delas produzem suas mercadorias em vários países com o objetivo de reduzir os custos. Essas indústrias optam por países onde a mão-de-obra, a matéria-prima e a energia são mais baratas. Exemplo: um tênis pode ser projetado nos Estados Unidos, produzido na China, com matéria-prima do Brasil, e comercializado em