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CONCILIAÇÃO DA ÉTICA CRISTÃ COM A ERA DA GLOBALIZAÇÃO - um olhar reflexivo

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diversos países do mundo;
· O processo de globalização caracteriza-se pela diferença do desenvolvimento tecnológico entre os países emergentes e os desenvolvidos: os países em desenvolvimento não conseguem acompanhar os avanços da tecnologia, o que reflete em suas economias. As principais diferenças se referem ao tipo de produção entre os países ricos e pobres, pois o primeiro é exportador de tecnologias enquanto que o segundo é produtor primário;
· A economia informatizada/global se organiza em torno de centros de comando e controle, capazes de coordenar, inovar e administrar as atividades entrecruzadas das redes empresariais;
· A sociedade está construída em torno de fluxos: fluxos de capital, fluxos de informação, fluxos de tecnologia, fluxos de interação organizacional, fluxos de imagens, sons e símbolos. Os fluxos não são somente um elemento da organização social, mas a expressão dos processos que dominam a vida econômica, política e simbólica. 
Rojas (1996, p. 14) aponta cinco elementos que tem características do tipo de sociedade que afeta o indivíduo hoje:
a) materialismo: faz com que um indivíduo obtenha certo reconhecimento social pelo simples fato de ganhar muito dinheiro; b) hedonismo: viver bem a qualquer custo é o novo código de comportamento, o que significa a morte dos ideais, a ausência de sentido e a busca de uma série de sensações cada vez mais novas e excitantes; c) permissividade: arrasa os melhores propósitos e ideais; d) revolução sem finalidade nem projeto: a ética permissiva substitui a moral, o que engendra um desconcerto generalizado; e) relativismo: tudo é relativo, o que leva a cair na absolutização do relativo, com regras presididas pela subjetividade; f) consumismo: representa a fórmula pós-moderna da liberdade.
Posto isso, observa-se que as duas últimas décadas do século XX foram marcadas por um estado de profunda crise mundial. Uma crise que afeta todos os aspectos da vida humana – saúde, relações sociais, economia, tecnologia e política. Uma crise de dimensões espirituais, intelectuais e morais, e pela primeira vez na história, a humanidade está sendo obrigada a se defrontar com a real ameaça de sua extinção e de toda a vida no planeta como analisa Capra (2006). 
Diante dos temas geradores dos dilemas éticos, políticos e sociais aqui citados por Stott (2011), decorrentes da globalização, e a partir das características apresentadas, percebe-se que o Homem enfrenta três graves crises: a econômica, a ambiental e a ética. A crise econômica indica que não é possível colocar a primazia do capital sobre outros valores, pois o mesmo tem comprometido vidas humanas, desestabilizando as estruturas de trabalho e expondo milhares de pessoas à privação de muitos recursos necessários à sobrevivência e a manutenção de padrão existencial digno. A fragilidade dos sistemas econômicos e financeiros mostra que o capital não pode ser um fim último do ser humano, mas apenas um meio necessário para exercitar com dignidade e justiça as diferentes dimensões da pessoa humana (PEREIRA, 2001; SIQUEIRA, 2011). 
A crise ambiental, refletida nas mudanças climáticas, destruição da natureza, aquecimento global, entre outros desastres ambientais, é reflexo de uma crise antropológica e dos modelos insustentáveis que esquecem que o desenvolvimento e crescimento não podem estar desassociados dos limites da capacidade de suporte dos ecossistêmicos e das leis naturais que regem o planeta Terra. Cresce a consciência da irresponsabilidade e injustiça contra a “casa planetária”, a “Mãe Terra” e todas as formas de vidas que coabitam no mesmo espaço vital (BOFF, 2005, 2014).
O teólogo afirma: “Temos de aprender a amar este planeta do qual somos parte e parcela. Nós não vivemos sobre a Terra. Nós somos terra (Adam, húmus-homo), parte da terra” (BOFF, 1994, p. 41-42 e 48). Assim, o homem não pode olhar apenas “para seu próprio umbigo”, enclausurado no seu “eu”, mas ter consciência ecológica (noosfera) o que é fundamental para a participação no desenvolvimento do planeta Terra, com a percepção de uma corresponsabilidade pela natureza, “uma espécie de osmose com a Terra e seu destino”.
A crise ética é vivenciada na situação progressiva de pobreza e sequelas decorrentes, como fome, doença, violência, deterioração do ser humano e degradação da sociedade. A maioria dos indivíduos vive na marginalidade, não se sente livre entre a técnica e a ciência, mas ‘num mar de incertezas’. É o capitalismo atingindo sua face mais pura e mais avançada. Beck (1999) enfatiza a incerteza como elemento caracterizador da sociedade contemporânea.
Segundo Karnal (2015), “o limite da ética é o limite do campo alheio”. Assim, Oliveira (2001) já no despertar do novo milênio, mostra a urgência de estabelecer limites éticos à expansão tecnológica, limites entre tecnologia e ciência em uma humanidade que corre perigo, pois a liberdade não pode ser construída sem a mediação ética. Nas palavras do autor:
A ética emerge como reflexão crítica destinada a formular os critérios que permitam superar o mal e conquistar a humanidade do homem enquanto ser livre. Sendo assim, ela é mediação para a humanização do ser humano, para a efetivação de um mundo humano enquanto mundo que torna a liberdade efetiva (OLIVEIRA, 2001, p. 10).
Além do vazio ético e ausência de liberdade, portanto, da ausência de limites éticos, Capra (2006, p. 23) cita que o homem enfrenta outra crise: “a crise de percepção”, uma vez que ele não percebe que “prioriza elementos marginais em detrimento da busca de respostas às questões mais relevantes da sociedade humana”. É essa falta de percepção que leva o ser humano a compartilhar o mesmo espaço físico onde se vive “desconectado” com a realidade espaço-temporal, com dificuldade em buscar soluções responsáveis, sejam preventivas, mitigadoras e/ou compensatórias para os dilemas sociais e os desastres ambientais.
Frente ao fenômeno da globalização, nota-se que o ser humano está perdendo o sentido da vida, da própria identidade, assim como não se relaciona de modo efetivo e saudável com os outros e nem com a Natureza devido ao individualismo, ao consumismo exagerado, a crise ética e ecológica (BOFF, 2003, 2005). O aumento do consumo e da produtividade são marcas da sociedade capitalista, as quais incentivam o desperdício gerando um ciclo de mais produção e maior intensificação do consumo; em consequência, maior destruição do meio ambiente. Assim, Beck (1999, p. 158) afirma: “a pobreza e a destruição ambiental mundiais são decorrentes do fenômeno da globalização”. Portanto, a globalização não tem sido equilibrada, mas conflituosa. 
Dessa forma, em meio às conquistas tecnológicas, o homem sente-se incapaz de responder a suas inquietações existenciais. Rojas (1996), assim como Morin (1997, 2000) citam que com seu espírito científico, a modernidade conduziu a humanidade a uma situação de falta de referências, a um vazio moral, embora tenha materialmente quase tudo, priorizando o ‘ter’ em detrimento do ‘ser’, quando o indivíduo é reconhecido e valorizado pelo que possui. Portanto, a crise existencial é evidente. 
 Assim posto, e mediante a supervalorização dos bens materiais, a humanidade encontra-se perdida em meio a tanta superficialidade e imediatismo, aprofundando-se a crise existencial. A violência, a drogadição, o desmantelamento das instituições e o enfraquecimento dos valores humanos são provas cabais desse fenômeno. Entende-se também que essa crise está relacionada à “frustração, medo, drogas, alcoolismo, criminalidade de jovens e escândalos recentes na política, na economia, em sindicatos e na sociedade” como confirma Küng (2001, p. 24). Desse modo, o ser humano hedonista, permissivo, consumista e relativista, tem pela frente “um prognóstico ruim: a humanidade, sem fundamento, sem rumo e sem direção, encontra-se vazia de sentido” como pontua Rojas (1996, p. 21).
1. 2 GLOBALIZAÇÃO: PONTOS POSITIVOS E NEGATIVOS
Conforme análise feita embasada na revisão de literatura, observa-se que a era globalizada possui a característica