A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
80 pág.
CONCILIAÇÃO DA ÉTICA CRISTÃ COM A ERA DA GLOBALIZAÇÃO - um olhar reflexivo

Pré-visualização | Página 5 de 24

da ambivalência: se por um lado faz circular de forma rápida e eficiente conhecimentos científicos e troca de experiências (as pessoas se sentem ‘cidadãos do mundo’), e extrapola as relações comerciais e financeiras, por outro lado, ela produz ainda mais desigualdades, com o crescimento do desemprego, pobreza, fome, insegurança do cotidiano, num mundo que se fragmenta gerando novos instrumentos de dominação e controle (SANTOS, 2002). 
Por conseguinte, ao lado de um ponto positivo decorrente da globalização, há, na maioria das vezes, um ponto negativo. O mundo vive um fenômeno paradoxal. A ambivalência e a contradição persistem de um lado, entre o indivíduo que expressa o respeito à singularidade e, do outro lado, a desconfiança de que o próximo seja uma ameaça; de um lado, o preceito do amor ao próximo e de outro lado, a busca moderna pela satisfação individual. Por isso Bauman (1999, p. 8) aponta: “a globalização tanto divide como une; divide enquanto une”. 
Nesse sentido, Almeida (2004, s.p) reflete em “A globalização e seus benefícios: um contraponto ao pessimismo” sobre o fenômeno paradoxal da globalização. O mestre argumenta que de acordo com literatura disponível, a globalização está longe de ser aceita em todas as partes; que ela dificilmente é acolhida de maneira favorável por líderes políticos, mesmo numa sociedade capitalista, e que não se pode mesmo esperar que ela seja bem-vinda como positiva pelos “filósofos sociais”. Ao contrário: “ela ainda é vista com desconfiança, quando não com certa ojeriza de princípio, como se dela emanassem odores pestilenciais ou vírus nefastos à boa saúde dos indivíduos e sociedades por ela tocados”.
Em contraponto, o autor cita o economista indiano Surjit Bhalla para quem a globalização não resultou em taxas menores de crescimento, nem em aumento da pobreza ou da desigualdade, mas ao contrário, houve uma diminuição sensível das desigualdades mundiais, dos índices de pobreza e um crescimento da renda dos estratos mais pobres, relativamente aos mais ricos. Entretanto, Almeida (2004) exemplifica os casos de aumento absoluto da pobreza e dos níveis de desigualdade que ocorreram nos países africanos, especialmente na Nigéria, o caso mais dramático de aumento simultâneo da pobreza e das desigualdades sociais. Porquanto, é complicado estabelecer algum “vínculo estrutural entre a marcha da globalização e o aumento das desigualdades sociais ou setoriais” conclui o sociólogo. 
Além do mais, são muitas variáveis a serem computadas nos estudos de avaliação do impacto da globalização; uma delas são as desigualdades na distribuição de renda entre os países, que se acentuaram nas últimas décadas. Entende-se que para alguns economistas essas desigualdades ocorreram devido aos diferenciais de produtividade entre as economias do que ao próprio movimento da globalização. O economista Sala-i-Martin, segundo Almeida (2004), demonstra que a defasagem entre os países ricos e os pobres no século XX explica-se pelos diferenciais de produtividade entre economias nacionais apresentando diferentes ritmos históricos de desempenho relativo e ostentando fontes diversas de crescimento. Mesmo assim, o fenômeno paradoxal existe e persiste.
 
1.2.1 Pontos positivos (ou benefícios)
· Os avanços proporcionados pela evolução dos meios tecnológicos, bem como a maior difusão de conhecimento, dependem do contexto social e econômico. São intensas as dimensões cósmicas da informação e comunicação com o acesso fácil e rápido aos bens. Assim, por exemplo, se descobrem a cura para uma doença grave no Japão, ela é rapidamente difundida para as diferentes partes do planeta. Ampliaram-se as fronteiras, as pessoas podem “conviver” com inúmeras culturas diferentes, se tornarem um consumidor mundial capaz de se inteirar em apenas alguns segundos com o que o resto do mundo está vivenciando. Tudo isso é possível através dos meios de comunicação que se expandiram no século XXI. “A globalização abre possibilidades de consumo de produtos e serviços de todas as origens, apostando na diversidade e na diversificação” (PRANDI, 1997, p. 66);
· A globalização faz circular experiências, conhecimentos científicos, tecnológicos e de sustentabilidade facilitando a propagação das inovações entre países e continentes, haja vista os avanços nas áreas de Medicina, Genética, Bioética, Biomedicina, Física, Química, Ecologia, entre outras;
· Geração de empregos em países em desenvolvimento: em busca de mão-de-obra barata e qualificada, muitas empresas abrem filiais em países emergentes (China, Índia, Brasil, África do Sul, entre outros), gerando empregos nestes países;
· A unificação econômica: as instituições financeiras (bancos, casas de câmbio, financeiras) criaram um sistema rápido e eficiente para favorecer a transferência de capital e comercialização de ações em nível mundial, facilitando as relações econômicas. Investimentos, pagamentos e transferências bancárias, podem ser feitos em questões de segundos através da Internet ou de telefone celular;
· A globalização extrapola as relações comerciais e financeiras. As pessoas estão cada vez mais descobrindo na Internet uma maneira rápida e eficiente de entrar em contato com pessoas de outros países ou, até mesmo, de conhecer aspectos culturais e sociais de várias partes do planeta. Junto com a televisão, a rede mundial de computadores quebra barreiras, ligando pessoas e espalhando ideias e diversos aspectos da vida de outras nações;
· Saber ler, falar e entender a língua inglesa torna-se fundamental dentro deste contexto, pois é o idioma universal e o instrumento pelo qual as pessoas podem se comunicar (PETRIN, 2014);
· A solidariedade dos mais diversos tipos de povos e religiões quando ocorrem catástrofes em qualquer parte do planeta. Stott (2011) afirma que "quando os cristãos se importam uns com os outros, e com os pobres, Jesus Cristo se torna visivelmente mais atraente". 
 
1.2. 2 Pontos negativos (ou malefícios)
· Nota-se acentuada desigualdade social pelo choque de civilizações, cultura e costumes que leva à ausência completa de comportamento ético e à desumanidade generalizada e, especialmente, pelo substancial afastamento humano, com a deterioração do princípio da dignidade humana;
· O individualismo corrói a ação coletiva, pela banalidade e pela indiferença diante dos problemas e do sofrimento social. A ética individualista e permissiva cerceia e censura os interesses da coletividade ocasionando a banalização e a relativização de todo comportamento ético (BITTAR, 2007). A cultura do prazer a qualquer custo se torna o novo código de comportamento, e esta situação é explorada pelo mercado, “que vende as mais diversas formas de prazer” possibilitando a permissividade, pois tudo é permitido, desde que o fim seja alcançado – “o prazer a todo custo” cita Rojas (1996, p. 14). Nessa busca desenfreada do prazer, e no afã de alcançá-lo, a humanidade cai no consumismo, frente à triste realidade de que as aquisições materiais não satisfazem plenamente a existência humana. A desigualdade social reforça o sentimento de crise e a angústia humana frente a tais fatos (“Deus rejeita os louvores do seu povo quando ele não está cuidando das necessidades das pessoas sofridas e excluídas” (Am 5, 21-24; Sm 15, 22; Os 6, 6); 
· Desordem da economia: as empresas escolhem onde situar seus estabelecimentos, e o fazem de conformidade com seus interesses econômicos (menores custos de mão-de-obra, leis trabalhistas mais flexíveis e menores impostos ou sua isenção). Na era da informática, são possíveis transações financeiras entre pessoas ou empresas localizadas em territórios distantes, que escapam do controle e tributação do Estado nacional. Surgem novos atores que exercem influências na economia e no relacionamento entre as pessoas, organizações civis na defesa de interesses específicos de determinados setores da sociedade. Da mesma forma que pessoas honestas aproveitam das novas tecnologias de comunicação e informação, pessoas e empresas com interesses escusos utilizam a não territorialidade,