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CONCILIAÇÃO DA ÉTICA CRISTÃ COM A ERA DA GLOBALIZAÇÃO - um olhar reflexivo

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para os seres humanos, como:
(a) devido ao aquecimento dos oceanos, os ciclones e as tempestades tropicais, antes confinadas aos trópicos, afastar-se-ão do Equador, atingindo áreas urbanas que não foram construídas para suportá-los; (b) haverá propagação de doenças tropicais; (c) a produção alimentar aumentará em algumas regiões, especialmente nas latitudes setentrionais elevadas, e decrescerá noutras, incluindo a África subsaariana; (d) o nível das águas do mar aumentará entre nove e 88 centímetros. Os países ricos poderão, com custos consideráveis, fazer frente a tais alterações sem uma grande perda de vidas, visto que se encontram numa posição mais confortável para efetuar o armazenamento da comida, para deslocar pessoas de áreas inundadas, para combater insetos portadores de doenças e têm condições de construir paredões que contenham o avanço das águas dos mares. Os países pobres, por sua vez, não conseguirão fazer isso.
Conforme as graves implicações negativas tanto nas dimensões econômica e ambiental quanto na dimensão ética, percebe-se que a ‘indústria cultural’ da globalização, expressão utilizada por Adorno (2002), reduz o ser humano a mero consumidor, pois o homem perde a sua condição de ser pensante e assume o papel de consumidor da sociedade de consumo. Bauman (2005, 2011) considera que os consumidores estão sempre “em movimento, como em uma aventura”, e para manter o movimento, permanecem em um estado ora de insatisfação ora de excitação incessante. A perda do interesse, a permissividade e a impaciência são algumas das características da sociedade de consumo. Além do desejo de consumir, os produtos são cada vez menos duráveis. Nesse jogo de necessidades e satisfação, a promessa de satisfação é mais intensa do que a necessidade efetiva.
Entretanto, como diz o sociólogo, nem todo mundo pode ser um consumidor, pois se todos estão sujeitos a uma vida de opções, nem todos têm a opção de escolher como viver. Aos mais desfavorecidos o consumismo não os atinge. Bauman (1999, p. 43 e 54) pontua que a sociedade é de consumidores [...]. “Os pobres não têm poder de liberdade de escolha porque são desprovidos de capital. O ideal da “vida boa”, ou a vida feliz, não são acessíveis aos que não podem consumir”.
O capitalismo, de raízes iluministas, intencionava libertar o homem de seus medos e mitos, mas, ao contrário, acabou por subjugá-lo à máquina e à técnica, impedindo, segundo o filósofo Adorno (2002, s.p), “a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes não somente de julgar, mas de decidir conscientemente”. De acordo com Russ (1999, p. 16) a ciência e a tecnologia também produzem medo, pois, “além de aumentarem os poderes do ser humano também o colocam na condição de objeto, vítima passiva do próprio desenvolvimento tecnológico, como é o caso das experiências genéticas”.
Por conseguinte, considera-se que entre os problemas e malefícios da globalização, o principal deles é a desigualdade social por ela proporcionada, em que o poder e a renda se encontram concentrados nas mãos de uma minoria. Acusa-se a globalização de proporcionar uma desigual forma de comunicação entre os diferentes territórios, em que culturas, valores morais, princípios educacionais e outros são reproduzidos obedecendo a uma ideologia dominante. Assim, conclui-se que os principais centros de poder exercem um controle ou uma maior influência sobre as regiões economicamente menos favorecidas (SANTOS, 2000, 2002).
Ainda nessa linha de raciocínio, cita-se parecer do PNUD (2010, p. 44):
(...) A distância entre o país mais rico e o país mais pobre aumentou bastante. O país mais rico nos dias de hoje (Listenstaine) é três vezes mais rico que o país mais rico em 1970. O país mais pobre atualmente (Zimbabué) é 25% mais pobre do que o país mais pobre em 1970 (também o Zimbabué).
Assim sendo, Gonçalves (2003, p. 32) comenta que “hoje há forte estímulo à centralização do capital em escala global, um número cada vez menor de grandes empresas controla uma parcela cada vez maior da produção mundial”. As mudanças nas condições de competitividade, da diversificação de risco e do acesso a tecnologia frente aos custos da inovação e a variabilidade dos ciclos dos produtos são consideradas os fatores da centralização ‘monopolizadora’.
Nesse ponto de vista, Pinto e Gonçalves (2013, p. 34) apontam que a era da globalização tem como herança, “não a multipolaridade, mas, sim, a tripolaridade, com maior concentração de poder econômico e político no Capitalismo global” (China tornou-se o mais importante exportador de bens do mundo, seguida dos Estados Unidos e da Alemanha). Porém, para os autores a globalização traz mais benefícios do que malefícios, pois, sem ela, o processo de abertura de algumas economias não seria possível, tais como as economias da China, a qual “no conjunto das transformações, a mais evidente é, de um lado, a redução relativa do protagonismo dos Estados Unidos e, do outro, a ascensão da China como poder econômico”.
De fato, a China vem desempenhando novo papel de “fábrica do mundo” na dinâmica asiática e mundial, destacando-se tanto pelo lado da oferta global (produtor e exportador mundial de produtos de tecnologia da informação (TI) e de bens de consumo industriais intensivos em mão de obra), como pelo lado da demanda global (é grande mercado consumidor) (PINTO; GONÇALVES, 2013, p. 20).
Dessa forma, em meio às mudanças e disparidades globais, a humanidade se vê incerta e perdida diante do cientificismo, incapaz de satisfazer o vazio da alma humana, que se volta para a religiosidade na tentativa de encontrar o “elo perdido” e de dar um significado à sua própria existência. Entretanto, se antes, “a religião fundava-se na transmissão da cultura, através da oralidade, do contato face a face, agora as pessoas possuem nova forma de exercer sua espiritualidade, conectando-se com sites no computador” (PRANDI, 1997, p. 69). Além disso, a globalização também traz em seu bojo a pluralidade e a fragmentação religiosa, frutos da própria dinâmica moderna globalizadora (STEIL, 2001).
Conforme cita Pace (1997, p. 12) “a globalização permite novo paradigma religioso, uma maior circulação inter-religiosa, reforçando a falta de certezas e de convicções, comum aos credos religiosos”. Acrescenta-se que a comercialização e exploração de bens culturais próprias das técnicas de reprodução não surtem efeito benéfico nas questões espirituais e religiosas porque, ao invés de contribuir para minimizar a fome e as mazelas de grande parte das populações que sofrem em todo mundo, permitem que o sofrimento humano se perpetue. Adorno (2002), um dos críticos mais severos da sociedade massificada contemporânea, insiste em que o capitalismo continua a liquidar, não com o trabalho, mas com o trabalhador, ampliando o consumismo com a criação de necessidades supérfluas.
Frente a essa situação, o homem individualista, relativista e permissivo (características da era em que se encontra inserido), ‘cria’ sua própria religião a fim de encontrar o caminho que lhe trará a paz almejada, “customizando” sua fé. Quintana (2003) salienta que o processo da globalização, ao mesmo tempo em que aproximou sistemas religiosos distantes através da “compressão espaço-tempo”, também produziu e aumentou a mercantilização do campo religioso com a criação das “religiões particulares” em oposição a uma visão tradicional que enfatizava a sua dimensão sagrada. E Steil (2001, p. 125) pontua que no processo da globalização “entrelaçam-se elementos de tradições milenares e contemporâneas com filosofias e verdades produzidas pela reflexão humana e pela elaboração científica”, porém essas ‘verdades’ são imediatistas e relativas, pois se hoje servem, amanhã serão descartadas.
Quanto a essas reflexões reafirma-se a concepção do sociólogo Bauman (2001, 2008) de que o homem de hoje vive numa “modernidade líquida”, em um mundo sem forma, onde não há mais certezas, onde os valores são frágeis e fluídos, onde imperam o individualismo (ninguém ouve ninguém), o “achismo” e a “customização