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CONCILIAÇÃO DA ÉTICA CRISTÃ COM A ERA DA GLOBALIZAÇÃO - um olhar reflexivo

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sua existência no encontro com outros homens, sendo que todas as suas ações e decisões afetam as outras pessoas. Nesta vivência, naturalmente têm que existir regras para que haja harmonia de uma relação saudável, as quais ele deve submeter-se, e pelas quais são medidas suas responsabilidades e limitações. Assim sendo, a escolha do tema proposto se justifica pelo interesse no aprofundamento reflexivo sobre o significado desta Ciência normativa, fundamentada em princípios bíblicos, padrões pelos quais o homem deverá agir de acordo com os ensinamentos do Mestre.
2. 1 ÉTICA: CONCEITOS E ORIGENS 
Segundo Matos (2013) e Aquino (2013) a palavra “ética” vem do grego ethos/éthos que deriva de ethó (estar habituado, se apropriar) e se refere aos costumes ou práticas que são aprovados por uma cultura. Originalmente tinha o sentido de “morada”, “lugar em que se vive” e posteriormente significou “caráter”, “modo de ser” como esclarecem Cortina e Martínez (2005, p. 3). Agostini (1997, p. 21) defende a articulação de três elementos fundamentais para uma sociedade saudável: “ethos, moral e ética”, elementos que interagem nas diferentes culturas e elaboram os valores fundamentais para a conduta dos homens.
Ética é ciência normativa da conduta individual e coletiva em sentido amplo, ciência da moral ou dos valores e tem a ver com as normas ou regras sob as quais o indivíduo vive em sociedade. Essas normas podem variar de uma cultura para outra e dependem da fonte de autoridade que lhes serve de fundamento. A ética ou a filosofia moral tem como objetivo “explicar o fenômeno moral, dar conta racionalmente da dimensão moral humana” segundo Cortina e Martínez (2005, p. 2).
Ética tem um significado próximo ao da Moral, mas o que diferencia Moral da Ética é o sentido etimológico, no qual a moral tem como propósito estabelecer um convívio social de acordo com o que é benquisto pela sociedade, já a ética é identificada como uma filosofia moral, onde se busca entender os sentidos dos valores morais. A palavra moral tem sua origem no latim “mos/mores”, que significa “costumes”, no sentido de conjunto de normas ou regras adquiridas por hábito (geralmente a expressão “bons costumes” é usada como sendo sinônimo de moral).
Para Vázquez (2010, p. 20) a moral está mais conectava com as ações práticas cotidianas de uma determinada sociedade, enquanto a ética está direcionada à “relação entre o comportamento moral e as necessidades e os interesses sociais”. Cortina e Martínez (2005, p. 2-3) citam que a diferença entre as duas está associada ao seu sentido (direto e indireto), ou seja, enquanto a moral é “um saber que oferece orientações para ações em casos concretos, a ética é normativa em sentido indireto, pois não tem uma incidência direta na vida cotidiana, quer apenas esclarecer reflexivamente o campo da moral” (a moral responde à pergunta “O que devemos fazer?” e a ética, “Por que devemos?”). 
Assim posto, entende-se que a Ética é o conjunto dos valores que garantem o bem-estar social. Ela avalia os princípios do indivíduo e do grupo, uma vez que cada grupo possui seus próprios valores, culturas e crenças, constituindo uma reflexão crítica sobre a moralidade (MEJDALANI, 2013).
Kaizeler e Faustino (2008, p. 8) citam Kant (1724-1804) que define a ética como “um conjunto de regras ditadas pela razão e que devem ser seguidas independentemente dos desejos, dos interesses, da vontade e das condições históricas”. Para o filósofo as regras morais têm um caráter absoluto, não admitem exceções. Porém, a mentira (defendida pelos utilitaristas), utilizada para aumentar o bem-estar, era uma exceção à verdade inadmissível. A palavra dever tem para o filósofo dois significados: meio para atingir um fim (imperativo hipotético depende dos desejos) e regra moral (imperativo categórico depende da razão). O bem moral não reside na felicidade como defendiam as éticas tradicionais, mas em conduzir-se com autonomia, construindo corretamente a própria vida. O pensamento ético kantiano, pelo qual norteia em grande parte a cosmovisão cristã é o que mais se aproxima do que é proposto pelo cristianismo desde Jesus, conforme esclarece Lima (2015).
Nesse sentido, Vázquez (2010, p. 150) observa que o homem é um sujeito sócio-histórico e seus valores estão associados às várias esferas do seu cotidiano, assim, “um mesmo ato ou produto humano pode ser avaliado a partir de diversos ângulos, podendo encarnar ou realizar diversos valores”. O espaço do ethos enquanto espaço humano é construído pelo homem, ou mesmo reconstruído incansavelmente. “Nunca ethos está pronta e acabada para o homem” (VAZQUEZ, 2010, p. 45).
Os gregos foram os primeiros a racionalizar as relações entre as pessoas, repensando e reafirmando posturas e sistematizando ações, embora seus preceitos fossem praticados entre outros povos desde os primórdios da humanidade, mesclados ao contexto mítico e religioso. A ética, portanto, nasceu na Grécia, na tentativa de pautar regras de comportamento que permitissem a convivência pacífica entre indivíduos reunidos na sociedade (CHAUÍ, 2003).
A problemática em torno da ética é tratada por Sócrates (469 a.C., 366 a.C), que afirma ser a alma humana o verdadeiro objeto do conhecimento, onde reside a verdade e a possibilidade de alcançar a felicidade. Entende-se que essa afirmação socrática ainda é oportuna, porém na era globalizada, o individuo não está preparado para encontrar a verdade dentro de seu espírito. Na tentativa de eliminar os próprios erros, ocultos em sentimentos confundidos com a felicidade, que só pode ser alcançada pela conduta reta, o sujeito acaba buscando e cultuando somente o prazer hedonista, assim como também expõe Aristóteles (384 a.C., 322 a.C) em Ética à Nicômaco (ARISTÓTELES, 1997).
Através da virtude o homem deveria racionalizar as ações em benefício da coletividade, pois o individuo virtuoso, bom, é aquele que se preocupa em viver bem e em aperfeiçoar a convivência comunitária, somente assim ele alcançaria a felicidade. “Qual é o fim último de todas as atividades humanas?” questiona Aristóteles (1997). O fim não pode ser outro que a eudaimonia (felicidade como auto-realização), a “vida boa” e feliz; assim, considera-se a ética como possibilidade de eliminar a desigualdade, harmonizando o convívio coletivo, pois ela é a busca pela felicidade coletiva.
Na Idade Média, Santo Agostinho (354 d.C., 430 d.C) (2012) expõe que a moral é necessária, porque o homem precisa encontrar o caminho de volta para Deus, e a ética o ajuda a viver no amor a Deus, que é o fim desse caminho, e por amá-Lo terá uma “vida boa” e feliz, ao passo que aquele que ama a si mesmo, vive como se os bens materiais fossem únicos e eternos. O amor cristão impulsiona toda a ordem moral, e tem como finalidade a caridade (charitas), peso interior daqueles que amam o amor em Deus: “Meu peso é o amor; por ele sou levado para onde sou levado” (AGOSTINHO, 2006, XIII, p. 9-10). São Tomás de Aquino (1225-1274) faz uma releitura do pensamento aristotélico, tenta conciliar as principais contribuições do filósofo com a revelação judaico-cristã contida na Bíblia; busca conciliar a razão e a fé condicionando os atos dos indivíduos à natureza humana (CHAUÍ, 2003).
 Porém, como ressalta Coimbra (2002, p. 39), 
(...) infelizmente, o homem moderno perdeu a visão histórica e transcendental da ética. Ele brinca com éticas de ocasião, com valores relativos; tem seu jogo do faz-de-conta nas éticas classistas ou corporativas, assim como na chamada “moral de situação”, mas não sabe como encarar o mundo que nasce agora nem como inserir-se nele, desempenhar seu papel e manter sua dignidade fundamental. A dança velocíssima do transitivo e das aparências tira-lhe a visão do que é estável e essencial.
Desse modo, percebe-se que, em meio a uma “ética de ocasião”, “frágil” e “líquida” do mundo globalizado, o pensamento dos filósofos clássicos e teólogos medievais a respeito da ética aliada à felicidade e ao amor ao próximo e a Deus constitui ainda ‘requisito moderno’ para a vivência da ética