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CURSO BÁSICO HEMODINÂMICA: PROJEÇÕES A Equipe CardioPapers inaugura o novo Departamento de Hemodinâmica com objetivo de atualização e complementação na formação nesta especialidade. Como título inaugural, iniciaremos o curso básico de hemodinâmica ministrados por colaboradores dos maiores centros do Brasil. Hoje iniciamos uma coleção de artigos específicos sobre Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista. Na ideia de apresentar alguns fundamentos básicos, iniciamos as apresentações com um módulo de projeções coronárias. De forma bem direta, como o coração se encontra disposto obliquamente dentro da caixa torácica, as projeções na Cineangiocoronariografia são realizadas de forma oblíqua, podendo ser anterior direita (RAO) ou anterior esquerda (LAO) (quando o intensificador, que é a porção do aparelho que fica acima do paciente, está disposto anteriormente e à direita ou à esquerda deste, respectivamente) e cranial ou caudal (quando o intensificador está disposto superiormente ou inferiormente em relação à altura do coração). Algumas regras são fundamentais ao se avaliar uma cineangiocoronariografia: 1o) a coluna vertebral fica à direita da imagem nas projeções oblíquas esquerdas e fica à esquerda da imagem nas projeções oblíquas direitas. 2o) a artéria circunflexa (ACX) se projeta para a posição do intensificador (assim, por exemplo, numa projeção RAO e caudal, a ACX irá se dirigir para baixo e para a direita do paciente). 3o) o diafragma geralmente ocupa uma maior porção do filme nas projeções craniais. A partir deste preâmbulo, é necessário que se tenha um pouco de noção de anatomia coronária para interpretar bem este exame (assim como é extremamente importante ter um bom domínio de anatomia para interpretar bem a maioria dos exames de imagem). A coronária esquerda é composta, na maioria das vezes, de um tronco único (tronco de coronária esquerda, TCE), que se bifurca e origina a artéria descendente anterior (ADA; ou interventricular anterior) e a artéria circunflexa (ACX). Os ramos da ADA são os ramos diagonais e os ramos septais (e ainda um ramo pouco referido, que é a ventricular anterior, algumas vezes seu primeiro ramo). Os ramos da ACX são os ramos marginais obtusos (em virtude do ângulo entre 900 e 180o que fazem em sua origem da ACX). Algumas vezes, há um ramo que surge exatamente entre a origem da ADA e da ACX, representando, na verdade, uma trifurcação do TCE; é o ramo diagonalis ou intermédio (quando este surge bem no início da ACX é conhecido como ramo marginalis). A coronária direita (ACD) tem um formato que lembra um ‘C’ e emite vários ramos, quais sejam, o ramo do nó sinusal, o ramo do cone, os ramos marginais agudos (se originam da ACD formando um ângulo com esta entre 0o e 90o), e por fim se bifurca em dois ramos: o ventricular posterior (VP, que normalmente emite o ramo do nó atrioventricular) e o descendente posterior (DP, este que geralmente cruza o crux cordis e determina a dominância coronária; em 85% dos casos, esta dominância é da ACD). O ramo DP normalmente é reconhecido angiograficamente como o que emite os ramos septais inferiores. PROJEÇÕES (PARTE 2) Projeções coronárias em Cineangiocoronariografia (Coronária Esquerda) Dando seguimento às apresentações sobre projeções coronárias em Cineangiocoronariografia, hoje falaremos sobre as projeções para a coronária esquerda. Em geral, são necessárias pelo menos 4 projeções para análise do território coronário esquerdo, podendo ser realizada outras projeções conforme a necessidade para algumas situações (por exemplo, algumas vezes há dificuldade em se visualizar o óstio ou a porção proximal da ADA e da ACX em vasos muito tortuosos). Na maioria das vezes, nestas 4 projeções o intensificador segue uma rotação horária ao redor do paciente, com a primeira projeção em posição caudal e direita (OAD), terminando com a projeção em posição caudal e esquerda (OAE), esta última a famosa ‘spider’ (a árvore coronária lembra uma aranha nesta visualização). Vale ressaltar que, em alguns centros, a primeira projeção é uma póstero-anterior (PA) pura. Tendo isto em mente, e as regras comentadas na apresentação passada, vejamos as principais projeções para a coronária esquerda (em geral, ao analisar uma cineangiocoronariografia, observe que a sequência é a que segue abaixo): Ao se analisar estas projeções, deve-se ter em mente a regra da ACX, o que facilita bastante a localização dos ramos coronários principais e de seus subramos. Outra forma de se analisar as projeções é entendendo que cada ramo e subramo tem um óstio e três terços (um proximal, um médio e um distal); com isto, cada projeção tem seu fundamento para visualizar melhor cada porção do vaso (por exemplo, a projeção spider é boa para visualizar o óstio dos principais ramos – ADA, ACX, ramos diagonais e marginais, além de visualizar bem o TCE). Outra observação é que, em geral, as projeções craniais visualizam melhor a ADA, e as projeções caudais visualizam melhor a ACX. PROJEÇÕES (PARTE 3) Projeções coronárias em Cineangiocoronariografia (Coronária Direitas) Dando seguimento às apresentações sobre projeções coronárias em Cineangiocoronariografia, hoje falaremos sobre as projeções para a coronária direita. Em geral, são necessárias pelo menos 2 projeções para visualizar a coronária direita: uma esquerda (OAE) pura, que evidencia bem a forma em ‘C’ da ACD, e uma direita (OAD) pura. Há apenas uma ressalva: a bifurcação da ACD em ramos VP e DP é melhor visualizada em projeção PA cranial ou em OAE cranial; assim, pode-se omitir a projeção OAE pura e, primeiramente, realizar uma projeção OAE cranial, e, a seguir, a OAD pura. Seguem as projeção OAE cranial e OAD pura. Como explicado anteriormente, a projeção PA cranial é opcional, mas expõe bem a bifurcação da ACD nos ramos VP e DP. Por fim, vale ressaltar que a projeção OAD pura, além de permitir visualizar o ramo DP em toda a sua extensão, dando os ramos septais desta em direção superior, oferece uma boa visualização de colaterais distais da ACD para a ADA. Na próxima apresentação, falaremos sobre ventriculografia. Como já discutido anteriormente, o implante transcateter de bioprótese valvar aórtica (TAVI – da sigla em inglês: transcatheter aortic valve implantation) para tratamento da estenose aórtica grave e sintomática é um tratamento bem estabelecido para os pacientes de moderado risco cirúrgico, alto ou muito alto risco cirúrgico. Também é uma alternativa terapêutica para o tratamento de biopróteses cirúrgicas degeneradas (Valve-in-Valve) e estenose aórtica bicúspide. Também já foi discutido que o emprego da TAVI para o grupo de pacientes mais jovens e de baixo risco era limitada devido às incertezas em relação a durabilidade da bioprótese transcateter no longo prazo assim como sua comparação com as próteses cirúrgicas habitualmente empregadas nesses pacientes. É sabido que as próteses cirúrgicas convencionais tem durabilidade > 5- 10anos. Na semana passada, foi publicado no Journal of American College of Cardiology (JACC), 2 estudos e 1 editorial abordando o assunto da durabilidade da bioprótese valvar aórtica transcateter. Trata-se do acompanhamento do estudo NOTION e do registro Britânico U.K.TAVI que mostraram baixas taxas de deterioração valvar em seguimento de longo prazo (6 anos no estudo Notion e mediana de 5,8 anos, variando de 5 a 10 anos, no registro britânico). Relembrando, o NOTION foi o primeiro estudo a incluir pacientes de baixo risco cirúrgico, idade 78-79anos, para comparação dos tratamentos cirúrgico(n=135) vs TAVI (n=139) com a prótese autoexpansível de primeira geração CoreValve (Medtronic). No seguimento de 6 anos, a mortalidade permaneceu semelhante (p = 0,58) entre os grupos. A deterioração valvarestrutural foi definida nesse estudo por gradiente médio ≥ 20 mmHg, aumento ≥ 10 mmHg em 3 meses ou regurgitação aórtica maior que leve intra-prótese nova ou piorando. Chama atenção que a deterioração estrutural da prótese valvar aórtica ocorreu em 24% dos pacientes cirúrgicos vs 4,8% dos pacientes TAVI (P< 0,001), caracterizado principalmente por gradientes transvalvares elevados (≥ 20 mmHg) após o procedimento. Deterioração valvar não estrutural, definida como mismatch paciente-prótese moderado a grave ou leak paravalvar moderado a grave, ocorreu de forma semelhante entre os grupos cirúrgicos e transcateter (57,8% vs 54%; p=0,52). Não houve nenhum caso de trombose de prótese e a taxa de endocardite infecciosa foi semelhante entre os grupos (5,9% vs 5,8%; p = 0,52). As taxas de falência da prótese valvar aórtica também foi similar, sendo definida por morte relacionada a prótese, reintervenção valvar ou deterioração estrutural grave. Os autores concluem que apesar do bom desempenho da prótese autoexpansível CoreValve no médio prazo (6 anos), o seguimento prolongado de ensaios clínicos randomizados são necessários para confirmar esses resultados. Por sua vez, a análise do registro de TAVI britânico (U.K. TAVI), que incluiu 241 pacientes com média de idade de 79 ± 7,5 anos, mostrou que a incidência geral de deterioração valvar pelo menos moderada foi de apenas 8,7%. Nesse registro, as duas principais bipróteses transcateteres implantadas foram a autoexpansível CoreValve (Medtronic) em 64%, seguida pela balão expansível Sapien / Sapien XT (Edwards Lifesciences) em 35% dos casos. Degeneração grave foi bastante rara ocorrendo em apenas 1 paciente (<1%) após 5,3 anos do implante. 15 casos TAVI foram realizados para tratar prótese cirúrgica degenerada e nesses casos não foi observado deterioração da válvula transcateter em longo prazo de acompanhamento. Os autores concluíram que a função valvar transcateter a longo prazo é excelente, com 91% dos pacientes livres de deterioração valvar entre 5 e 10 anos do implante. No editorial, são feitas algumas ponderações em relação aos critérios para considerar deterioração valvar em ambos os estudos, porém mesmo considerando critérios mais rigorosos, as taxas de deterioração hemodinâmica ou estrutural são maiores com a cirurgia convencional do que com a TAVI. Portanto, podemos ficar com as seguintes informações: A durabilidade da bioprótese transcateter é pelo menos igual a da bioprótese cirúrgica. Em seguimento de 5-10 anos, a taxa de deterioração da prótese valvar aórtica transcateter foi baixa. A TAVI continua a evoluir, com próteses autoexpansível e expansível por balão já na 3 geração, com menor perfil dos devices permitindo a realização da maioria dos casos pela via transfemoral, menor necessidade de marcapasso e diminuição do leak paravalvar, além do uso da estratégia minimalista em muitos centros, permitindo melhores resultados a curto prazo.