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afirma que a complexidade do 
mundo real (objetos e fenômenos da natureza) será compreendida 
somente por meio da perspectiva multidimensional, ou seja, faz-
se necessário reunir e relacionar diversas disciplinas para entender 
as partes integradas de um todo. Essa linha de raciocínio considera 
tanto os fenômenos previsíveis quanto os imprevisíveis, as certezas 
e as incertezas, assim como os fenômenos aleatórios que podem 
levar a inúmeras possibilidades ou desfechos de dada situação. Na 
segunda metade do século passado, a interdisciplinaridade ganhou 
espaço no universo científico. A partir de então, passou-se a reclamar 
a integralização do olhar para o objeto de estudo (o indivíduo) em 
substituição à visão fragmentada e alienante que caracterizou o 
pensamento moderno presente também no modelo biomédico 
que estudamos na Seção 1.2 de seu livro didático, lembra-se? A 
interdisciplinaridade recorre à reunião de elementos ou recursos de 
duas ou mais disciplinas para observar, compreender ou explicar um 
fenômeno (SILVA, 2011). Nesse contexto, a psicologia é fecunda ao 
dialogar com diversas disciplinas e ao buscar ampliar a compreensão 
sobre o indivíduo, sua subjetividade e seu comportamento.
Vocabulário
- Interface: comunicação entre dois ou mais sistemas; ligação entre 
duas ou mais áreas.
- Complexidade: reunião de vários aspectos ou partes, vistos de 
diferentes aspectos.
- Disciplina: qualquer ramo do conhecimento; grupo de conhecimento.
U1 - Conceitos básicos de Psicologia e saúde36
Vamos, então, conhecer a complexidade da própria psicologia. 
Serão apresentados alguns campos de atuação do psicólogo na 
área da saúde e as interfaces que a psicologia tece com os demais 
profissionais com quem compartilha seus conhecimentos. 
Assimile
Para compreender a complexidade do ser humano é importante reunir 
diversas áreas ou disciplinas. Afinal, o homem é constituído a partir 
de herança biológica somada à subjetividade e ao comportamento 
aprendido no meio onde vive.
A Psicologia Hospitalar é o “conjunto de contribuições 
científicas, educativas e profissionais que as diferentes disciplinas 
psicológicas fornecem para dar melhor assistência aos pacientes no 
hospital” (RODRÍGUEZ-MARÍN, 2003 apud CASTRO; BORNHOLDT, 
2004, p. 51). A psicologia hospitalar é definida por Simonetti (2004, 
p. 15) como a área de entendimento e tratamento dos aspectos 
psicológicos em torno do adoecimento. Isso ocorre quando o 
indivíduo, “carregado de subjetividade, esbarra em um ‘real’, de 
natureza patológica, denominado ‘doença’ [...]”. O autor ressalta 
ainda que esta área não trata somente das doenças com causas 
psíquicas. Trata também dos aspectos psicológicos de toda e 
qualquer doença. Curiosamente, autores constataram – na ocasião 
de suas pesquisas – que a expressão psicologia hospitalar existe 
somente no Brasil. Nos demais países, a expressão psicologia da 
saúde é usada para qualquer intervenção ou atividade do psicólogo 
em ambiente hospitalar. No Brasil, os primeiros registros do trabalho 
do psicólogo no contexto hospitalar datam de 1954, portanto, antes 
da regulamentação da profissão (SILVA; TONETTO; GOMES, 2006). 
A pioneira na área foi Mathilde Neder, atualmente com mais de 90 
anos, em plena atividade. Seu primeiro trabalho ocorreu no Instituto 
de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade 
de Medicina da Universidade de São Paulo (HC – FMUSP). A origem 
dessa atividade deu-se em função da reação de pacientes infantis 
no período pós-operatório. Médicos e enfermeiros observaram que 
as crianças ficavam muito agitadas, danificavam o gesso e, com 
isso, comprometiam o trabalho de recuperação. A equipe solicitou 
à psicologia, por meio da Dra. Mathilde Neder, uma intervenção 
que aumentasse a aderência ao tratamento. Neder, então, iniciou 
um trabalho bastante inovador e, dessa forma, fundou a psicologia 
U1 - Conceitos básicos de Psicologia e saúde 37
hospitalar no Brasil (DITTRICH; ZENDRON, 2001 apud SILVA; 
TONETTO; GOMES, 2006). Contudo, o crescimento do número de 
psicólogos hospitalares ocorreu somente a partir dos anos 1980.
Exemplificando
Para entender melhor a importância da interdisciplinaridade, observe que 
o início da Psicologia Hospitalar ocorreu nesse contexto. Como mostra o 
texto, médicos e enfermeiros convidaram uma psicóloga para colaborar 
com uma dificuldade de ordem comportamental (danificar o gesso e 
pular da cama) que se apresentava no contexto hospitalar e prejudicava o 
tratamento prescrito. Portanto, a reunião de vários profissionais (médico, 
enfermeiro e psicóloga) mostrou-se necessária para solucionar a questão.
O principal objetivo da psicologia hospitalar é compreender o 
paciente de forma ampla a partir de uma visão interdisciplinar que 
lança seu olhar para o doente, e não para a doença isoladamente 
(PERESTRELLO, 1989 apud SIMONETTI, 2004).
Figura 1.5 | Mathilde Neder, década de 1950.
Fonte: <http://www.crpsp.org.br/memoria/clinica/album.aspx>. Acesso em: 22 jan. 2016.
Agora vamos apresentar a Psicologia da Saúde. Baseada no 
modelo biopsicossocial, reúne conhecimentos da psicologia clínica, 
das ciências biomédicas e também da psicologia social e comunitária. 
Prioriza a educação e a atenção integral ao indivíduo em oposição 
ao modelo biomédico (REMOR, 1999 apud CERQUEIRA-CESAR; 
DESSEN; COSTA JÚNIOR, 2011). Consequentemente, o psicólogo 
da saúde prioriza o trabalho interdisciplinar e busca a promoção da 
saúde e a educação preventiva voltada para evitar doenças. Para 
U1 - Conceitos básicos de Psicologia e saúde38
Castro e Bornholdt (2004), este tipo de intervenção é multiplicado 
na comunidade e, desta forma, pode transformar o ambiente por 
meio da melhoria da qualidade de vida das pessoas. A Psicologia 
da Saúde baseia-se no modo como o indivíduo organiza sua vida e 
atribui significados ao estado de saúde ou de doença, sua relação 
consigo mesmo e com os outros (ALMEIDA; MALAGRIS, 2011). Busca 
conscientizar as pessoas a adotarem atitudes e comportamentos 
ativos, direcionados à prevenção da doença e ao enfrentamento do 
processo de adaptação ao adoecer. No Brasil, de acordo com Alves 
et al. (2011), a partir do surgimento de programas que relacionam 
ações sociais às ações de saúde, tornou-se imprescindível constituir 
equipes interdisciplinares para trabalhar nesse contexto. Essa 
interface amplia a compreensão do indivíduo à medida que busca 
entendê-lo em sua totalidade. 
Faça você mesmo
Agora considere encenar em sala de aula um trabalho interdisciplinar 
para atender uma paciente de 40 anos com um filho em idade escolar. 
Essa paciente foi submetida a transplante do coração. Com base 
nessas informações, defina os possíveis temas que cada profissional 
vai tratar nesse contexto e a importância da interdisciplinaridade para a 
recuperação da paciente. Crie a partir dessas informações e aplique os 
conceitos vistos até aqui.
Gorayeb (2010, p. 119 apud RUMIN, 2013) compreende o 
paciente da área da saúde do seguinte modo: “[...] um indivíduo 
que tem um problema orgânico relacionado a aspectos 
comportamentais ou emocionais, podendo tanto o problema 
orgânico quanto os aspectos comportamentais/emocionais serem 
causa ou consequência da relação".
Pesquise mais
Para saber mais sobre as similaridades e diferenças entre estas duas 
áreas da psicologia (hospitalar e saúde), leia o artigo “Psicologia da 
Saúde X Psicologia Hospitalar: definições e possibilidades de inserção 
profissional”, texto escrito por Castro e Bornholdt (2004) que define com 
clareza ambas as áreas. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/pcp/
v24n3/v24n3a07.pdf>. Acesso em: 20 out. 2015.
U1 - Conceitos básicos de Psicologia e saúde 39
A seguir há alguns exemplos que mostram as áreas com as quais 
a psicologia hospitalar e a psicologia da saúde estabelecem interface.