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TCC - BENEFÍCIO DE PRESTAÇÃO CONTINUADA: A possibilidade de análise subjetiva do requisito de miserabilidade.

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acima de tudo, haja a manutenção da dignidade da pessoa humana, princípio fundamental da Constituição Federal.
Assim, reconhecida a possibilidade de admissão de outros meios de prova para verificação da hipossuficiência familiar, bem como a inconstitucionalidade do requisito objetivo em regime de repercussão geral, Bonat (2016) destaca que cabe ao juiz analisar caso concreto observando o real estado de miserabilidade da parte e de sua família, verificando se a situação autoriza ou não a concessão do benefício assistencial. 
Conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça, a renda per capita familiar inferior a um quarto do salário mínimo configuraria uma presunção absoluta de miserabilidade, dispensando outros meios de provas, visto que tal configuração já ensejaria o direito ao benefício para o necessitado.
Entretanto, quando ultrapassando o limite estabelecido, isto é, famílias que tenham renda superior ao estabelecido em lei, deveriam necessariamente através de outros meios de prova se demonstrar a hipossuficiência, no sentido de que, mesmo ultrapassando o limite da lei, os gastos com o vulnerável – deficiente ou idoso – atingem um custo excessivo, que coloca em risco a subsistência do grupo familiar.
O STJ, desde então, passou a decidir no sentido de que o STF não retirou a possibilidade de aferição da necessidade por outros meios de prova que não a renda per capita familiar [...] daí que, suplantado tal limite, outros meios de prova poderiam ser utilizados para a demonstração da condição de miserabilidade, expressa na situação de absoluta carência de recursos para a subsistência. (SANTOS, 2012, p. 168)
Nesse sentido, observa-se através do entendimento do tribunal, que existem e deve se observar outros meios de prova, diferente do entendimento da Autarquia Previdenciária que nos processos administrativos leva em consideração somente o texto expresso em lei.
O conceito de necessitado foi considerado constitucional pelo STF (ADIn nº 1.232- DF). Todavia, já decidiu o STJ que o limite de ¼ do salário mínimo não é absoluto, pois “deve ser considerado como um limite mínimo, um quantum objetivamente considerado insuficiente à subsistência do portador de deficiência e do idoso, o que não impede que o julgador faça uso de outros fatores que tenham o condão de comprovar a condição de miserabilidade do autor” (AGRESP 523864/SP, Rel. Min. Felix Fischer). No mesmo sentido, AgRg no AREsp 202.517-RO, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, julgado em 2/10/2012. (IBRAHIM, 2014, p. 14)
Sobre o discutido acima, merece destaque o entendimento do magistrado relator Gilberto Jordan do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, vejamos:
Não se pode interpretar o parágrafo 3º do artigo 20 da Lei n. º 8.742/93 como restritor à concessão de benefícios assistenciais quando a renda per capita familiar seja superior a 1/4 (um quarto) do salário mínimo, quando no caso concreto estão presentes todos os requisitos justificadores da concessão do benefício, pois tal interpretação é odiosa, por contrariar os princípios do instituto em questão. (TRF 3.ª Região. AC 695851. Processo 200103990247626/SP. 1.ª T. 19.03.2002.) 
Logo, nota-se que é possível tal alteração no requisito, o qual deve ter por base a ideia inicial desenvolvida pelo legislador em 1988, prevista na Constituição Federal – a preservação da dignidade da pessoa humana e os objetivos da Assistência Social como garantias.
Em suma, não há dúvidas da necessidade e importância do tema, afinal, abrange a população mais indefesa – portadores de deficiência e idosos, que constantemente dependem de suas famílias, principalmente financeiramente.
Sendo assim, frisa-se novamente, os amparados são pessoas altamente vulneráveis, que necessitam do benefício para sobreviver dignamente, motivo pelo o qual, faz-se necessitário a análise do requisito visando a flexibilização do conceito.
CONCLUSÃO
O tema é relevante para o mundo jurídico e social, visto que, além de envolver grande parte da população brasileira necessitada, isto é, idosos e deficientes, acarreta grande inseguridade jurídica, visto que a divergência entre o órgão concessor e o judiciário é tão gritante que o autor fica dependente da interpretação do magistrado.
Embora o Supremo Tribunal Federal tenha decidido pela constitucionalidade do requisito miserabilidade, ainda é possível verificar controversas no judiciário, de forma que o tema não se encontra pacificado. 
Ao se exigir como critério objetivo a comprovação da renda per capita inferior à um quarto do salário mínimo, delimitou tanto os possíveis beneficiários que deixou em haver para com a população, não sendo eficaz no seu todo.
 Logo, a população fica submissa da Lei Orgânica da Assistência Social – e suas lacunas – bem como a interpretação do juiz do caso.
Apesar de não ser critério absoluto para a configuração da miserabilidade, o INSS (órgão responsável pela concessão do benefício), segue a letra de lei, adotando a renda inferior a um quarto do salário mínimo por membro do grupo familiar, não o flexibilizando, motivo pelo qual continua indeferindo benefícios assistenciais de grande importância para a população necessitada. Além de se manter contra princípios constitucionais fundamentais e sobrecarregando o Poder Judiciário com ações que poderiam ser concedidas no âmbito administrativo. 
Pelo já exposto, fica evidente a necessidade de discutir o tema, objetivando principalmente alcançar famílias vulneráveis, que não mais conseguem garantir a subsistência de suas famílias. 
De acordo com o descrito, é nítido que as divergências judiciais e administrativas ainda estão longe de alcançarem um consenso, e que a imparcialidade do INSS, juntamente com seu desinteresse, dificulta ainda mais a relativização do conceito de miserabilidade. 
Porém, é fato que o indivíduo, comprovando enquadrar-se em situação de vulnerabilidade, não será privado de seus direitos – constitucionalmente garantidos, e que o judiciário, diante do caso concreto, não se restringirá a um critério objetivo estabelecido em lei.
Por fim, diante de tamanho problema envolvido na questão, preza-se por um novo entendimento positivo sobre o tema. Que finalmente encerre a discussão do requisito miserabilidade e acabe com divergência entre o poder judiciário, constantemente sobrecarregado com ações que demandam muito dos cofres públicos, interpostas contra o INSS, a fim de comprovar unicamente a miserabilidade nos casos em que a renda per capita familiar se iguala ou ultrapassa insignificativamente o requisito elencado em Lei.
REFERÊNCIAS
ALENCAR, Hermes Arrais. Beneficios Previdenciários – Temas integrais revisados e atualizados pelo autor com obediência as leis especiais e gerais. 4ª. ed. São Paulo: Livraria e Editora Universitária de Direito, 2009.
BONAT, Luis Antonio. Apelação/Reexame 5000365-34.2016.404.9999/PR. Julgado em 29/03/2016. DJe 30/03/2016. Disponível em: https://trf-4.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/382785220/apelacao-reexame-necessario-apelreex-50003653420164049999-5000365-3420164049999/inteiro-teor-382785263 
. Acesso em: 11 abr. 2018. 
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1998. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 02 fev 2018.
_______. Decreto nº. 6.214, de 26 de setembro de 2007. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 2007. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2007/Decreto/D6214.htm>. Acesso em: 23 mar. 2018.
_______. Decreto nº 7.617, de 17 de novembro de 2011. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF. 2011. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/CCIVil_03/_Ato2011-2014/2011/Decreto/D7617.htm>. Acesso em: 30 fev. 2018.
_______. Lei nº. 8.213, de 24 de julho de 1991. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Congresso Nacional, Brasília, DF, 1991. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8213cons.htm>. Acesso em: