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direito_de_propriedade_2015-1

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Ausente a finalidade pública bem delimita-
da, é viável a permanência da apelada e sua família no imóvel, uma vez que, 
mantida a situação fática existente, estar-se-ia, sem dúvida, cumprindo com a 
função social do imóvel. Como dito alhures, desnecessária a edição d medida 
de provisória com o fito de disciplinar a função social da propriedade, tendo 
em vista que esta goza de assento constitucional (arts. 5º, XXIII e 170, III, 
CRFB/88), e, repita-se, não dando a municipalidade função social ao bem, 
este caracterizado como dominical, faz-se mister a chamada concessão de uso 
especial. Observando-se, contudo, que não se está conferindo o domínio, mas 
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sim a posse do imóvel para o fim específico de moradia, estando o possuidor, 
que deu função social ao imóvel, sujeito à cassação da concessão do benefício, 
na hipótese de descumprimento dos requisitos e fins determinados.
Recurso conhecido e desprovido.
(TJRJ. AC 2006.001.44440. Rel. Des. Azevedo Pinto. Décima Terceira 
Câmara Cível. J. 13/12/2006)
Importante perceber que a jurisprudência, por vezes, confere diferentes 
interpretações ao conceito de função social da propriedade. Neste sentido é o 
agravo de instrumento n. 0034470-72.2011.8.19.0000, julgado pelo TJRJ:
AGRAVO DE INSTRUMENTO. TUTELA ANTECIPADA. VERBE-
TE N º 59 DA SÚMULA DESTE TRIBUNAL. Reforma de decisão agrava-
da somente em casos de teratologia, ilegalidade ou não observância da prova 
dos autos. Pronunciamento não enquadrado em qualquer dessas hipóteses. 
Ação civil Pública. Contrato de depósito de veículos apreendidos. Desco-
berta de focos de mosquito transmissor da dengue no local. Dano iminente 
à incolumidade pública demonstrado. Obrigação de conservação da coisa 
depositada. Observância dos princípios da função social da propriedade do 
contrato. Plausibilidade do direito invocado e risco de lesão grave à popula-
ção. Determinação de paralisação da atividade negocial e cobertura do terre-
no, de modo a evitar a acumulação de água. Restrições razoáveis. Atendimen-
to do interesse público. Recurso a que se nega seguimento.
(TJRJ. Agravo de instrumento n. 0034470-72.2011.8.19.0000Rel. Rel. 
Des. Carlos Eduardo Passos. Segunda Câmara Cível. J. 14/07/2011)
Já o acórdão abaixo, ao fim, traz o conceito de função social ecológica da 
propriedade. Além disso, no item 7, o acórdão desconstrói a tese de que a 
utilidade econômica do imóvel não se esgote num único uso, nem tampouco 
no melhor uso.
PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. AUSÊNCIA DE PRE-
QUESTIONAMENTO. SÚMULA 211/STJ. MATA ATLÂNTICA. DE-
CRETO 750/1993. LIMITAÇÃO ADMINISTRATIVA. PRESCRIÇÃO 
QUINQUENAL. ART. 1.228, CAPUT E PARÁGRAFO ÚNICO, DO 
CÓDIGO CIVIL DE 2002.
1. É inadmissível Recurso Especial quanto a questão que, a despeito da 
oposição de Embargos Declaratórios, não foi apreciada pelo Tribunal de ori-
gem. Incidência da Súmula 211/STJ.
2. Ressalte-se, inicialmente, que a hipótese dos autos não se refere a pleito 
de indenização pela criação de Unidades de Conservação (Parque Nacional 
ou Estadual, p.ex.), mas em decorrência da edição de ato normativo stricto 
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sensu (Decreto Federal), de observância universal para todos os proprietários 
rurais inseridos no Bioma da Mata Atlântica.
3. As restrições ao aproveitamento da vegetação da Mata Atlântica, trazi-
das pelo Decreto 750/93, caracterizam, por conta de sua generalidade e apli-
cabilidade a todos os imóveis incluídos no bioma, limitação administrativa, 
o que justifica o prazo prescricional de cinco anos, nos moldes do Decreto 
20.910/1932. Precedentes do STJ.
4. Hipótese em que a Ação foi ajuizada somente em 21.3.2007, decor-
ridos mais de dez anos do ato do qual originou o suposto dano (Decreto 
750/1993), o que configura a prescrição do pleito do recorrente.
5. Assegurada no Código Civil de 2002 (art. 1.228, caput), a faculdade de 
“usar, gozar e dispor da coisa”, núcleo econômico do direito de propriedade, 
está condicionada à estrita observância, pelo proprietário atual, da obrigação 
propter rem de proteger a flora, a fauna, as belezas naturais, o equilíbrio eco-
lógico e o patrimônio histórico e artístico, bem como evitar a poluição do ar 
e das águas (parágrafo único do referido artigo).
6. Os recursos naturais do Bioma Mata Atlântica podem ser explorados, 
desde que respeitadas as prescrições da legislação, necessárias à salvaguarda 
da vegetação nativa, na qual se encontram várias espécies da flora e fauna 
ameaçadas de extinção.
7. Nos regimes jurídicos contemporâneos, os imóveis — rurais ou ur-
banos — transportam finalidades múltiplas (privadas e públicas, inclusive 
ecológicas), o que faz com que sua utilidade econômica não se esgote em um 
único uso, no melhor uso e, muito menos, no mais lucrativo uso. A ordem 
constitucional-legal brasileira não garante ao proprietário e ao empresário o 
máximo retorno financeiro possível dos bens privados e das atividades exer-
cidas.
8. Exigências de sustentabilidade ecológica na ocupação e utilização de 
bens econômicos privados não evidenciam apossamento, esvaziamento ou 
injustificada intervenção pública. Prescrever que indivíduos cumpram certas 
cautelas ambientais na exploração de seus pertences não é atitude discrimi-
natória, tampouco rompe com o princípio da isonomia, mormente porque 
ninguém é confiscado do que não lhe cabe no título ou senhorio.
9. Se o proprietário ou possuidor sujeita-se à função social e à função eco-
lógica da propriedade, despropositado alegar perda indevida daquilo que, no 
regime constitucional e legal vigente, nunca deteve, isto é, a possibilidade de 
utilização completa, absoluta, ao estilo da terra arrasada, da coisa e de suas 
virtudes naturais. Ao revés, quem assim proceder estará se apoderando ilici-
tamente (uso nocivo ou anormal da propriedade) de atributos públicos do 
patrimônio privado (serviços e processos ecológicos essenciais), que são “bem 
de uso comum do povo”, nos termos do art. 225, caput, da Constituição de 
1988.
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10. Finalmente, observe-se que há notícia de decisão judicial transitada 
em julgado, em Ação Civil Pública, que também impõe limites e condições 
à exploração de certas espécies da Mata Atlântica, consideradas ameaçadas de 
extinção.
11. Recurso Especial parcialmente conhecido e não provido.
(STJ. REsp 1.109.778. Rel. Min. Herman Benjamin. Segunda Turma. J. 
10/11/2009. DJ 04/05/2011)
V. RECURSOS /MATERIAIS UTILIZADOS
Leitura obrigatória:
TEPPEDINO, Gustavo. Contornos constitucionais da propriedade privada. 
In. Temas de Direito Civil. Rio de Janeiro: Renovar, 1999, pp. 267-293.
Leitura complementar:
VARELA, Laura Beck. Das Sesmarias à Propriedade Moderna. Rio de Janeiro: 
Renovar, 2005, pp. 219-234.
VI. AVALIAÇÃO
Caso gerador:
1) Leia a ementa do mandado de segurança a seguir e, após, responda o 
que se segue.
MANDADO DE SEGURANÇA — ÁREA INDÍGENA — DECLA-
RAÇÃO DE POSSE E DEFINIÇÃO DE LIMITES PARA DEMARCA-
ÇÃO ADMINISTRATIVA — PORTARIA MINISTERIAL DECOR-
RENTE DE PROPOSIÇÃO DA FUNAI — INTERDIÇÃO DA ÁREA 
— TITULO DOMINIAL PRIVADO — CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 
ART. 231 — ADCT, ART. 67 — LEI N. 6001/73 — DECRETO FEDE-
RAL N. 11/91 — DECRETO FEDERAL N. 22/91.
1. O direito privado de propriedade, seguindo-se a dogmática tradicional 
(código civil, arts. 524 e 527), a luz da constituição federal (art. 5º, XXII), 
dentro das modernas relações jurídicas, políticas, sociais e econômicas, com 
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7 MELO, Marco Aurélio Bezerra de. Direi-
to das Coisas. 5ª edição. Rio de Janeiro: 
Lumen Juris, 2011, p. 86.
limitações de uso e gozo, deve ser reconhecido com sujeição à disciplina e 
exigência da sua função social (art. 170, ii e iii, 182, 183, 185 e 186, c. F.). 
É a passagem

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