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questao social

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1.1 Manifestação da questão social e seus fundamentos socio-históricos, políticos, econômicos e culturais
A questão social é transformada com a movimentação da sociedade. Para sua compreensão, vamos estudar a história do século XIX. Antes, porém, lembremos que o capitalismo surgiu com o fim do feudalismo, nos séculos V a XV, na Europa (BRAUDEL, 1995). Este se estendeu pela Idade Média, sendo o poder dos senhores feudais superior ao dos reis. Essa descentralização de poder marca o fim do período medieval.
Surgem os burgueses, comerciantes da época, que defendiam o mercantilismo. Junto a isso, a acumulação primitiva ganhou formas, e mudanças nas relações sobre as terras se acentuaram.
A burguesia, apesar de não deter o poder político — monopolizado pelo clero e pela nobreza —, ampliou sua influência econômica, aliada à acumulação primitiva como processo de enriquecimento, entre os séculos XVI e XVIII. Isso foi determinante para as transformações econômicas da Revolução Industrial.
A partir do exposto, você já consegue imaginar a relação da questão social com o capitalismo? Como era a economia da época? O que mudou para as pessoas comuns? Vamos ver as dinâmicas da sociedade que tem como atores os burgueses, os trabalhadores que perderam suas terras, os artesãos, os trabalhadores da manufatura e os do início da indústria.
Ao estudar este tópico, você será identificará as características dos fundamentos da questão social reconhecendo seu processo e avanço.
1.1.1 O cercamento das terras
Na Inglaterra do século XVI, como parte da tradição econômica de utilização comunitária da terra que remontava à Idade Média, os camponeses utilizavam as terras de forma comunal e delas extraíam madeira, caça e outros produtos para a sobrevivência. A partir desse período, com as Leis de Cercamentos (Enclosure Acts) editadas por sucessivos monarcas ingleses, viram-se privados dessa fonte de recursos. O que aconteceu nesse novo cenário? As terras que eram de uso comum dos camponeses foram cercadas por poderosos senhores feudais numa ação de privatização dos espaços comuns às populações (POLANYI, 2000).
Vejamos de forma mais detalhada esse processo de privatização da terra. Eram muito comuns na Inglaterra os campos abertos. Qualquer cidadão poderia manter seu cultivo sem ser o proprietário das terras. As comunidades primitivas viviam baseadas no costume e na reciprocidade das pessoas em que todos favoreciam o bem comum. O processo do cercamento de terras deu lugar à exploração em campos fechados, e as terras foram cercadas. Apareceram donos para os espaços que antes eram partilhados com quem podia caçar, extrair madeira ou cultivar. Com os cercamentos, a terra passa a ser mercadoria. Os proprietários podiam comprar e vender, enquanto a maioria daqueles que lá viviam eram expulsos já que não tinham meios para a aquisição de terras. Para aumentar os lucros com a venda de suas terras, os fazendeiros começaram a devastar as florestas e a drenar os pântanos localizados em suas propriedades. Com isso, uma verdadeira revolução agrícola ocorreu.
A Revolução Agrícola ficou conhecida pela implementação de novas técnicas nas plantações da Inglaterra, para o aumento da produção, por exemplo: cavalos puxavam alguns maquinários para agilizar os processos e diminuir a força humana, ou ainda o plantio da mesma espécie de vegetação para facilitar o manuseio e garantir um volume maior do mesmo produto (PEREIRA, 2001).
O cercamento das terras marca a transição do feudalismo para o capitalismo, uma vez que a propriedade privada é uma instituição primordial deste último. O trabalhador perde o acesso às terras, restando-lhe a venda da força de trabalho em troca de salário. Tal contexto promoveu o fortalecimento da burguesia, a constituição do proletariado e o desenvolvimento da Revolução Industrial.
A expropriação das terras e a apropriação privada de uma minoria, ainda no século XV, marcam o início da exploração da propriedade privada capitalista, e da apropriação do trabalho humano por consequência. Trabalho e terra, apesar de serem considerados mercadorias, não podem ser compreendidos dessa forma, como afirma Polanyi (2000, p. 89):
A terra era o componente fundamental da ordem feudal, formando-se, pois, a base do sistema militar, jurídico, administrativo e político. Ademais o status e a função dessa ordem eram determinados pelas leis e costumes... O mercantilismo, por sua vez, levava a almejar o desenvolvimento dos recursos nacionais com base nos negócios e no comércio... Trabalho, terra e dinheiro são elementos essenciais da indústria e devem assim ser organizados em mercados, o que leva à falsa ideia de que são mercadorias. Trabalho é a atividade humana produzida não para a venda, mas para fins diversos e não pode ser armazenada. Terra diz respeito à natureza, que como sabemos não pode ser produzida pelo homem. Dinheiro é o equivalente geral dos preços, intermediador das trocas e não algo produzido para a troca. Portanto, tratar terra, trabalho e dinheiro como mercadorias é uma ficção.
Para Polanyi (2000), entender o trabalho e a terra como mercadorias é algo incorreto, ou melhor, fictício. Toda uma dinâmica da sociedade, tanto econômica quanto social, sofre com tanta mudança. O homem que foi sujeitado a essa alteração em relação à sua forma de sobreviver pode ser considerado abandonado socialmente.
Toda essa reestruturação da produção de bens, e agora consumo, favorecidamente realizada pela burguesia, muda o panorama da vida centrada no bem comum da comunidade entendida como primitiva. O que acontece com essa população? A sua vida ganha novos rumos e sua força de trabalho, como outras mercadorias, passa a ser vendida.
O livro "História social e econômica moderna", escrito por Ricardo Selke e Natália Bello, faz um resgate histórico para o entendimento do mundo moderno por meio das mudanças que ocorreram do fim da Idade Média até a Idade Moderna, as quais levaram à acumulação de capital. Recomendamos a leitura das páginas 29 a 36. Elas são referentes ao item que narra a história do sistema feudal até o capitalismo.
Neste primeiro momento, podemos analisar de forma histórica as transformações na vida das pessoas comuns que viviam na Europa, principalmente na Inglaterra, até o século XVIII (BRAUDEL, 1995). Os interesses sociais foram colocados de lado em favor dos interesses econômicos, os quais se tornaram o principal motivo da reorganização social.
1.1.2 As formas de troca
Ainda para compreender o surgimento do capitalismo, vamos retornar às sociedades primitivas que tinham sua vida preservada pelos próprios membros da comunidade por entenderem que isso era uma obrigação moral. O trabalho exercido por um indivíduo normalmente era direcionado pelo parentesco, ou melhor, pela família a que pertencia, algo como uma tradição.
Prevalecia na vida medieval uma ordem social cujo centro era a família, com privilégio hereditário que se perpetuava através dos tempos. O exercício da autoridade passava de pai para filho em obediência à linhagem real ou aristocrática sacramentada pela tradição. Família e propriedade constituíam, pois, antes da constituição dos Estados nacionais, a base do poder governamental (PEREIRA, 2003, p. 64).
As produções não eram destinadas à compra ou à venda, e sim à troca. Os bens eram escassos, contudo, era uma escassez provocada pela falta do bem ou produto e não por uma lógica de mercado que exigia um consumo após uma compra de mercadoria ou serviço.
Para Polanyi (2000), nas sociedades primitivas e arcaicas, ressaltam-se três possibilidades de troca: a reciprocidade, a redistribuição e a troca de mercadoria ou troca relacionada com negociação de mercado.
A reciprocidade, vinculada às sociedades primitivas, é considerada uma movimentação de produtos que não se assemelha ao comércio, sendo uma forma de relação social. Esta relação contava com a formação de acordos espontâneos, sem regras preestabelecidas ou muitas exigências entre as pessoas que realizariam as trocas. Toda a família teria a responsabilidade
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