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FRAUDE CONTRA CREDORES

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VÍCIOS SOCIAIS
Simulação e fraude contra credores são os dois vícios sociais típicos previstos em nosso Código Civil. São vícios sociais em razão da má-fé na manifestação de vontade, distinguindo-se dos vícios de vontade, onde há um defeito na formação da vontade negocial. A simulação está regulada, essencialmente, no art. 167 do Código. A fraude contra credores nos artigos 158 a 165.
SIMULAÇÃO
ARTIGO 167 DO CÓDIGO CIVIL
Conceito de simulação: Simulação é um conluio, uma mancomunação entre duas ou mais pessoas que encenam um negócio jurídico que sabem não ser verdadeiro, com o intuito de enganar terceiros. Existe entre eles, portanto, um acordo simulatório, uma divergência consciente entre a vontade real e a declarada.
Exemplos
1. Art. 496: Venda de ascendente para descendente. Para contornar a anulabilidade por falta de consentimento dos demais descendentes, o pai “faz de conta” que vende o bem a uma terceira pessoa, e esta “vende” o bem ao filho. Simulação por interposta pessoa. 
2. Art. 550: Doação de cônjuge adúltero ao cúmplice. Para contornar a anulabilidade, em ação proposta pela esposa traída, camufla-se a doação de compra e venda.
	CLASSIFICAÇÃO DA SIMULAÇÃO
I. Quanto à extensão: analisem as seguintes situações:
° -------------------------------------------------------------- °
 Negócio jurídico Terceiro(s) enganado(s)
 simulado
°----------------------------------------- ° --------------------------------------------°
 Negócio jurídico Negócio jurídico Terceiro(s) enganado(s)
 verdadeiro que os simulado
 simuladores querem
esconder. Dissimulado.
	1. Simulação absoluta: é a primeira situação. Os simuladores encenam um 	negócio jurídico que sabem não ser verdadeiro, com o propósito de enganar 	terceiros, sem na realidade nada negociarem. Só existe o negócio jurídico 	simulado. Não existe o dissimulado. Exemplo: o irmão endividado que, 	apenas “pró-forma”, transfere seu carro para o outro irmão, para ele não ser 		penhorado em execução por dívidas. Estes irmãos, verdadeiramente, não 	celebraram negócio jurídico algum.
	2. Simulação relativa: é a segunda situação. Os simuladores encenam um 	negócio jurídico que sabem não ser verdadeiro, escondendo outro que, na 	realidade, estão celebrando. Aqui temos o negócio jurídico simulado e o 	negócio jurídico dissimulado. No exemplo acima mencionado, envolvendo o 	art. 550, o marido “faz de conta” que vende a casa para a amante (simulado), 	quando, na realidade, está dando a casa de presente (dissimulado).
II. Classificação legal: Artigo 167, § 1º - Haverá simulação nos negócios jurídicos quando:
	I – Aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às 	quais realmente se conferem, ou transmitem. É a chamada simulação 	subjetiva, ou por interposta pessoa. Será sempre uma simulação relativa.
	II – Contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira. É 	a chamada simulação objetiva, porque diz respeito ao conteúdo do negócio. 	Pode ser absoluta ou relativa.
	III – Os instrumentos particulares forem antedatados ou pós-datados. 	Simulação quanto ao tempo do negócio.
III. Quanto aos danos:
	1. Simulação maliciosa: a encenação engana terceiros e lesa, causa prejuízo 	a alguém.
	2. Simulação inocente: a encenação engana terceiros, mas não lesa. A 	motivação da simulação é de ordem social ou familiar, sem gerar prejuízo.
Artigo 167, caput: “É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma.
OBSERVAÇÕES:
1. Terceiros de boa-fé em face da simulação. Art. 167, § 2º: “Ressalvam-se os direitos de terceiros de boa-fé em face dos contraentes do negócio jurídico simulado.” No exemplo do cônjuge adúltero que doa um apartamento para a amante, camuflando o negócio como se fosse uma compra e venda, suponham que a amante venda o apartamento a terceiro, que nada tem a ver com aquele imbróglio familiar. Vindo a ser descoberta a simulação, este terceiro adquirente poderia ser prejudicado. Parte da doutrina (Francisco Amaral, Silvio Venosa) defende, então, a subsistência desse negócio, com base nesse § 2º, para proteger o terceiro de boa-fé. Outros autores defendem que, sendo nula a simulação, ela não poderia gerar efeitos, resolvendo-se a questão em perdas e danos.
2.Simulação e reserva mental. Art. 110: “A manifestação de vontade subsiste ainda que o seu autor haja feito a reserva mental de não querer o que manifestou, salvo se dela o destinatário tinha conhecimento.” A simples reserva mental, quando unilateral, é irrelevante para a validade da declaração de vontade. Se essa reserva mental for bilateral, partes da doutrina, com base no Direito Português, entendem ficar caracterizada a simulação (Silvo Venosa). Outros autores (Carlos Roberto Gonçalves, Francisco Amaral), entendem que passa a ser caso de negócio jurídico inexistente.
3. Código Civil Brasileiro. Modificação de regime jurídico. De acordo com o Código de 2002, toda simulação é nula, ressalvando-se, apenas, a subsistência do negócio jurídico dissimulado nas simulações inocentes. No Código anterior, de 1916, a simulação maliciosa era anulável e a simulação inocente era válida.
4. Dificuldade probatória na simulação. Se os simuladores, conscientemente, encenam um negócio jurídico que sabem não ser verdadeiro, sobretudo quando causam prejuízo a terceiros, dificilmente haverá prova direta da simulação, porque obviamente os simuladores não deixarão registro do que fizeram. Mas isso não torna impossível demonstrar que existiu uma simulação por meios indiretos (vestígios/evidências). Exemplos: quebra de sigilo fiscal e bancário, testemunhas sobre a posse, parentesco próximo entre os simuladores, preços irrisórios ou desproporcionalmente elevados, etc.
FRAUDE CONTRA CREDORES
ARTIGOS 158 A 165 DO CÓDIGO CIVIL
	O segundo vício social típico regulado no Código Civil é a fraude contra credores. Neste momento do curso de Direito, o exame desse instituto encerra alguma dificuldade, porque exige conhecimento de algumas noções processuais e de responsabilidade civil.
Conceito: A fraude contra credores é um vício social pelo qual um devedor insolvente pratica atos de disposição patrimonial, ou atos equiparados a estes, dificultando ou impedindo que seus credores consigam, judicialmente, obter a satisfação dos seus créditos.
Noções preliminares para a compreensão do conceito:
1.Noção de responsabilidade civil. Os bens do devedor como garantia genérica do cumprimento de suas obrigações (pagamento de dívidas), salvo algumas exceções. Código Civil, art. 391. Código de Processo Civil, art. 789.
2.Noção de processo de execução. A expropriação compulsória de bens para pagamento de dívidas. Código de Processo Civil, artigos 771 a 925.
3.Noção de insolvência. Não propriamente a ausência de bens, mas a ideia contábil do passivo superando o ativo, abrangendo também a pré-insolvência.
4.Classificação dos créditos. Créditos privilegiados, créditos preferenciais, créditos quirografários.
Elementos da fraude contra credores:
1.Elemento objetivo. Eventusdamni. O negócio jurídico que lesa credores quirografários.
2.Elemento subjetivo. Consilium fraudis. O conluio, o acordo entre o devedor insolvente e o terceiro que com ele negocia, com a intenção de lesar credores.
Destaques:
a)Perfil atual objetivo do instituto: O consilium fraudis é quase sempre, integralmente, presumido. Não precisa ser provado.
b)Proximidade, mas não equiparação, com a simulação: com grande facilidade, os dois vícios sociais, a simulação e a fraude contra credores podem ser usados combinadamente. Por exemplo: o devedor insolvente que, apenas formalmente, transfere o carro para seu irmão, só para que o bem não seja penhorado por dívidas. Mas essa combinação não é necessária: pode existir fraude contra credores sem simulação, assim como pode existir simulação que não

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