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A centralidade da superexploração da força de trabalho no padrão de reprodução do capital das economias dependentes - publicado como cap  7 do livro "Agenda de debates e desafios teóricos   " org

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A CENTRALIDADE DA SUPEREXPLORAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO NO
PADRÃO DE REPRODUÇÃO DO CAPITAL DAS ECONOMIAS DEPENDENTES
Wendell da Costa Magalhães1
RESUMO
Este trabalho, com base na Teoria Marxista da Dependência, principalmente nas obras de Ruy
Mauro Marini e Jaime Osorio, trata da centralidade ocupada pelo fenômeno da
superexploração da força de trabalho no chamado padrão de reprodução do capital das
economias dependentes, em especial das economias latino-americanas. Tem o objetivo, assim,
de deixar claro como tal fenômeno se evidencia como elemento central, estruturante e
definidor do padrão de reprodução do capital vigente nessas economias ao longo do
desenvolvimento dos respectivos ciclos do capital que aí se conformam. Para isso, se fez uma
revisão bibliográfica de um conjunto de trabalhos capazes de nos esclarecer a relação
ontológico-categorial das categorias dependência, superexploração da força de trabalho e
padrão de reprodução do capital; e de como estas refletem a lógica e historicidade das
economias latino-americanas, exposta, num nível mais alto de abstração, nos seus
correspondentes ciclos do capital que se sucedem. Como resultado, tem-se que a forma
particular com que se comporta a lei do valor mundializada nas economias dependentes
latino-americanas supõe, para o seu entendimento, uma perspectiva integradora que perpassa
pela consideração do ciclo do capital na economia dependente em sua totalidade; e pelo
reconhecimento da centralidade da superexploração da força de trabalho no padrão de
reprodução do capital responsável por fazer a mediação dessa lei em tempo e espaço
particular.
Palavras-chave: Superexploração da força de trabalho. Padrão de reprodução do capital.
Dependência. Ciclo do capital. Teoria Marxista da Dependência.
ABSTRACT
This work, based on the Marxist Theory of Dependence, mainly in the works of Ruy Mauro
Marini and Jaime Osorio, it treats of the centrality occupied by the phenomenon of
superexploitation of the workforce in the called reproduction pattern of capital of dependent
economies, especially of Latin American economies. Thus, its purpose is to make clear how
this phenomenon is evidenced as a central, structuring and defining element of the
reproduction pattern of capital prevailing in these economies throughout the development of
the respective capital cycles that conform there. For this, it was made a bibliographic review
of a set of works that are able to clarify the ontological-categorical relation of the categories
dependence, superexploitation of the workforce and reproduction pattern of capital; and how
these categories reflect the logic and historicity of Latin American economies, exposed at a
higher level of abstraction in their corresponding cycles of capital. It is concluded that the
1 Bacharel em Ciências Econômicas (UFPA) e Mestre em Economia, com concentração em Desenvolvimento
Econômico Regional, pelo Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal do Pará –
wendell10magal@hotmail.com.
particular way in which the law of worldwide value behaves in Latin American dependent
economies presupposes, for their understanding, an integrative perspective that goes through
the consideration of the cycle of capital in the dependent economy as a whole; and that the
centrality of superexploitation of the workforce in the reproduction pattern of capital
responsible for mediating this law in particular time and space must be recognized.
Keywords: Superexploitation of the workforce. Reproduction pattern of capital. Dependence.
Capital cycle. Marxist Theory of Dependence.
INTRODUÇÃO
A Teoria da Dependência que surge em meados da década de 1960,
predominantemente pelas mãos de autores latino-americanos, pode ser subdividida, conforme
seu aspecto teórico-metodológico, em uma versão weberiana, representada por Fernando
Henrique Cardoso e Enzo Faletto2; e uma versão marxista, com a qual nos filiamos, e que tem
nos nomes de Theotonio Dos Santos, Vânia Bambirra, Ruy Mauro Marini, Orlando Caputo,
Adrián Sotelo Valência e Jaime Osorio seus principais representantes3. No que toca à primeira
destas versões, conforme se deu seu desenvolvimento, no lugar de uma Teoria da
Dependência, o que mais parece comparecer é uma “apologia da dependência”, como bem
assinala o professor Nilson Araújo de Souza (2005). Ali, segundo Martins (2011), os autores
trabalham com um tipo ideal da dependência, coisa característica do aporte teórico-
metodológico weberiano, no qual o uso das categorias marxistas torna-se simples fraseologia
subordinada a este primeiro, perdendo seu vigor crítico original.
Muito diferente disso, consideramos que a chamada Teoria Marxista da Dependência
(TMD), em perfeita linha com o pensamento de Marx, nos fornece um aporte teórico-
metodológico valioso para o estudo da conformação da lei do valor capitalista em espaço e
tempo determinado, apontando, com a crítica que faz, a necessidade de superação não
somente do que estabelece como dependência, mas da própria sociabilidade pautada pelo
capital. Dos autores que elaboraram essa teoria, Ruy Mauro Marini, em especial, ao
empreender o exercício teórico que dá fruto a sua obra a respeito do que podemos chamar de
capitalismo dependente, nos lega categorias fundamentais que aqui visamos resgatar para a
compreensão da dialética da dependência presente na América Latina. Destacamos aí nessa
tarefa, sobretudo, as categorias de dependência, superexploração da força de trabalho e
padrão de reprodução do capital.
2 Cf. CARDOSO, Fernando Henrique; FALETTO, Enzo [1969]. Dependência e desenvolvimento na América
Latina: ensaio de interpretação sociológica. 6 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
3 Cf. Martins (2011) e Luce (2018).
Com estas, visamos esclarecer, com base na TMD, como o fenômeno da
superexploração da força de trabalho se evidencia como elemento central, estruturante e
definidor do padrão de reprodução do capital vigente nas economias dependentes, em especial
nas economias latino-americanas, ao longo da sucessão dos diferentes ciclos do capital que aí
se conformam. Tal objetivo se mostra importante de ser atingido para que, convencidos deste
diagnóstico, possamos pensar estratégias de superação do nosso subdesenvolvimento e
dependência em relação às leis do capitalismo global, levando em conta as formas particulares
com que estas se afirmam em nosso continente. 
Para isso, para além desta introdução e das considerações finais, estruturamos este
trabalho em cinco capítulos. O primeiro se detém em introduzir as categorias de análise aí
citadas e o respectivo fundamento de cada uma delas. No segundo, apresenta-se o surgimento
da dita economia exportadora a partir da plena integração da América Latina à divisão
internacional do trabalho (DIT), e sua caracterização por um padrão agromineiro exportador,
pautado pelo fenômeno da superexploração da força de trabalho. No terceiro capítulo, convêm
demonstrar como a industrialização das economias dependentes não encerra esse último
fenômeno, mas o perpetua com a configuração de um novo ciclo do capital que estabelece a
lógica de seu padrão industrial. No quarto capítulo, tratamos do que Marini ([1973] 2011a)
denomina como o novo anel da espiral, situação em que o padrão de reprodução do capital na
economia dependente já industrializada passa a sofrer a intervenção direta do capital
estrangeiro, elevando o desenvolvimento das forças produtivas na região, mas não deixando
de conferir centralidade à superexploração da força de trabalho, o que eleva a dependência a
um novo patamar financeiro e tecnológico. No quinto capítulo, apresentamos o caráter geral
do ciclo do capital