A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
12 pág.
Resenha Livro Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina - Carlos Eduardo Martins

Pré-visualização | Página 1 de 5

MARTINS, Carlos Eduardo. Globalização, Dependência e Neoliberalismo na América Latina. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.
Logo na introdução da obra, o autor anuncia que “captar o movimento da crescente articulação entre o global e as particularidades regionais, nacionais e locais é um dos maiores desafios das ciências sociais contemporâneas”. Dessa forma, o livro busca, segundo o próprio autor, situar as trajetórias e possibilidades da América Latina num espaço mundial em movimento. A análise aqui é prospectiva e retrospectiva, segundo Martins, e, para tanto, usa como guia a história. Estruturas, tendências seculares e ciclos permeiam o trabalho que não quer oferecer certezas matemáticas, mas interpretações heurísticas da realidade.
Globalização, dependência e neoliberalismo são, para o autor, eixos analíticos para compreender a posição da América latina no mundo em que vivemos e as alternativas com que se defronta. O primeiro capítulo se caracteriza como uma introdução metodológica da globalização. Nele, cinco visões a respeito do fenômeno são resumidas, tendo especial ênfase a teoria da dependência e a teoria do sistema mundial. O resumo dessas visões não se mostra gratuito, mas busca, a partir de um diálogo com tais visões, construir um aparato de investigação próprio da globalização.
Dando início ao capítulo em questão, o autor começa se interrogando o que é exatamente globalização; que impactos e modificações ela produz sobre as estruturas econômicas, políticas, sociais e ideológicas anteriores; e que novas direções despontam para o desenvolvimento da humanidade. Na resposta à primeira pergunta, o autor apresenta, em linhas gerais, as cinco visões da globalização já mencionadas na introdução e prefácio do livro.
A primeira interpretação é a globalista. Para esta, a globalização criou um novo objeto para as ciências sociais: a sociedade global. Como novidade radical, ela subordina o local e o nacional. Faz isso com base no paradigma tecnológico microeletrônico que, ao fundir as tecnologias eletrônicas e de comunicação, permite a integração financeira e produtiva em escala planetária. Os atores que encabeçam esse processo são corporações multinacionais – que tornaram-se empresas globais – junto dos fundos de investimento e pensão, e os grandes bancos, que criam um regime de acumulação desterritorializado como predomínio da riqueza financeira sobre a produtiva, condicionando as políticas estatais, portanto, aos objetivos de rentabilidade desses atores. Na esfera social, os direitos trabalhistas e a grande rede de proteção social tornam-se obsoletos e são ameaçados de extinção.
O autor ressalta que, na descrição dos elementos da era global, os autores globalistas convergem, mas no que tange aos seus efeitos, divergem, dividindo-se entre aqueles que acreditam na tendência à sincronia, harmonia e integração, assim que assimilada a nova cultura da competitividade; e os que, inversamente, consideram que esse processo tende à polarização, diacronismo e, no limite, à revoluções socialistas mundiais.
A segunda interpretação da globalização é formulada pelas teorias da hegemonia compartilhada. Difere da globalista questionando o fato das novas tecnologias dos anos 1970 terem construído uma sociedade global. Diz que a globalização, com as tecnologias microeletrônicas, só aumentaram o grau de internacionalização da economia mundial. Nesse sentido, os Estados nacionais continuam a ser os atores fundamentais da realidade em que vivemos, segundo essa interpretação, fazendo das empresas organizações competitivas interessadas em se apropriar dos ativos estratégicos e serviços fornecidos por esse Estado, como segurança, a partir do aparato de coerção e de regulação jurídica; a absorção parcial dos custos de produção de infraestrutura de transportes e comunicação, da P&D ou de qualificação da força de trabalho; e a referência de identidade cultural.
No entanto, mesmo essa visão alerta para o aumento do grau de internacionalização que provoca aumento do fluxo de bens e serviços entre Estados nacionais. Tal fenômeno pode provocar um deslocamento da articulação entre Estado e capital, ao ponto de exigir do primeiro completa reformulação. Essa reformulação implica em novos marcos de regulação fundados em regimes internacionais baseados em tratados e agências de regulação do mesmo tipo, em blocos de integração regional e na cooperação intergovernamental. Implica também no aumento da democratização, dado o desenvolvimento das tecnologias de informação por parte da sociedade. Porém, contrariando ilusões, não acaba com a hierarquia posta pelo sistema mundial entre nações desenvolvidas centrais e nações periféricas e semiperiféricas, dado que cabe às primeiras papel de destaque na organização dos regimes internacionais.
A terceira interpretação é a neodesenvolvimentista. Tem a presença de autores socialistas e outros partidários de um capitalismo organizado. O fenômeno aqui é entendido pela sua estrita lógica financeira originada da integração de mercados desse tipo. Nega a existência de um sistema produtivo mundial e não acredita no fim da soberania e do Estado nacional, mas no fortalecimento deste, na figura dos EUA, para manter e expandir sua condição hegemônica. Tal país, segundo essa concepção, faz isso baseado na força de sua moeda e de suas armas, impondo o neoliberalismo às demais nações com o intuito de liberalizar a conta capital e o mercado dos demais Estados nacionais. 
Quanto à principal alternativa proposta por essa concepção de globalização, inclui-se o restabelecimento de um regime de acumulação que priorize o investimento produtivo, variando entre seus autores as formas de se fazer isso. Uns apontam para o crucial papel dos EUA na criação de um novo regime de acumulação, outros na criação de blocos regionais continentais, outros na transição para o socialismo, e há ainda aqueles que apontam para uma centralização financeira interna que impulsione o desenvolvimento da burguesia industrial local, o desenvolvimento do capital tecnológico e do mercado interno etc.
A quarta interpretação, a qual o autor dá maior destaque, subdivide-se entre aqueles que endossam a ideia de um moderno sistema mundial, como Giovanni Arrighi, Immanuel Wallerstein e Beverly Silver, e os que discordam dizendo haver um único sistema mundial formado desde a revolução neolítica há 5 mil anos, como André Gunder Frank e Barry Gills. O primeiro grupo se apoia no conceito de tempo histórico, tirado da obra de Fernand Braudel, que o divide entre a longa duração, a conjuntura e o acontecimento. Desse conceito retira noções como ciclos sistêmicos e tendências seculares. Os ciclos sistêmicos ligam-se à ascensão e à queda de Estados hegemônicos que organizam a economia mundial em centros, semiperiferias e periferias. Nesse sentido, enquanto as tendências seculares do moderno sistema mundial absorve suas contradições, novos ciclos sistêmicos podem ser desencadeados, redirecionando os caminhos do desenvolvimento.
A globalização é vista aqui como etapa derradeira do moderno sistema mundial em sua capacidade de conter suas tendências antissistêmicas. Logo, vislumbra-se outra forma sistêmica a ser estabelecida pelas lutas sociais na medida em que uma grande crise puser fim ao moderno sistema mundial e ao capitalismo histórico que o conduz.
 Já no segundo grupo de autores, o único sistema mundial existente, tendo origem afro-eurasiana, sempre foi conduzido pela acumulação de capital e, até o século XVIII, tem o seu centro na Ásia, para no século XIX a Europa e o Ocidente empurrar o Oriente à condição periférica, assumindo a posição de centro. Os processos que o compõem são cíclicos mas de larguíssimo prazo, com aproximadamente quatrocentos e quinhentos anos. A globalização aqui é entendida dentro da sua dinâmica cíclica, com sua recentragem na Ásia.
Por fim, tem-se a quinta interpretação da globalização dada pela teoria da dependência, em sua versão marxista, organizada por autores como Theotonio dos Santos, Ruy Mauro Marini, Orlando Caputo

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.