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 O espelho da vida
A arte expressa a vivência pessoal de 
alguém (suas ideias, sentimentos ou história 
pessoal) através de uma matéria (som, imagem, 
cor etc), podendo encontrar identificação com 
outro sujeito.
Vamos avançar no entendimento e análise 
de uma obra de arte. Dessa forma, podemos 
desdobrar os conceitos destacados no parágrafo 
acima da seguinte forma:
a • vivência pessoal do artista pode ser 
entendida como o conteúdo de uma obra 
de arte;
a • matéria da obra de arte e a forma como 
ela é trabalhada definem uma técnica de 
trabalho;
a • identificação de alguém com o conteú- 
do apresentado pelo artista através de 
uma técnica acaba gerando o público 
dessa obra.
Conteúdo, técnica e público. Sobre esse 
tripé é que a arte se concretiza. Uma obra de arte 
só existe como tal até que cumpra esse ciclo. O 
pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890) e 
o escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), dois 
dos maiores artistas de todos os tempos, têm 
em comum o fato de terem pedido, no leito de 
morte, que suas obras fossem destruídas. Se 
tivessem sido atendidos, o conteúdo e a técnica 
sem igual desses dois artistas não teriam encon-
trado seu público e suas obras não existiriam.
Descobrir uma obra de arte é descobrir-se 
nela. Representa uma experiência única e uni-
versal ao mesmo tempo. Entretanto, tatear a 
incerteza é improdutivo e a arte como qualquer 
objeto de estudo requer certo conhecimento que 
só nasce de um amor prolongado e uma dedica-
ção paciente. Aguçar a visão para penetrar numa 
obra de arte é a tarefa que tentaremos executar 
a partir de agora. Se alguém quiser entender 
uma obra de arte é preciso encará-la como um 
todo, por exemplo, qual o clima de suas cores 
e a dinâmica de suas formas.
Assim, vamos estudar os elementos fun-
damentais das artes, em especial das artes 
plásticas, para perceber como o artista, usando 
da técnica, é capaz de dar forma a um conteúdo 
e mexer conosco, o espectador.
A arte mostra 
o nosso mundo
Observando diferentes obras de arte, e 
obtendo informações sobre o contexto em que 
foram realizadas, podemos desvendar parte da 
realidade em que cada artista estava inserido. 
Dessa forma, observando as pinturas rupestres 
dos caçadores pré-históricos, ou lendo a carta do 
descobrimento do Brasil de Pero Vaz de Caminha 
(1450-1500), podemos nos encontrar por instan-
tes vivendo essas histórias do passado, que, no 
entanto, são trazidas de volta à vida por terem 
sido construídas por verdadeiros artistas.
Qual é o segredo dessa mágica de fazer 
reviver acontecimentos do passado? Em cada 
um desses momentos, encontraremos algo (um 
conteúdo) sobre o qual alguém (um artista) quis 
falar de alguma forma (uma técnica), mas que só 
pode ser revivido com a participação ativa de um 
observador (público), se ele coloca sua atenção, 
seu raciocínio, seus sentimentos e sua própria 
história de vida à disposição nesse momento.
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Inicialmente, seria importante percebermos 
quem é esse indivíduo que pretende “falar algu-
ma coisa” ao observador: o artista. Ele é aquele 
que apresenta ao público a sua interpretação do 
mundo. Segundo a filósofa Marilena Chauí, “o 
artista é aquele que recolhe de maneira nova e 
inusitada aquilo que está na percepção de todos 
e que, no entanto, ninguém parece perceber” 
(CHAUÍ, 2003, p. 271). Quando um artista con-
segue isso, nos traz o sentimento de eternizar 
um momento. Perceberemos essa realidade a 
seguir, nas obras de dois artistas brasileiros que 
eternizaram momentos da vida nacional. Usando 
técnicas para se expressar através de obras de 
arte, fizeram de nós, espectadores, elementos 
centrais da construção de suas obras.
O crítico da arte brasileira Tadeu Chiarelli 
divide os retratos pintados por Portinari em três 
tipos fundamentais: os que buscavam fixar cer-
tos tipos populares brasileiros, retratos de fami-
liares e amigos e, finalmente, retratos de figuras 
da sociedade (CHIARELLI, 1999, p. 179).
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Os Retirantes, 1944. Candido Portinari. Óleo sobre tela.
O quadro anterior traz o retrato de uma fa-
mília de retirantes nordestinos fugindo da seca. 
No céu, urubus estão à espera da morte de um 
deles. Portinari retratou os membros da família 
quase como fantasmas, e usa cores escuras e 
fúnebres para transmitir a ideia de morte que os 
envolve: marrom, cinza, azul, preto, amarelo e 
vermelho. O pintor dá ênfase às texturas (terra 
seca, roupas rotas, pele marcada), nos sugerin-
do sensações visuais e táteis da situação. Os 
pés enormes dessas figuras sugerem uma rela-
ção íntima com a terra e os corpos deformados 
parecem indicar a força extenuante dessa família 
de trabalhadores para chegar a um local que 
possa proporcionar uma vida melhor, ou seja, o 
ideal de toda história da migração brasileira.
Na época em que foi pintado, em 1944, 
o Brasil vivia o grande fluxo da migração dos 
nordestinos, especialmente para o sudeste, 
conforme texto abaixo:
A consequência da industrialização e da concentra-
ção da propriedade da terra foi o incremento das 
correntes migratórias, principalmente do Nordeste 
para o Sudeste e do campo para a cidade [...] a 
industrialização dos anos 50 a 60, juntamente com 
as dificuldades enfrentadas no campo – a maioria 
dos trabalhadores não tinha terra, nem assistência 
técnica, nem financiamento à produção – provocaram 
uma grande migração para as cidades. Com isso a 
população das grandes cidades cresceu rapidamen-
te, tornou-se maior que a rural e seus problemas se 
multiplicaram [...]. (PILETTI, 1999, p. 279)
Vemos como um quadro torna-se uma 
experiência viva de todo um contexto histórico, 
inclusive despertando reflexão sobre o contexto 
atual. Mas como Portinari alcança tamanho im-
pacto em nós, espectadores? É aí que entram 
as escolhas técnicas e estéticas do artista. Já 
dissemos que em Portinari a escolha por retratar 
o cidadão comum vinha se formando desde a 
infância, passada em uma fazenda de café no 
interior paulista nas primeiras décadas do sé-
culo XX. Mas vejamos um relato de como essas 
escolhas se formaram para ele a partir do início 
da década de 1940:
Durante a estadia em Nova York, Portinari vê uma 
obra que muito o impressiona, Guernica. A guerra 
vista por Picasso, duma forma cubista e sem a utili-
zação das cores. Fica impressionado com o quadro. 
[...] no Brasil, o sofrimento é provocado pela natureza. 
O Nordeste é atingido por grandes secas que trazem 
consequências gravosas para os camponeses. Mui-
tos são aqueles que utilizam as suas artes para falar 
do que os rodeia – Jorge Amado, Érico Verissimo, 
Graciliano Ramos. Também Portinari a nada disto 
fica alheio. Exprime-o com a sua pintura, reflete-o. 
É a cor que se apaga, um drama que se observa. 
São os Retirantes, expressos em algumas das suas 
obras. (VAZ, 2009)
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Reunindo sua história de vida, seus ideais, 
sua técnica e a influência dos artistas de sua 
época, Portinari criou esse retrato poderoso do 
seu momento histórico, que repercute em nós 
na atualidade.
Observemos esta outra grande obra da 
pintura brasileira, Noite de São João, de Alberto 
Guignard (1896-1962), que, no entanto, traz 
uma temática totalmente distinta dessa que 
acabamos de observar.
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Noite de São João, 1961. Alberto Guignard. Óleo 
sobre tela.
Este quadro faz parte de uma série de qua-
dros realizados por Guignard retratando Ouro 
Preto, cidade em que viveu grande parte da vida, 
durante a tradicional festa de São João. Sobre 
esse quadro, diz Walter Zanini:
Pode-se dizer que Guignard pintava o visível como 
se imerso em estado de sonho. Todo o seu universo 
etéreo de paisagens [...] o revela. [...] salientam-se 
[...] vistas com perspectiva aérea das cidades bar-
rocas mineiras, envoltas num véu de fantasia. Os 
balões da noite junina

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