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Padrão de Reprodução do Capital: uma proposta teórica - Resenha texto Jaime Osorio

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OSORIO, Jaime. Padrão de reprodução do capital: uma proposta teórica. In: FERREIRA, Carla; OSORIO, Jaime; LUCE, Mathias Seibel (Orgs.). Padrão de reprodução do capital: contribuições da Teoria Marxista da Dependência. São Paulo: Boitempo Editorial, 2012.
Wendell Magalhães[footnoteRef:2]¹ [2: 	Graduando Formando de Economia na Universidade Federal do Pará – UFPA.] 
No texto referido, Jaime Osorio procura dar fundamentação teórica à noção de padrão de reprodução do capital e oferecer um caminho possível para sua análise, assumindo que no seio da teoria marxista existe uma dimensão teórica não preenchida que a noção de padrão de reprodução do capital permite enfrentar. A partir do pressuposto metodológico e epistemológico marxista da totalidade, o autor detecta uma atividade unificadora presente na vida em sociedade: a lógica do capital. Esta, segundo o autor, é a que confere sentido aos múltiplos processos que aparecem, a primeira vista, de maneira dispersa, desconectados. Assim se justifica a importância da categoria padrão de reprodução do capital.
Entendendo a existência de diferentes níveis de análise no marxismo – uns mais abstratos, outros mais concretos – Osorio diz que a noção de padrão de reprodução do capital estabelece mediações entre esses níveis. Tal categoria, segundo o autor, surge para dar conta das formas como o capital se reproduz em períodos históricos específicos e em espaços geoterritoriais determinados. Por isso, essa categoria coloca-se entre noções mais gerais como modo de produção capitalista e sistema mundial, e noções menos abstratas ou noções histórico-concretas como formação econômico-social e conjuntura. 
Quanto a essas categorias, cabe pontuar que a de modo de produção capitalista é extraída diretamente da obra de Marx, enquanto a que se refere ao sistema mundial, apesar de não dito explicitamente por Osorio, fica claro que recorre à Teoria do Sistema-Mundo para sua definição, dadas as referências que utiliza apontadas em nota de rodapé (Immanuel Wallerstein, Samir Amin, Giovanni Arrighi etc.) e os conceitos que usa para se referir ao que chama de estrutura do sistema capitalista: centro, semiperiferias e periferias. 
Cabe pontuar que a noção de formação econômico-social nos remete, segundo o autor, à constituição do capitalismo em unidades político-econômicas e territoriais limitadas, enquanto a noção de conjuntura remete a unidades político-temporais em que se produzem modificações significativas na correlação de forças entre os agrupamentos humanos em conflitos e os projetos que encabeçam, tanto no seio de formações econômico-sociais como no do capitalismo como sistema mundial.
Dadas essas premissas, a reprodução do capital, segundo Osorio, assume formas diversas em diferentes momentos históricos, o que a faz se readequar às mudanças produzidas no sistema mundial e na divisão internacional do trabalho, de forma que reorganize a produção sobre novos eixos de acumulação e/ou novos valores de uso, o que permite historicizar a reprodução do capital e diferenciar os padrões que se estabelecem.
O autor, portanto, aponta para a necessidade de perseguir as metamorfoses do capital com o fim de desvendar como o capital se reproduz em determinados momentos históricos. Tais metamorfoses se dividem em: D e D’ (capital-dinheiro); mercadorias (M) – força de trabalho (Ft) e meios de produção (Mp); capital produtivo (P) e mercadorias valorizadas (M’) (capital-mercadoria). Alerta-se que, mesmo que o capital assuma essas formas por ramos e/ou setores produtivos diferenciados, somente alguns destes atraem os maiores e mais importantes investimentos à medida que se constituem em eixos da acumulação e da reprodução do capital. Logo, conclui-se que, considerando o tempo histórico, o capital não privilegia sempre os mesmos setores ou ramos como motores de seu processo de valorização.
Nota-se até aqui, com isso, que a noção de padrão de reprodução do capital permite enfrentar o problema de se integrar a análise da valorização do capital com as formas materiais que este assume ao encarnar-se em determinados valores de uso. Ou seja, integra-se a análise teórica à análise histórico-concreta. Para isso, o autor se apoia em duas fontes retiradas da trajetória teórica de Marx, mais especificamente de seu Volume II de O capital, que elucida um caminho para a análise que se busca fazer. Tais fontes são os esquemas de reprodução e o estudo dos ciclos do capital.
 Nos primeiros, aponta o autor que Marx parte de uma série de pressupostos como uma economia capitalista pura; a existência de apenas duas classes sociais: capitalistas e proletários; uma escala de reprodução com a mesma duração e intensidade de trabalho; invariabilidade da composição orgânica do capital, do grau de exploração e da relação básica de distribuição; e da exclusão do comércio exterior. Estes pressupostos permitem a Marx estabelecer as condições de funcionamento equilibrado da produção capitalista, o que resolve a contradição, de forma simplificada, dessa mesma produção capitalista produzir valor sob a forma de valores de uso. Isso se faz através da identificação de dois grandes departamentos: um responsável pela produção de meios de produção, chamado de setor I; e outro responsável pela produção de meios de consumo, chamado de setor II. Estes, por sua vez, deveriam velar para repor o valor de seus elementos de produção tomando uma parte desses elementos do outro departamento, em uma forma material apropriada.
Como, para fazer essa análise das proporções que se intercambiam as mercadorias tomadas como unidade de valor e valor de uso, Marx parte de pressupostos que o levam a desconsiderar elementos como mudanças na produtividade ou na magnitude intensiva do trabalho, assim como no grau de exploração, o autor, corroborando Ruy Mauro Marini, aponta a limitação dos esquemas de reprodução de Marx para conformar a estrutura conceitual e metodológica para a análise da noção de padrão de reprodução do capital. Logo, emerge a necessidade de avançar-se para a análise dos ciclos do capital.
Os ciclos do capital são três: ciclo do capital-dinheiro (D-D’), ciclo do capital produtivo (P-P’) e ciclo do capital-mercadoria (M’-M’). O primeiro destaca a essência do dinheiro que funciona como capital, a de valorizar-se. O segundo permite ver não só produção, mas reprodução periódica de mais-valia, isto é, não como função realizada uma única vez, mas como função periodicamente repetida. Por fim, o ciclo do capital-mercadoria nos mostra a valorização, mas como parte de um processo em que o capital, para atingir esse objetivo, não pode desprender-se do valor de uso das mercadorias. M’ deve vender-se, pois tem uma utilidade, para realizar em dinheiro (D’) o mais-trabalho que contém.
O padrão de reprodução do capital considera todos esses aspectos historizando-os em dupla dimensão: primeiro, respondendo às razões que tornam necessário que o capital se valorize assumindo determinadas encarnações em valores de uso específicos em momentos determinados, o que gera formas capitalistas diversas; segundo, no que diz respeito aos processos que exigem a emergência, o auge e o declínio de determinado padrão de reprodução do capital, assim como as condições para a emergência e o amadurecimento de um novo, com seu ciclo de auge e posterior declínio e crise.
 Porém, no estudo dos ciclos do capital, Osorio aponta que, para além da limitação de, não incorporando o lucro, consequentemente não incorporar-se o fator crise do capitalismo decorrente da tendência de queda das taxas de lucro, apresenta-se a limitação relacionada à forma material que o capital assume na produção e na valorização. Logo, isso exige incorporar na análise do padrão de reprodução elementos como: a procedência do dinheiro que se investe (estatal, privado nacional ou privado estrangeiro); o tipo de máquinas e ferramentas que se empregam; os mercados em que se adquire; o nível de preparação requerido da força de trabalho; as formas de organização da produção (linhas de montagem, círculos de qualidade,