A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
5 pág.
Resenha: Os Condenados da Terra (Frantz Fanon)

Pré-visualização | Página 1 de 2

Resenha: Os Condenados da Terra 
 
A OBRA escolhida para a resenha foi “Os Condenados da Terra”, de Frantz Fanon, 
escrita em 1961, durante o momento em que o autor esteve engajado com a guerra 
de independência argelina, pouco tempo antes de sua morte. 
 
Sobre o autor: ​Frantz Fanon (1925-1961). ​Foi um psiquiatra, filósofo e intelectual 
da diáspora africana​. Nascido na Martinica, educado na França, reivindica uma 
África diaspórica e denuncia processos de dominação colonial e denuncia, portanto, 
um Ocidente que se entende como o apogeu da humanidade e que se coloca como 
universal. Reivindica que a única maneira de enfrentarmos as desigualdades é 
enfrentando o racismo e os efeitos da colonização a partir da revolução e 
descolonização do pensamento. Fanon se inseriu no contexto da negritude assim 
como outros autores negros de origem francófona, como Aimé Césaire e Leopold 
Senghor. Não somente suas obras ajudaram na libertação anti-colonial de vários 
países africanos, como o próprio Fanon se uniu à Frente de Libertação Nacional 
(FLN) argelina, contra o colonialismo francês. 
 
Os Condenados da Terra teve grande repercussão entre os autores do terceiro 
mundo por ser ​fundamental para entender os conflitos raciais que o autor 
denunciava na época e a obra também mostra-se muito contemporânea, sendo 
possível utilizá-la para traçar paralelos e pensar as relações de dominação na 
sociedade contemporânea. 
 
A tese central do livro deste livro diz respeito à questão da violência, a qual, para 
Fanon, assumia uma característica dialética, sendo sua prática, pelos colonizados, 
necessária para revidar a violência do colonizador no processo de libertação contra 
o sistema colonial. 
 
 
O livro conta com o prefácio de Jean Paul Sartre, encomendado por Fanon pouco 
tempo antes de sua morte. Sartre apresenta uma ​narrativa bastante crítica e dialoga 
com o público europeu, alertando-os e questionando-os das mazelas praticadas 
pelo colonialismo europeu no continente africano. Com isso, as justificativas para a 
prática colonialista iam caindo por terra, restando somente a verdade crua do puro 
interesse imperial. Dessa forma, Sartre chama a atenção para a hipocrisia dos 
ideais dos europeus: ao passo que a França se livrava do nazismo e clamava por 
sua liberdade e reconstrução, também massacrava africanos que levantavam as 
mesmas bandeiras de liberdade. Evidenciava, portanto, que a universalização da 
liberdade e do humanismo não eram seus verdadeiros objetivos, afinal de contas 
essa liberdade só era defendida se para o branco europeu, que somente se 
considerava como digno de humanidade. Diante disso, o que Sartre faz no prefácio, 
é a denuncia desse sistema. ao lembrar aos europeus que os massacres cometidos 
 
na África eram em nome da Europa, assim como os crimes e as espoliações 
ocorridas eram para seus benefícios próprios. 
 
 
Capítulo 1: Da violência 
Este capítulo traz a discussão central do livro, que versa sobre a ​construção da 
violência no inconsciente coletivo do povo colonizado. ​Para Fanon, a relação 
entre a metrópole e a colônia é marcada, sobretudo, pela violência. A colonização é, 
sem exceção, um processo profundamente violento. O colonizador não enxerga o 
colonizado como pertencente à mesma espécie, animalizando-o e, portanto, 
desprovendo-o de qualquer humanidade. → A relação entre a metrópole e a colônia 
é marcada, sobretudo, pela violência. 
● o mundo 
colonizado é 
compartimentado, 
dividido entre o que 
é do colonizador e o 
que é do colonizado 
(exemplo: apartheid) 
● o 
intermediário do 
poder (colono) utiliza 
uma linguagem de 
pura violência p. 28 
 
● A violência 
diária sofrida pelos 
colonizados faz 
com que esse comportamento violento fique no inconsciente coletivo e 
individual. 
 
→ A própria linguagem utilizada pelo colonizador é violentamente animalizante: 
 
 
 
● Fanon explica que a violência sofrida pelos povos colonizados precisa ser de 
alguma forma externalizada → seja através da criação de mitos (para 
amenizar a dor da colonização e torná-la, de alguma forma, “menos pior”) ou 
de representações culturais (como a dança). Mas isso não é suficiente para 
lidar com o processo de violência incutido e esta pode acabar se 
manifestando entre os próprios colonizados. 
 
 
● A linguagem da violência é perversa porque gera vício → e o vício na 
violência torna necessário que a resposta da revolta seja também violenta. 
● Fanon propõe uma dialética: diante da violência colonial, a reação dos 
colonizados por meio da violência seria a única possibilidade de 
combater a desumanização colonial. 
 
Fanon enxerga, assim, duas dinâmicas no mundo colonizado: a primeira é que a 
ideia da colonização consiste na ​substituição ​de uma população por outra. A 
segunda dinâmica é que, os nativos percebem esse tratamento violento e 
desumanizante, surgindo neles um sentimento de rebelião contra a colônia. Diante 
disso, fica evidente que o continente europeu jamais tentou/tentará qualquer forma 
de reparação pela colonização. É o povo colonizado e oprimido quem deve ser o 
agente da libertação. 
 
→ Fanon pensa, em Condenados da Terra, a descolonização como uma ação que 
deve partir do próprio colonizado 
● a libertação não deve ser consentida pelo opressor, deve ser conquistada 
pelo oprimido 
● ênfase no protagonismo do colonizado no processo de descolonização e 
libertação 
 
No entanto, Fanon alerta que a burguesia colonialista, após incutir a violência no 
inconsciente colonial, se utilizará de um discurso de “não-violência​”, para tentar 
chegar a “um acordo para a salvação comum”, nas palavras de fanon. 
● Isso significa que os europeus colocam-se como pacíficos e animalizam mais 
ainda o povo colonizado → criam a ideia de que o povo argelino é criminoso, 
exemplo citado por Fanon. 
● serve para mitigar e degradar o movimento anticolonial. 
● p.266 
 
 
 
 
→ “A violência revolucionária da colônia, portanto, deve ser o caminho para a 
descolonização completa 
 
 
É evidente que a questão da violência apresenta a tese central de Fanon, mas as 
sessões seguintes também não devem ser desconsideradas. Nas próximas sessões 
do livro, podemos ressaltar como Fanon reflete sobre a QUESTÃO DA 
IDENTIDADE 
→ Nos explica como o colonialismo despersonalizou o colonizado, reduzindo-o a um 
“conjunto de indivíduos que só encontram fundamento na presença do colonizador” 
● é preciso reabilitar o homem oprimido 
 
 
Fanon argumenta que uma cultura nacional deve ser construída sobre a resistência 
material de um povo contra a dominação colonial. Intelectuais colonizados muitas 
vezes caem na armadilha de tentar provar a existência de uma cultura comum 
africana ou "negra", mas este seria um beco sem saída, de acordo com Fanon, 
porque foram os colonos que essencializaram todos os povos na África como 
'Negro', sem considerar culturas e histórias nacionais distintas. Isso aponta para o 
que Fanon vê como uma das limitações do movimento Negritude. Ao articular uma 
identidade continental, baseada na categoria colonial do 'Negro', Fanon argumenta 
que "os homens que se propuseram a encarná-la perceberam que toda