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A nova cultura do controle do crime - Garland, David

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Temas Contemporâneos - Garland, D. A Cultura do Controle do Crime. 
Notas Cap. 7 – A nova cultura do controle do crime 
 
Garland parte de uma perspectiva estrutural focada no campo do controle do crime, com o 
objetivo de refletir sobre o campo como um todo. Os objetivos do capítulo consistem em: 
a.​ refletir sobre a natureza do campo; 
b.​ especificar a forma como esse campo difere do previdenciarismo penal; 
c.​ comentar o impacto global das transformações descritas. 
 
O aparato de controle do crime 
 
● Em relação à modernidade penal, não houve alterações em sua arquitetura 
institucional e em seu aparato estatal da justiça criminal. As mudanças se deram na 
sua distribuição, funcionamento estratégico e significação social. 
● Houve também mudanças de tamanho e ênfase, com a elevação, desde os anos 1980, 
das condenações, de construção de prisões, tempo médio de encarceramento e da 
possibilidade de reencarceramento durante o período de liberdade vigiada. 
(Importante destacar que o autor se refere principalmente ao contexto norte americano 
e anglo-saxão) 
● “Houve, pois, uma guinada no sentido do uso mais frequente e intenso da prisão.” 
● Estas foram mudanças de ênfase punitiva apenas de forma no cenário institucional, as 
quais “​causaram efeitos importantes no número de pessoas presas, no tamanho 
da indústria prisional, na composição racial da população carcerária e no 
significado político e cultural da punição.”​ P. 367 
 
 
O terceiro setor: policiamento, punição e prevenção 
 
“O evento mais significativo no campo do controle do crime não é a transformação das 
instituições da justiça criminal, mas o desenvolvimento, ao lado destas instituições, de uma 
forma bem diferente de gerir o crime e os criminosos”. 
● Surgimento, ao lado do sistema penal e da polícia, de um terceiro setor 
“governamental”, o novo aparato de prevenção e segurança. Este consiste 
principalmente em “redes de prática coordenada” (grupos de trabalho, comitês de 
ação, painéis de autoridades locais), ocupando uma posição intermediária entre a 
sociedade civil e o Estado. Garland explica que a implementação dessa nova 
infraestrutura expande o campo do controle do crime. 
● Consequência desse movimento: agora ​o campo do controle do crime se expande 
para além do Estado e passa a envolver a sociedade civil​. “O controle do crime 
está se tornando responsabilidade não só dos especialistas da justiça criminal, mas de 
todo um conjunto de atores sociais e econômicos.” 
● Esse novo setor passa a se concentrar em evitar que crimes aconteçam, ou seja, na 
ação preventiva, mudando o equilíbrio geral do campo, que antes tinha foco no 
emprego do poder punitivo. 
 
A decrescente autonomia da justiça criminal 
 
● Uma das consequências da ampliação do campo do controle do crime retratada 
anteriormente, é a da diminuição da autonomia da justiça criminal, agora mais sujeita 
a intervenções alheias. 
● Surge uma nova relação entre políticos, o público e os especialistas do sistema penal. 
A justiça criminal está mais sensível ao humor público e à reação política. “os 
políticos têm mais autoridade, os especialistas têm menos influência e a opinião 
pública constitui o ponto de referência para determinar as posições”. Garland chama 
isso de “​estilo populista de fazer política​”. 
● Tal corrente populista é uma postura adotada para obtenção de benefícios políticos de 
curto prazo. 
● A partir desse processo (anos 90), a mídia detém papel significativo na formação de 
opinião pública acerca de crimes de grande repercussão e passa a haver ​maior 
demanda pública por mais controle penal efetivo​. Consequência: consolidação de 
um estilo retaliador de elaboração de leis, as quais frequentemente desafiam a opinião 
especializada, no intuito de atenuar a revolta popular. 
 
 
A extensão e a natureza da mudança estrutural 
 
● As mudanças ocorridas no último quarto do século XX descritas acima constituem as 
mudanças estruturais que ocorreram no campo do controle do crime 
● Desfecho paradoxal: com as mudanças na distribuição e no redirecionamento das 
práticas existentes, o Estado passa por um processo no qual aumenta seu poder 
punitivo ao mesmo tempo em que reconhece que sua presença nunca é suficiente. 
 
A nova cultura de controle do crime 
 
● A mudança mais significativa no campo do controle do crime se deu no nível 
cultural. 
● Esta nova cultura contribui para mudar o pensamento e a ação dos indivíduos em 
relação à insegurança e ao crime. 
● Ela gira em torno de três elementos centrais: 
 
1. Da transformação do previdenciarismo penal – ​passa a haver maior ênfase na 
punição, condenação e tratamento severo aos criminosos, deslocando a ênfase em 
métodos de reabilitação do criminoso para a necessidade de um controle efetivo que 
maximize a segurança ao minimizar os custos; a reabilitação passa a ser vista como 
um modo de administração de riscos e não como um direito; 
 
2. De uma criminologia do controle ​– no qual a prisão é concebida como um mecanismo 
de exclusão e controle, ou seja, um lugar no qual os criminosos são depositados e 
segregados em larga escala, com motivações econômicas e sociais. A prisão torna-se 
um espaço eliminativo, um mecanismo que segrega as populações rejeitadas 
 
3. De um estilo econômico de pensamento – consiste no emprego de ideias econômicas 
para pensar o crime, empregando a relação de custo-benefício, melhor valor e 
responsabilidade fiscal. Calcula-se os custos do crime e da prevenção, assim como os 
custos de tudo que esteja relacionado ao campo do controle do crime, moldando a 
forma como a sociedade e o sistema pensam o crime. 
 
Consolidação da figura da vítima --> ​Alterou os processos da justiça criminal de diversas 
maneiras 
 
● O criminoso era o principal objeto da preocupação criminológica, agora este processo 
de individualização é centrado na vítima 
● Maior apoio e valorização das vítimas 
● Nesse meio tempo, a figura do criminoso passa a ser representada de maneira cada 
vez mais abstrata e estereotipada, num processo que tornou cada vez menos 
individualizado o tratamento de criminosos 
 
Relação sociedade/criminoso 
 
● Os interesses de vítimas e criminosos são colocados como completamente opostos: os 
direitos das vítimas competem com os dos criminosos, sendo os interesses destes 
frequentemente desconsiderados. 
● Há a crença atualmente de que que não existe a figura do ex-criminoso, somente 
aqueles que foram apanhados antes e que cometerão novos crimes quando o momento 
for oportuno. 
● Estigmatização assume um valor renovado: antes prejudicial à ressocialização, hoje 
torna-se útil novamente. “Duplamente útil, uma vez que serve simultaneamente para 
punir o criminoso e alertar a comunidade para o perigo que ele representa.” 
● Os criminosos são despidos completamente de seus direitos e cidadania, pois a 
sociedade se convenceu que certos criminosos deixam de ser membros do público ao 
cometerem um crime; incorporação da divisão social e cultural entre nós (inocentes) e 
eles (indesejados, o Outro perigoso, a subclasse) 
● “’Nossa’ segurança depende do controle ‘deles’”. 
 
 
A criminologia do controle 
 
● Surgimento de duas novas correntes no pensamento criminológico, as quais