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Pós Colonialismo - Spivak

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Pós Colonialismo - Spivak 
 
Gayatri Chakravorty Spivak​ é uma crítica e teórica indiana, mais conhecida por seu artigo "Can the 
Subaltern Speak?", considerado um texto fundamental sobre o pós-colonialismo, e por sua tradução 
de Of Grammatology de Jacques Derrida. Spivak leciona na Columbia University, na qual atingiu o 
mais alto nível do corpo docente em março de 2007. Erudita prolífica, ela viaja e ministra palestras 
por todo o mundo. É membro-visitante do Centre for Studies in Social Sciences de Calcutá. 
 
Integrou o ​GES​ (Grupo de Estudos Subalternos) de 1982 a 1983, e está inserida dentro da corrente 
do Pós-Colonialismo junto a autores como Homi Bhabha, Guha e Said. O grupo, a partir da teoria de 
Gramsci sobre as classes subalternas como uma categoria deixada de fora do poder 
● Spivak ocupava um lugar incômodo dentro do GES -> autocrítica em relação ao grupo 
 
Obra: Pode o Subalterno Falar? 
 
● Spivak preocupa-se em desafiar os discursos hegemônicos e as próprias crenças dos leitores 
produtores de saber e conhecimento. 
● Pensa a teoria crítica como uma prática intervencionista, engajada e contestadora 
● Spivak transita entre várias áreas do conhecimento. "Sua crítica, de base marxista, 
pós-estruturalista e marcadamente desconstrucionista, frequentemente se alia a posturas 
teóricas que abordam o feminismo contemporâneo, o pós-colonialismo e, mais 
recentemente, as teorias do multiculturalismo e da globalização." p.11 
● Está preocupada com que haja um outro olhar sobre o Outro 
 
● A autora realiza inicialmente uma crítica aos intelectuais ocidentais Deleuze e Foucault 
○ Discute sobre como eles podem ajudar a consolidar a divisão internacional do 
trabalho, pois produzem um discurso dentro da academia que negligencia o papel 
do imperialismo; além disso, negligenciam também o papel da ideologia 
○ São autores que pensam a partir do Norte, "naturalizam" o papel do capitalismo e os 
locais de hegemonia e subalternidade. 
○ Foucault, por exemplo, por mais que defenda a inexistência de uma verdade, ocupa 
a posição de detentor desta, pois mesmo fazendo a crítica se produz um tipo de 
verdade 
○ Nesse sentido, são autores eurocêntricos, que ao pensar somente o Norte 
negligenciam os outros lugares do globo, o que gera uma violência e um 
silenciamento. 
 
"Nem Deleuze, nem Foucault parecem estar cientes de que o intelectual, inserido no contexto 
do capital socializado, e alardeando a experiência concreta, pode ajudar a consolidar a divisão 
internacional do trabalho." p.37. 
 
● Realiza uma crítica ao Grupo de Estudos Subalternos do qual fazia p​arte: 
○ alude à sua adesão aos princípios do grupo, mas mantém uma postura crítica em 
relação a ele. Para ela, ​o GES necessitava refletir de forma urgente sobre a 
condição de fala do subalterno​, mais precisamente sobre sua capacidade de falar 
(falar no sentido também de ser ouvido). Esse questionamento de Spivak surge a 
partir de uma crítica à ênfase de Gramsci na autonomia do sujeito subalterno como 
uma premissa essencialista 
 
● Para construir sua argumentação, Spivak se pauta pelo conceito de desconstrução de 
Jacques Derrida. 
 
● Sobre o termo ​subalterno​: seria errônea a apropriação do termo para se referir a todo e 
qualquer sujeito marginalizado. Para ela, o termo deve ser resgatado, retomando o 
significado que Gramsci atribui ao proletariado, que ​é aquele cuja voz não pode ser ouvida. 
Segundo Spivak, o termo subalterno descreve as "camadas mais baixas da sociedade 
constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e 
legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante." 
 
● Reflete sobre a prática discursiva do intelectual pós colonial 
○ Questiona a posição do intelectual pós-colonial, ao deixar claro a impossibilidade de 
falar pelo outro. A tentativa de falar pelo outro faz com que sejam reproduzidas as 
estruturas de poder e opressão. Dessa forma, Spivak chama atenção para o lugar 
incômodo que o intelectual ocupa, este inclusive, podendo ser cúmplice do discurso 
hegemônico ao julgar poder falar pelo outro e construir um discurso de resistência. 
○ Agir dessa forma colabora para manter silenciado o subalterno, pois não lhe oferece 
um espaço onde possa falar e ser ouvido 
○ "Spivak alerta, portanto, para o perigo de se constituir o outro e o subalterno apenas 
como objetos de conhecimento por parte de intelectuais que almejam meramente 
falar pelo outro" ​P. 14. 
○ A autora reconhece sua própria cumplicidade no processo descrito acima, mas 
utiliza esse reconhecimento um espaço produtivo para questionar o próprio lugar de 
onde teoriza. 
 
● Sobre a representação: 
○ Distingue dois sentidos dessa palavra a partir da língua alemã: Vertretung (se refere 
ao ato de assumir o lugar do outro, num sentido político) e Darstellung (visão 
estética que configura o ato da performance ou encenação) 
 
○ "Na análise de Spivak, há uma​ relação intrínseca entre o "falar por" e o 
"re-presentar​", pois, em ambos os casos, a representação é um ato de fala em que 
há a pressuposição de um falante e de um ouvinte. A autora argumenta ainda que o 
processo de fala se caracteriza por uma posição discursiva, uma transação entre 
falante e ouvinte e, nesse sentido, conclui afirmando que esse espaço dialógico de 
interação não se concretiza jamais para​ o sujeito subalterno​ que, desinvestido de 
qualquer forma de agenciamento​, de fato, não pode falar​." p.15 
 
● Violência epistêmica:​ tática de neutralização do Outro, seja ele subalterno ou colonizado 
consiste em invizibilizá-lo, expropriando-o de qualquer possibilidade de representação, 
silenciando-o. 
 
● O processo de ​autorrepresentação do sujeito subalterno também não se realiza​, pois ele 
não é ouvido. 
 
● É​ importante não cair numa interpretação simplista​ sobre a impossibilidade de falar do 
subalterno. Não é que ele não possa falar num sentido literal, tampouco que que ele tenha 
que recorrer ao discurso hegemônico para falar. Spivak se refere ao "fato de a fala do 
subalterno e do colonizado ser sempre intermediada pela voz de outrem, que se coloca em 
posição de reivindicar algo em nome de um(a) outro(a)." 
 
● A tarefa do intelectual pós-colonial segundo Spivak: 
○ Deve ser a de criar espaços nos quais o subalterno tenha a oportunidade de falar e 
ser ouvido. 
○ Não se pode falar pelo subalterno, mas é possível trabalhar "contra" a 
subalternidade 
 
A condição da mulher 
 
● Se o subalterno já é obliterado, a mulher subalterna se encontra em uma posição ainda mais 
periférica devido às questões que dizem respeito ao gênero 
● "Se, no contexto da produção colonial, o sujeito subalterno não tem história e não pode 
falar,​ o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade​" 
● Não são apenas silenciadas, mas desaparecem. Quando reaparecem, é através da voz 
masculina, numa narrativa recriada sobre elas 
 
● Spivak utiliza de exemplo - para nos mostrar como a mulher subalterna não pode falar e 
quando tenta não encontra meios - o caso das imolações das viúvas indianas durante o ritual 
sati (suttee) 
○ Sati ou suttee é um antigo costume entre algumas comunidades hindus, hoje em dia 
estritamente proibido pelas leis do Estado Indiano, que obrigava (no sentido 
honroso, moral, e prestigioso) a esposa viúva devota a se sacrificar viva na fogueira 
da pira funerária de seu marido morto. 
 
○ O sati era supostamente uma prática que deveria ser voluntária mas sabe-se que 
muitas vezes foi forçado nas mulheres do subcontinente indiano. Uma das possíveis 
razões para o sati forçado seria para impedir que a herança do marido ficasse para a 
esposa. Não era de se admirar que frequentemente a viúva fosse conduzida à pira 
funerária pelos parentes do morto. 
 
● O costume é então proibido pelos britânicos --> O que se vê são homens brancos salvando 
mulheres