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Do significado da categoria "modo de produção capitalista"

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Do significado da categoria "modo de produção capitalista"


Para apreendermos o significado da categoria modo de produção capitalista, é preciso que, primeiramente, entendamos a noção de modo de produção. Esta, criada por Marx1, se refere à articulação entre as chamadas forças produtivas e as relações de produção. As forças produtivas designam o conjunto de elementos necessários à produção material da sociedade. Tais elementos são formados pelos meios de trabalho e objetos de trabalho, que em conjunto formam os meios de produção, mais a força de trabalho. Já as relações de produção se referem ao conjunto das relações técnicas de produção, ligadas ao processo de trabalho, mais as relações sociais de produção, que são determinadas pelos regimes de propriedade dos meios de produção fundamentais.2

Portanto, em síntese, como Osorio (2012, p. 38-39) diz, a noção de modo de produção destaca “as relações sociais estabelecidas pelos homens para resolver a produção e reprodução econômico-política da vida em comum, sob conhecimentos e desenvolvimentos técnicos determinados”, e, com isso, nos fornece “os elementos fundamentais […] para a explicar as características históricas da vida em sociedade”.3

Marx, no entanto, em O capital, se concentrou em desvelar as leis fundamentais de funcionamento de um modo de produção particular, o modo de produção capitalista. Com esta categoria, nos tornamos capazes de nos referirmos a esta organização particular de sociedade em que vivemos e que tem como princípio ordenador a valorização do capital. Esta, por sua vez, se dá a partir da generalização da produção de mercadorias sobre as bases do trabalho assalariado, o qual é responsável por produzir o mais-valor que valoriza o capital.

Assim, com a categoria modo de produção capitalista, já nos distinguimos do nível de abstração mais geral em que se encontra a categoria designada simplesmente por modo de produção. O que aquela designa se situa em um momento particular da história da humanidade no qual sua principal agente, a burguesia, como Marx e Engels dizem, “não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais"4. Isto, portanto, distingue o modo de produção capitalista de todos os que o antecederam,5 posto está fundamentado na relação capital, uma relação que está bem situada historicamente por Marx, com suas considerações a esse respeito ao longo de toda a sua obra só valendo para o período de tempo determinado em que se considera que tal relação passa a viger.

O modo de produção capitalista, no entanto, não se distingue dos demais modos de produção somente pela sua capacidade e necessidade de revolucionar incessantemente os instrumentos e as relações de produção, fazendo com que tudo que é sólido, desmanche no ar.6 Sua vocação de operar como sistema mundial desde suas origens também o torna diferenciado dos demais modos de produção pretéritos. É isso, pelo menos, o que nos diz Osorio (2014) ao apontar para a “vocação mundial” desta organização econômica e social. O autor destaca que o capitalismo, mais do que vocacionado, requer “um espaço planetário para funcionar e opera tanto de maneira extensiva, expandindo-se para os mais distantes cantos do planeta, quanto de maneira intensiva, reforçando sua dominação exercendo novas modalidades de sujeição e controle sobre territórios já subordinados”7 .

A diferença aqui entre as modalidades extensiva e intensiva de expansão do capitalismo, por sua vez, é feita com base nas formulações do revolucionário bolchevique russo Nikolai Bukharin, que vê o desenvolvimento dos vínculos econômicos internacionais na forma desses dois tipos. Na forma extensiva, tal desenvolvimento da economia mundial engloba regiões antes mantidas fora do ciclo da vida capitalista; já na forma intensiva, este desenvolvimento se faz em profundidade, multiplicando-se e estreitando-se.8

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1 O texto que costuma se considerar como conferindo a autoria desta noção à Marx é o prefácio de sua obra Contribuição à crítica da economia política (1859). Ali, Marx usa tal noção para explicitar a dialética relativa à oposição entre forças produtivas e relações de produção que, na conformação de um modo de produção, ao abandonarem suas posições de complementariedade frente a outra e fazerem-se antagônicas, invocam a necessidade da revolução de tal modo de produção e, por conseguinte, da sua substituição por outro que as reestabeleçam em sua relação de complementariedade. Portanto, nas palavras de Marx: “O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais elas haviam se desenvolvido até então. De formas evolutivas das forças produtivas que eram, essas relações convertem-se em entraves. Abre-se, então, uma época de revolução social.”. E também mais a frente: “Em grandes traços, podem ser os modos de produção asiático, antigo, feudal e burguês moderno designados como outras tantas épocas progressivas da formação da sociedade econômica. As relações de produção burguesas são a última forma antagônica do processo de produção social, antagônica não no sentido de um antagonismo individual, mas de um antagonismo que nasce das condições de existência sociais dos indivíduos; as forças produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para resolver esse antagonismo.”. Cf. MARX, K. Contribuição à crítica da economia política. 2 ed. São Paulo: Expressão Popular, 2008, Prefácio, p. 45-50.

2 Para uma explicação didática destas categorias, ver NETTO, J. P. e BRAZ, M. Economia política: uma introdução crítica. São Paulo: Cortez Editora, 2006, p. 58-63. Para uma exposição mais detalhada que inclua suas origens e o debate em torno delas ao longo da história do pensamento marxista, ver BOTTOMORE, T. (org.). Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

3 OSORIO, J. Padrão de reprodução do capital: uma proposta teórica. In: FERREIRA, Carla; OSORIO, Jaime; LUCE, Mathias Seibel (Orgs.). Padrão de reprodução do capital: contribuições da Teoria Marxista da Dependência. São Paulo: Boitempo Editorial, 2012.

4 MARX, K; ENGELS, F. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 1998, p. 43.

5 Sobre modos de produção anteriores ao capitalismo, pode-se ver trecho dedicado a isto, intitulado Formas que precederam a produção capitalista, em MARX, K. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2011, p. 388-423. Para melhor esclarecimento deste documento, ver a sua publicação com a introdução de Eric Hobsbawm a ele em MARX, K. Formações econômicas pré-capitalistas. 6 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

6 Marx e Engels, depois de descreverem a necessidade incessante do capitalismo, para poder existir, ter de revolucionar os instrumentos de produção, as relações de produção e, por fim, as relações sociais, diz no Manifesto Comunista: “Tudo o que era sólido e estável se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar sem ilusões a sua posição social e as suas relações com os outros homens”. In: MARX, K; ENGELS, F. Manifesto Comunista, op. cit., p. 43.

7  OSORIO, J. O Estado no centro da mundialização: a sociedade civil e o tema do poder. 1 ed. São Paulo: Outras Expressões, 2014, p. 161, grifo nosso.

8 BUKHARIN, N. O imperialismo e a economia mundial. Rio de Janeiro: Editora MELSO, 19--.