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TRABALHO Análise da obra O caso dos exploradores de cavernas

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“O CASO DOS EXPLORADORES DE CAVERNAS” E O DIREITO POSITIVO 
BRASILEIRO 
Ana P. B. Ruppenthal 
 
RESUMO 
O presente artigo tem por escopo analisar a obra da literatura jurídica intitulada 
“O caso dos exploradores de Cavernas”, de autoria de Lon L. Fuller, esmiuçando 
seus aspectos principais e comparando-os com aspectos semelhantes 
verificados no Direito Brasileiro, propondo uma revisão no caso hipotético da 
obra. 
Palavras-chaves: Direito comparado, literatura jurídica, Direito brasileiro, 
Introdução ao Estudo do Direito 
 
ABSTRACT 
This article has the purpose of analyzing the work of juridical literature entitled 
"The Case of the speluncean explorers", authored by Lon L. Fuller, scrutinizing 
its main aspects and comparing with similar features observed in Brazilian Law, 
proposing a revision in the hypothetical case of the work. 
Key-words: comparative law, juridical literature, Brazilian Law, Introduction to the 
Study of Law 
 
 
 
 
 
 
1. INTRODUÇÃO 
Com o objetivo evidente de propiciar ao estudante que se inicia nas doutrinas 
jurídicas uma forma de “exercício” de reflexão e análise, o autor formulou esse 
caso hipotético em que os critérios de julgamento expostos são amplamente 
passíveis de exame, tanto para quem já possui um conhecimento aprofundado 
na ciência do Direito como para aquele que toma seus primeiros passos, num 
vocabulário acessível que não deixa de ser rico e jurídico. 
E ao longo deste artigo veremos como o caso se deu na obra, e como alguns 
dos institutos e propostas sugeridas pelos personagens poderiam ser 
examinados se fossem considerados dentro do ordenamento jurídico brasileiro. 
Assim, não só se visa apresentar e revisar a obra como criticá-la e tomá-la por 
referência no estudo das ciências jurídicas. 
2. O enredo 
2.1. Os personagens 
A narrativa se desenrola no ano de 4299 na Suprema Corte de Nawgarth, e os 
personagens são: Roger Whetmore e quatro outros membros da Sociedade 
Espeleológica, que é uma sociedade que se destina a exploração amadorística 
de cavernas; os integrantes da Corte, que são o Presidente Truepenny, o Juiz 
Foster, Juiz Tatting, Juiz Keen e o Juiz Handy – todos esses considerados aqui 
como personagens principais. Como personagens secundários também entram 
em cena o Juiz de primeira instância, o Representante do Ministério Público e o 
corpo do júri, cujo porta-voz o autor deixa evidente ser advogado. 
2.2 Os acontecimentos 
Maio de 4299 – Os cinco membros da Sociedade Espeleológica penetram numa 
caverna, e ao se encontrarem distantes da entrada ocorre um desmoronamento 
que bloqueia o único acesso. Foi enviada uma equipe de socorro, mas o resgate 
se mostrou extremamente laborioso e arriscado; houve necessidade de envio de 
reforços contínuos e os fundos da sociedade foram-se esgotando. Dez operários 
morreram numa tentativa de resgate. O resgate propriamente dito só ocorreu 
cerca de um mês depois. 
Durante esse tempo de confinamento, os exploradores conseguiram manter 
contato com o mundo exterior via rádio. Tendo a certa altura as suas provisões 
alimentares se esgotado, o porta-voz do grupo, Roger Whetmore, indaga a 
profissionais de saúde dentro da comissão de resgate se havia a possibilidade 
de sobrevivência caso eles se alimentassem da carne de um deles, o que foi 
respondido em sentido afirmativo. Whetmore pergunta, então, a alguma das 
autoridades presentes se esse procedimento seria aconselhável, não obtendo 
resposta. 
Quando os exploradores foram finalmente resgatados, constou-se que Roger 
Whetmore fora sacrificado e o seu corpo servido de alimento aos demais. 
Narraram os outros membros do grupo que a idéia de subsistência por carne 
humana havia partido do próprio Roger Whetmore que, tendo convencido os 
outros a tirar a sorte através de dados, voltou atrás nessa pretensão, mas 
pressionado pelos companheiros, tirou a sorte junto deles, e por fim a sorte se 
voltou contra ele próprio. 
Depois de receber o devido tratamento em um hospital os membros 
sobreviventes dessa exploração foram acusados pelo homicídio de Whetmore; 
o caso foi direcionado para o Tribunal do Júri, que decidiu, através de seu porta-
voz de profissão advogado, que o caso deveria ser deixado a cargo do chefe do 
Poder Executivo. 
Antes que a decisão chegasse ao chefe do Poder Executivo, o Presidente do 
Tribunal pede aos juízes da Suprema Corte que se pronunciassem a respeito do 
caso e decidissem o caso por ali, votando pela condenação ou não dos réus. 
3. O pensamento jurídico dos personagens magistrados 
3.1 Juiz Foster 
Esse juiz supõe duas premissas para a inocência dos acusados, as quais são: 
I. O Direito Positivo inexistia dentro daquela caverna, uma vez 
que o grupo lá confinado não estava socialmente inserto; assim, lá 
prevalecia o Direito Natural. Nas palavras do personagem: 
“Quando a suposição de que os homens podem viver em comum 
deixa de ser verdadeira, como obviamente sucedeu nesta 
extraordinária situação em que a conservação da vida apenas 
tornou-se possível pela privação da vida, as premissas básicas 
subjacentes a toda a nossa ordem jurídica perderam seu 
significado e sua coercibilidade”. 
II. Na segunda premissa, o magistrado, fazendo uma 
interpretação extensiva da lei, passa a defender a legítima defesa 
como excludente de ilicitude. Fala-se aqui em sacrifício de uma 
vida pela legítima defesa de quatro outras vidas (poderia se falar 
em estado de necessidade, que é previsto pelo Direito Brasileiro 
como excludente de ilicitude). 
3.2 Juiz Tatting 
Esse Juiz inicia suas deliberações refutando os argumentos do colega que o 
antecedeu. Diz ele que um dos propósitos da lei penal, se não o propósito da lei 
final, e a prevenção dos crimes. Na legítima defesa há que se verificar um 
impulso irracional, enquanto no caso em debate se verificou um crime 
premeditado. 
Deve-se ter em conta, aqui, que o juiz não levou em conta o que a ciência da 
criminologia define como crime famélico, que é aquele cometido sob o impulso 
de uma necessidade extrema e iminente, e nem levou em conta a intenção dos 
agentes, que não era simplesmente tirar a vida do colega de maneira vil, mas 
visavam sobreviver da maneira mais radical, que foi a única que eles 
encontraram – isso é expresso como excludente de ilicitude, ou seja: se a 
intenção do agente, no Direito Penal Brasileiro, não se enquadrar no dolo ou na 
culpa, não há que se falar em crime. 
Ao analisar a jurisprudência de seu ordenamento jurídico, o magistrado Tatting 
faz equiparação com um crime de furto de pão, afirmando que se um crime tão 
mais simples (que é igualmente famélico) tem precedentes de condenação, 
porque não o teria o crime de homicídio para subsistência por carne humana? O 
juiz desconsidera, aqui, princípios norteadores do Direito, tais como o princípio 
da dignidade da pessoa humana, provavelmente não previstos no ficto 
ordenamento jurídico. 
A seguir, Tatting formula uma série de hipóteses a respeito do caso, sendo 
expressamente fiel a doutrinas tradicionais jurídicas na intenção de derrubar os 
argumentos do magistrado Foster. 
Ante o fato, segundo ele chocante, de que dez operários morreram no resgate 
dos exploradores, o Tatting se recusa a votar pela condenação ou absolvição 
dos réus. 
3.3 Juiz Keen 
O terceiro magistrado apresenta duas questões que afirma não serem 
competência da Suprema Corte de Nawgarth: 
I. A primeira se refere à “clemência executiva”, que segundo 
ele é uma decisão que deve ser deixada a cargo do Chefe do Poder 
Executivo, no caso de condenação dos acusados, sendo que a 
proposição de clemência feita pelo Presidente do Tribunal seria 
ilegítima. 
II. Na segunda, ele diz que não se deve entrar em questão a 
justiça do caso. Como juiz, diz ele, não deve aplicar questões de 
moralidade no seu exercício. No Direito Brasileiro, a seu turno, a 
aplicação da lei deve considerar a finalidade social