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PSICOPATOLOGIA (termos)

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PSICOPATOLOGIA (termos)

O termo "psicopatologia" é de origem grega: psiché, alma e patologia. Traduzido em sentido literal significa "patologia do espírito". Com o correr do tempo, os autores empregaram várias expressões para designar esta disciplina. Aludiram a psicopatologia, psicopatologia geral, psicologia anormal, psicologia da anormalidade e psicologia do patológico. O termo mais empregue e amplamente aceite é "psicopatologia"'.

O termo "psicopatologia" corresponde ao estudo sistemático das vivências, cognições e comportamentos que são produto de uma mente perturbada. Ao longo da evolução do termo, foi usado sob duas vertentes: psicopatologia explicativa e psicopatologia descritiva.

Psicopatologia explicativa

Inclui explicações com base em constructos teóricos (por exemplo, psicodinâmicos ou cognitivo-comportamentais).

Psicopatologia descritiva

Refere-se apenas à descrição precisa e à categorização das manifestações psicopatológicas objetivas (fenômenos objetivos) observadas diretamente pelo clínico - comumente denominadas de sinais - e subjetivas (fenômenos subjetivos) verbalizadas pelo doente - comumente denominados de sintomas.

Alguns autores preferem o uso do termo "psicopatologia compreensiva" a "psicopatologia descritiva", uma vez que o primeiro traduz de uma forma mais fiel a riqueza conceptual de Jaspers. O termo "psicopatologia descritiva" é o mais abrangente. A psicopatologia descritiva (PD) pode ser definida como um conjunto sistemático de princípios gerais, enunciados descritivos e regras de aplicação, cuja função é a descrição e captura de aspetos do comportamento que se assumem resultar de uma disfunção psíquica ou orgânica.

Entre os aspetos que limitam o desenvolvimento da PD destacam-se:

• A introspeção e observação - fontes para a captação dos fenômenos psíquicos- estão sujeitas a múltiplas condicionantes devido ao seu caráter subjetivo;

• Nos fenômenos psicopatológicos coexistem dois fatores: o biológico e o psicossocial que lhes conferem uma dimensão individual/cultural;

Escassa correlação, até ao momento, dos sintomas e dos estados psíquicos com a base biológica que os sustenta;

O Homem é o objeto e o sujeito que intervêm na captação do fenômeno psicopatológico.

A evolução da psicopatologia descritiva tem-se sustentado em vários postulados:

Estabilidade das manifestações psicopatológicas;

Associação duradoira entre as entidades nosológicas e as manifestações que lhe servem de diagnóstico;

As manifestações psicopatológicas são sinais de um problema orgânico interno, clinicamente reconhecido apesar da contribuição de fatores psicossociais. 

Psicopatologia e Fenomenologia

A maioria dos autores concorda que o impulso decisivo para o desenvolvimento da PD foi a obra de Jaspers Psicopatologia Geral, em meados do século XX. A conceitualização da PD por este autor teria sido influenciada por um movimento filosófico denominado fenomenologia com o qual Jaspers teve contacto através dos escritos de Husserl. Isto leva a que frequentemente se identifique o termo "fenomenologia" com a descrição de sintomas e sinais, usando-o como sinônimo de PD. Vários autores põem em causa a influência que a corrente filosófica teve sobre este autor, uma vez que recordam que a única coisa em comum entre a fenomenologia de Jaspers e a de Husserl é serem um método puramente descritivo e sem intenção explicativa.

A fenomenologia, para Jaspers, tinha como principais objetivos:

• Descrever as manifestações psicopatológicas subjetivas (fenômenos subjetivos);

• Ordená-las e classificá-las;

• Criar uma terminologia para as designar;

Para aceder aos fenômenos subjetivos a fenomenologia recorre à empatia, que corresponde a um instrumento clínico que permite avaliar as manifestações subjetivas da mente. Um dos aspetos mais importantes na obra de Jaspers foi o desenvolvimento do método psicopatológico. Para Jaspers, os principais objetivos da metodologia psicopatológica são orientar a apreensão e exploração dos sintomas, desconsiderando preconceitos e pressupostos filosóficos, teóricos e religiosos que possam contaminar o processo psicopatológico.


Psicopatologia e Psiquiatria Clínica

Enquanto a psicopatologia é uma ciência semiológica, propedêutica e teorética que lida com os fenômenos psíquicos anormais, a psiquiatria clínica tenta integrar os ditos fenômenos numa síntese nosológica e organizar esforços para o seu tratamento. A psiquiatria clínica e a psicopatologia constituem, assim, uma verdadeira unidade.

A psicopatologia atual avançou pouco desde a sua origem no século XX. Na altura, o nível de descrição supria as exigências da época em que as descrições da anatomia macroscópica e microscopia se ficavam por níveis descritivos do tipo dicotômico (presente/ausente) ou ordinal (leve, moderado, grave). Hoje, a investigação neurobiológica inclui análises dimensionais complexas que se afastam do poder resolutivo da psicopatologia tradicional.

O grupo de Cambridge, liderado por Berrios e Marková, tem desenvolvido modelos que se baseiam na heterogeneidade do sintoma psiquiátrico. Segundo eles, as diferenças entre os sintomas psiquiátricos não ocorrem apenas ao nível descritivo mas também ao nível da sua origem, estrutura e expressão.

De acordo com o modelo de formação do sintoma de Berrios e Marková, numa primeira fase existe uma emissão de sinais patológicos por parte de determinadas zonas do cérebro. Seguidamente o sintoma passa a barreira da consciência e constitui uma sopa primordial. Posteriormente, a sopa primordial é sujeita a uma série de transformações (baseadas nas experiências passadas, no contexto sociocultural) até que se manifesta como sintoma final sob a forma de uma alteração do comportamento ou do discurso.

De acordo com este modelo, as versões de um mesmo sintoma (ou de diferentes sintomas), podem ser construídas em estádios sucessivos de um processo que vai desde o sinal cerebral até à expressão final dos sintomas. Para uma classificação da heterogeneidade do sintoma, Berrios e Marková propõem o "modelo da heterogeneidade".

Segundo este, as diferenças entre os sintomas poderão ser classificadas de forma hierárquica. Num primeiro nível situam-se as categorias convencionais (alucinações,ideias delirantes, etc.). Num segundo nível as diferenças são mais específicas e surgem, por exemplo, entre variantes de um mesmo "tipo" de sintomas (de acordo com a sua causa, por exemplo alucinações no delirium, alucinações na esquizofrenia, alucinações na histeria, alucinações na privação sensorial).

Num terceiro nível, as diferenças podem ser ainda mais específicas, sendo aqui diferenciados os vários subtipos de sintomas (alucinações auditivas, visuais, táteis, olfativas).

Níveis subsequentes podem ser criados, dependendo do tipo de sintomas, corroborando assim as diferenças estruturais que podem existir entre os diversos sintomas. É necessário olhar para a psicopatologia como um conjunto de constructos teóricos que se podem alterar com o tempo e, por isso, requerem uma calibração periódica. Por outro lado, a forma como descrevemos os sintomas mentais deve estar adaptada às necessidades científicas da época em que vivemos, relacionadas, por exemplo, com o pormenor dos dados obtidos pelos meios auxiliares de diagnóstico, e que são diferentes daquelas observadas no século XX.

Jaspers dizia, em relação à evolução da psicopatologia: "a psicopatologia geral está na continuidade dos dados obtidos até ao momento, orientando-se neles, podendo servir de base para novas evidências - seja no sentido da contradição ou da construção e avanço."

DSM e a CID

Instrumentos como o DSM e a CID são muitas vezes utilizados como glossários, não sendo esse o objetivo para o qual foram construídos. É com base neles que muitos alunos e médicos têm contato com a psicopatologia. De tal forma são incutidas as normas destes sistemas classificativos que os clínicos, muitas vezes, não pensam que podem ter acesso a formas alternativas de psicopatologia. A postura geral da psiquiatria nos dias que correm tem vindo a ser crítica em relação aos hábitos estabelecidos no que respeita à psicopatologia e tende a voltar atrás na história dos sintomas de modo a reformular a forma de os abordar.

O estudo da história da psicopatologia deve ser considerado como mais do que um passatempo de historiador ou análise política dos aspetos sociais da psiquiatria. É uma poderosa técnica de calibração através da qual a linguagem em psiquiatria pode ser melhorada e preparada para uma ; quantificação mais rigorosa.