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Cristianismo puro e simples

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Cristianismo puro e simples 
C. S. Lewis
Capítulos 
· Livro I - O certo e o errado como chaves para a compreensão do sentido do universo 
· A lei da natureza humana (Pg 01)
· Algumas objeções (Pg 02)
· A realidade da lei (Pg 03)
· O que existe por trás da lei (Pg 04)
· Temos motivos para nos sentir inquietos (Pg 05)
· Livro II – no que acreditam os cristãos 
· As concepções concorrentes de Deus (Pg 06)
· A invasão (Pg 07)
· A alternativa estarrecedora (Pg 08)
· O penitente perfeito (Pg 09)
· A conclusão prática (Pg 10)
· Livro III – conduta cristã 
· As três partes da moral (Pg 11)
· As "virtudes cardeais” (Pg 12)
· Moralidade social (Pg 13)
· Moralidade e psicanálise (Pg 14)
· Moralidade sexual (Pg 16)
· O casamento cristão (Pg 18)
· O perdão (Pg 20)
· O grande pecado (Pg 21)
· A caridade (Pg 23)
· A esperança (Pg 24)
· A fé (Pg 25)
· A fé (Pg 26)
· Livro IV - Além da personalidade ou os primeiros passos na doutrina da trindade
· Criar e gerar (Pg 28)
· Um Deus em três pessoas (Pg 30)
· O tempo e além do tempo (Pg 31)
· A boa infecção (Pg 33)
· Os teimosos soldadinhos de chumbo
· Duas notas (Pg 33)
· O divino fingimento (Pg 33)
· O cristianismo é difícil ou fácil (Pg 33)
· Avaliar o custo (Pg 32)
· Boas pessoas ou novas criaturas (Pg 33)
· As novas criaturas (Pg 33)
Livro I
O CERTO E O ERRADO COMO CHAVES PARA A COMPREENSÃO DO SENTIDO DO UNIVERSO
A lei da natureza humana
"Você gostaria que fizessem o mesmo com você?"
"Você gostaria que fizessem o mesmo com você?"; "Desculpe, esse banco é meu, eu sentei aqui primeiro"; "Deixe-o em paz, que ele não lhe está fazendo nada de mal"; "Por que você teve de entrar na frente?"; "Dê-me um pedaço da sua laranja, pois eu lhe dei um pedaço da minha"; e "Poxa, você prometeu!" Essas coisas são ditas todos os dias por pessoas cultas e incultas, por adultos e crianças.
O homem que os faz não está apenas expressando o quanto lhe desagrada o comportamento de seu interlocutor; está também fazendo apelo a um padrão de comportamento que o outro deveria conhecer. E o acusado quase sempre tenta provar que sua atitude não infringiu este padrão, ou que, se infringiu, ele tinha uma desculpa muito especial para agir assim. Está claro que os envolvidos na discussão conhecem uma lei ou regra de conduta, de comportamento digno ou moral com a qual efetivamente concordam.
Os povos discordaram a respeito de quem são as pessoas com quem você deve ser altruísta - sua família, seus compatriotas ou todo o género humano; mas sempre concordaram em que você não deve colocar a si mesmo em primeiro lugar. O egoísmo nunca foi admirado. Os homens divergiram quanto ao número de esposas que podiam ter, se uma ou quatro; mas sempre concordaram em que você não pode simplesmente ter qualquer mulher que lhe apetecer.
São essas, pois, as duas ideias centrais que pretendia expor. Primeiro, a de que os seres humanos, em todas as regiões da Terra, possuem a singular noção de que devem comportar-se de uma certa maneira, e, por mais que tentem, não conseguem se livrar dessa noção. Segundo, que na prática não se comportam dessa maneira. Os homens conhecem a Lei Natural e transgridem-na. Esses dois fatos são o fundamento de todo pensamento claro a respeito de nós mesmos e do universo em que vivemos.
Algumas objeções 
“A razão pela qual sua concepção de Nova York pode ser mais verdadeira ou mais falsa que a minha é que Nova York é um lugar real, cuja existência independe do que eu ou você pensamos a seu respeito.” 
Suponhamos que você ouça o grito de socorro de um homem em perigo. Provavelmente sentirá dois desejos: o de prestar socorro (que se deve ao instinto gregário) e o de fugir do perigo (que se deve ao instinto de auto-preservação). Mas você encontrará dentro de si, além desses dois impulsos, um terceiro elemento, que lhe mandará seguir o impulso da ajuda e suprimir o impulso da fuga, esse é a Lei Moral. Ela geralmente nos aconselha a escolher o impulso mais fraco.
A rigor, não existem impulsos bons e impulsos maus. É um erro achar que alguns de nossos impulsos, como o amor materno e o patriotismo, são bons, e outros, como o instinto sexual e a agressividade, são maus. Tudo o que queremos dizer é que existem mais situações em que o instinto de luta e o desejo sexual devem ser contidos do que situações em que devemos conter o amor materno e o patriotismo.
"Isso que você chama de Lei Moral não é somente uma convenção social, algo que nos foi incutido pela nossa educação?" Acredito que essas pessoas incorrem num mal entendido. Se aprendemos alguma regra de nossos pais e professores, essa regra não necessariamente uma simples invenção humana.
Apesar de haver diferenças entre as ideias morais de certa época ou país e as de outros tempos ou lugares, essas diferenças, na realidade, não são muito grandes - nem de longe são tão importantes quanto a maioria das pessoas imagina -, e, assim, podemos reconhecer a mesma lei dentro de todas elas; ao passo que as meras convenções, como o sentido do trânsito ou os tipos de vestimenta, diferem largamente.
Quando você considera as diferenças morais entre um povo e outro, não pensa que a moral de um dos dois é sempre melhor ou pior que a do outro? Se um conjunto de ideias morais não fosse melhor do que outro, não haveria sentido em preferir a moral civilizada à moral bárbara, ou a moral cristã à moral nazista. No momento em que você diz que um conjunto de ideias morais é superior a outro, está, na verdade, medindo-os ambos segundo um padrão e afirmando que um deles é mais conforme a esse padrão que o outro, uma Moral Verdadeira. 
A realidade da lei
"Por que devo ser altruísta?"
A lei da gravidade nos diz o que a pedra cai, ela obedece a lei; já a Lei da Natureza Humana nos diz o que os seres humanos deveriam fazer e não fazem. Ou seja, quando tratamos de seres humanos, existe algo além e acima dos fatos. Existem os fatos (como os homens se comportam) e também uma outra coisa (como deveriam se comportar). No resto do universo, não há necessidade de outra coisa que não os fatos. Elétrons e moléculas comportam-se de determinada maneira e disso decorrem certos resultados, e talvez o assunto pare aí. Os homens, no entanto, comportam-se de determinada maneira e o assunto não pára aí, já que estamos sempre conscientes de que o comportamento deles deveria ser diferente.
Certas pessoas dizem que, apesar de a boa conduta não ser o que traz vantagens para cada pessoa individualmente, pode significar o que traz vantagens para a humanidade como um todo; e, portanto, a coisa não seria tão misteriosa. Se eu perguntar: "Por que devo ser altruísta?", e você responder: "Porque isso é bom para a sociedade", poderei retrucar: "Por que devo me importar com o que é bom para a sociedade se isso não me traz vantagens pessoais?", ao que você terá de responder: "Porque você deve ser altruísta" - o que nos leva de volta ao ponto de partida. O que você diz é verdade, mas não nos faz avançar. Se um homem pergunta o motivo de se jogar futebol, de nada adianta responder que é "fazer gols", pois tentar fazer gois é o próprio jogo, e não o motivo pelo qual o jogamos.
Essa Regra do Certo e do Errado, ou Lei da Natureza Humana, ou como quer que você queira chamá-la, deve ser uma Verdade - uma coisa que existe realmente, e não uma invenção humana. E, no entanto, não é um fato no mesmo sentido em que o comportamento efetivo das pessoas é um fato. Começa a ficar claro que teremos de admitir a existência de mais de um plano de realidade; e que, neste caso em particular, existe algo que está além e acima dos fatos comuns do comportamento humano, algo que no entanto é perfeitamente real - uma lei verdadeira, que nenhum de nós elaborou, mas que nos sentimos obrigados a cumprir.
O que existe por trás da lei
"Se existisse um poder exterior que controlasse o universo, ele não poderia se revelar para nós como um dos fatos do próprio universo. "
Quanto mais sério for o homem de ciência, mais ele concordará comigo quanto ao papel da ciência - papel, aliás, extremamente útil e necessário. Agora, perguntas como