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Cristianismo puro e simples

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pelo chão, isso contraria a sua vontade; afinal, ela preferia que os filhos fossem mais organizados. Por outro lado, foi a sua vontade que permitiu que as crianças ficassem livres para deixar o quarto desorganizado.
Se uma coisa é livre para o bem, é livre também para o mal. E o que tornou possível a existência do mal foi o livre-arbítrio. Por que, então, Deus o concedeu? Porque o livre-arbítrio, apesar de possibilitar a maldade, é também aquilo que torna possível qualquer tipo de amor, bondade e alegria. A felicidade que Deus quis para suas criaturas mais elevadas é a felicidade de estar, de forma livre e voluntária, unidas a ele e aos demais seres num êxtase de amor e deleite ao qual os maiores arroubos de paixão terrena entre um homem e uma mulher não se comparam. Por isso, essas criaturas têm de ser livres.
Quando discutimos com ele, estamos na verdade discutindo contra o próprio poder que nos tornou capazes de discutir: é como se cortássemos o galho no qual estamos sentados. Se Deus pensa que o estado de guerra no universo é um preço justo a pagar pelo livre- arbítrio - ou seja, pela criação de um mundo vivaz no qual as criaturas podem fazer tanto um grande bem quanto um grande mal - devemos igualmente consentir que o preço é justo.
"Estou disposto a aceitar Jesus como um grande mestre da moral, mas não aceito a sua afirmação de ser Deus." Essa é a única coisa que não devemos dizer. Um homem que fosse somente um homem e dissesse as coisas que Jesus disse não seria um grande mestre da moral. Seria um lunático - no mesmo grau de alguém que pretendesse ser um ovo cozido — ou então o diabo em pessoa. Refiro-me ao perdão dos pecados. De todos os pecados. Ora, a não ser que seja Deus quem o afirme, isso soa tão absurdo que chega a ser cômico. Compreendemos que um homem perdoe as ofensas cometidas contra ele mesmo. Você pisa no meu pé e eu o perdôo. O que diríamos, no entanto, de um homem que, sem ter sido pisado ou roubado, anunciasse o perdão dos pisões e dos roubos cometidos contra os outros?
O penitente perfeito 
“Só uma pessoa má precisa do arrependimento, mas só uma pessoa boa consegue arrepender-se perfeitamente.”
A principal crença cristã é que a morte de Cristo de algum modo acertou nossas contas com Deus e nos deu a possibilidade de começar de novo. As teorias sobre como isso ocorreu são outro assunto. Dizem-nos que Cristo morreu por nós, que sua morte nos lavou de nossos pecados e que, morrendo, ele destruiu a própria morte. Essa é fórmula. Esse é o cristianismo. E nisso que acreditamos.
Cristo se ofereceu para ser castigado em nosso lugar. Ora, se Deus estava disposto a nos perdoar, por que não nos perdoou de antemão? E por que, além disso, castigou um inocente em lugar dos culpados? Se pensarmos o castigo na acepção policial e judicial da palavra, isso não tem sentido nenhum. Por outro lado, se pensarmos numa dívida, é muito natural que uma pessoa, possuindo bens, salde os compromissos daquela que não os possui, "aguentar as consequências" e "pagar a conta" - ora, todos sabem que, quando uma pessoa cai num buraco, o problema de tirá-la de lá recai sobre os ombros de um bom amigo.
Na verdade, só um homem bom pode arrepender-se. E isso nos leva a um paradoxo. Só uma pessoa má precisa do arrependimento, mas só uma pessoa boa consegue arrepender-se perfeitamente. Quanto pior você é, mais precisa do arrependimento e menos é capaz de arrepender-se. A única pessoa capaz de arrepender-se perfeitamente seria uma pessoa perfeita. Deus pode nos ajudar, Ele coloca um pouco de si mesmo em nós. Empresta-nos um pouco da sua razão e assim nos tornamos capazes de pensar; nos dá um pouco do seu amor e, dessa maneira, amamos uns aos outros.
Certas pessoas se queixam de que, se Jesus foi ao mesmo tempo Deus e homem, seus sofrimentos e sua morte não têm valor nenhum, "pois tudo isso foi fácil para ele". A submissão perfeita, o sofrimento perfeito e a morte perfeita não foram somente mais fáceis para Jesus porque ele era Deus; só foram possíveis porque ele era Deus. O professor é capaz de ajudar as crianças a formar as letras porque é adulto e sabe escrever. Evidentemente, para o professor é fácil escrever, e é essa mesma facilidade que o habilita a ajudar a criança. Se ele fosse rejeitado com a desculpa de que essa tarefa "é fácil para adultos", e a criança quisesse aprender a escrever com outra criança igualmente analfabeta.
A conclusão prática 
“Por que Ele não invade o território com força total? Será que não é forte o suficiente?”
Cristo entregou-se à submissão e à humilhação perfeitas: perfeitas porque era Deus; submissão e humilhação porque era um homem. Ora, a crença dos cristãos está em que, se partilharmos de algum modo da humildade e do sofrimento de Cristo, partilharemos também do seu triunfo sobre a morte, encontraremos nova vida após a morte e nela seremos criaturas perfeitas e perfeitamente felizes.
É por isso que o cristão se encontra numa situação diferente da de outras pessoas que tentam ser boas. Estas esperam, por ser boas, agradar a Deus, quando nele acreditam; ou, caso não acreditem, esperam pelo menos receber a aprovação dos homens bons. Já o cristão pensa que todo bem que faz advém da vida de Cristo que o anima interiormente. Não pensa que Deus nos amará mais por sermos bons, mas que Deus nos fará bons porque nos amou primeiro, do mesmo modo que o teto de uma estufa não atrai o sol por ser brilhante, mas brilha porque o sol irradia sobre ele.
Por que Deus quis entrar neste mundo ocupado pelo inimigo, fundando uma espécie de sociedade secreta para minar o demônio? Por que não invade o território com força total? Será que ele não é forte o suficiente? Bem, os cristãos acreditam que Deus vai utilizar a força total; apenas não se sabe quando. Mas podemos adivinhar o porquê da demora. Agindo assim, ele nos dá uma chance de aderirmos à sua causa livremente. Deus se apresentará sem disfarce, e virá com tamanho poder que causará em cada criatura um amor irresistível ou um irresistível horror. Hoje, agora, neste momento, temos a oportunidade de escolher o lado correto. Deus tarda a aparecer para nos dar essa chance, que não durará para sempre. É pegar ou largar.
Livro III
Conduta cristã 
As três partes da moral
"Não pode estar errado, pois não fará mal a ninguém."
A moral, então, parece englobar três fatores. O primeiro é a conduta leal e a harmonia entre os indivíduos. O segundo pode ser chamado de organização ou harmonização das coisas dentro de cada indivíduo. O terceiro é o objetivo geral da vida humana como um todo. Exemplo: cada humano é um navio que anda em frota (junto com outros indivíduos) para algum lugar objetivo.
Quando um homem, falando de um projeto seu, diz que ele "não pode estar errado, pois não fará mal a ninguém", também está se referindo somente ao primeiro fator. No seu modo de pensar, não importa como o navio está por dentro, desde que não colida com a embarcação ao lado. Essa pessoa sabe muito bem que não deve danificar os outros navios do comboio; porém, pensa sinceramente que tudo o que fizer em seu próprio navio é da sua própria conta.
Podemos todos cooperar no primeiro. Os desacordos começam com o segundo e se tornam mais sérios no terceiro. Se não passarmos ao segundo fator - a organização interna de cada ser humano -, estaremos apenas nos enganando. De que vale dar instruções precisas de navegação aos barcos se eles não passam de embarcações velhas e enferrujadas, que não obedecem aos comandos?
As virtudes cardeais
"Há uma diferença entre executar um ato de justiça ou temperança, por um lado, e ser uma pessoa justa ou temperada, por outro."
Existem sete "virtudes". Quatro delas são chamadas virtudes "cardeais", e as restantes, virtudes "teológicas". São chamadas virtudes "cardeais" porque são, poderíamos dizer, virtudes "fundamentais". São cardeais: a prudência, a temperança, a justiça e a fortaleza.
A prudência significa a sabedoria prática, parar para pensar nos nossos atos e em suas conseqüências. Paulo nos exortou a ser não apenas "simples como