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Cristianismo puro e simples

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será de mais valia que uma caminhada se você quiser ir para a Europa. Você jamais alcançará a vida eterna sentindo a presença de Deus nas flores ou na música. Também não chegará a lugar algum se ficar examinando os mapas sem fazer-se ao mar. E, se fizer-se ao mar sem um mapa, não estará seguro.
A idéia popular de cristianismo é simplesmente esta: Jesus Cristo foi um grande mestre da moral e, se seguíssemos seus conselhos, conseguiríamos estabelecer uma ordem social melhor e evitar uma nova guerra. Saiba que isso tem seu fundo de verdade. Mas é muito menos que a verdade integral do cristianismo. Os escritos dizem que Cristo é o Filho de Deus. Dizem que os que nEle depositam sua confiança podem também tornar-se filhos de Deus. E dizem ainda que sua morte nos salvou de nossos pecados.
"Antes de todos os mundos" Cristo é gerado, não criado. O que isso significa? Gerar é ser pai de alguém; criar é fazer, construir algo. A diferença é a seguinte: na geração, o que foi gerado é da mesma espécie que o gerador. Um homem gera bebês humanos, um castor gera castorzinhos. Um castor constrói uma represa, um homem faz um aparelho de rádio. O que Deus gera é Deus, assim como o que o homem gera é homem. O que Deus cria não é Deus, assim como o que o homem faz não é homem. (Atos 13:33 gerar = ressuscitar).
Tudo o que Deus criou tem alguma semelhança com ele mesmo. O espaço se parece com ele em sua vastidão; não que a grandeza do espaço seja do mesmo tipo que a grandeza de Deus, mas é uma espécie de símbolo dela. A matéria é semelhante a Deus por ter energia. O mundo vegetal é semelhante a Deus por ter vida, pois ele é o "Deus vivo". Nos temos um princípio de instinto afetivo. Não é a mesma coisa que o amor que existe em Deus; mas é semelhante a este - da mesma maneira que uma figura desenhada numa folha plana de papel pode ser "semelhante" a uma paisagem. Este mundo é como o ateliê de um grande escultor. Nós somos as estátuas, e corre por aí o boato de que alguns de nós, um dia, ganharão a vida.
Um Deus em três pessoas 
“No nível divino, ainda existem personalidades; nele, porém, as encontramos combinadas de maneiras novas, maneiras que nós, que não vivemos nesse nível, não podemos imaginar.”
Um mundo unidimensional seria uma linha reta. Num mundo bidimensional, ainda haveria linhas retas, mas as linhas poderiam compor figuras. Num mundo tridimensional, ainda existem figuras, mas, combinadas, elas compõem corpos sólidos. Em outras palavras, à medida que avançamos para níveis mais complexos e mais reais, não deixamos para trás as coisas encontradas nos níveis mais simples: elas ainda existem, mas se combinam de maneiras novas — maneiras que nem sequer poderiam ser imaginadas por alguém que só conhecesse os níveis mais simples.
Ora, a noção cristã de Deus envolve o mesmíssimo princípio. O nível humano é um nível simples. Nele, uma pessoa é um ser e duas pessoas são dois seres separados - da mesma forma que, num plano bidimensional como o de uma folha de papel, um quadrado é uma figura e dois quadrados são duas figuras separadas. No nível divino, ainda existem personalidades; nele, porém, as encontramos combinadas de maneiras novas, maneiras que nós, que não vivemos nesse nível, não podemos imaginar. 
Na dimensão de Deus, por assim dizer, encontramos um Ser que são três pessoas sem deixar de ser um único Ser, da mesma forma que um cubo são seis quadrados sem deixar de ser um único cubo. E claro que não conseguimos conceber plenamente um Ser como esse. Do mesmo modo, se percebêssemos apenas duas dimensões do espaço, não poderíamos jamais imaginar um cubo. Mesmo assim podemos ter dele uma noção vaga.
Uma pessoa ajoelha-se e faz suas orações, tentando entrar em contato com Deus. Se ele é cristão, sabe que o que o induz a orar é também Deus. E sabe também que todo o conhecimento real que possui de Deus veio por meio de Cristo, o Homem que é Deus. Sabe que Cristo está de pé a seu lado, ajudando-o a orar, orando por ele. Você vê o que está acontecendo? Deus é aquilo para o qual ele ora. Deus é também quem o impele a orar. Deus, por fim, é a ponte que ele percorre para chegar a seu objetivo.
O tempo e além do tempo
“Deus não está no tempo. A vida dele não consiste em momentos que são seguidos por outros momentos.”
O que eu vou falar é uma "idéia cristã" na medida em que grandes sábios cristãos a sustentaram e que nela não há nada de contrário ao cristianismo. Porém, não se encontra nem na Bíblia nem em nenhum dos credos. Você pode ser perfeitamente cristão sem aceitá-la, ou mesmo sem pensar em absoluto neste assunto. 
Nossa vida nos vem momento a momento. Um momento desaparece antes que o outro chegue, e em cada um deles cabe pouquíssima coisa. Essa é a natureza do tempo. E é claro que você e eu temos como certo que essa série temporal - esse arranjo de passado, presente e futuro — não é apenas o modo como a vida se apresenta para nós, mas o modo como funcionam todas as coisas que existem. Costumamos pensar que todo o universo e até o próprio Deus passam do passado para o futuro, como nós fazemos.
Deus não está no tempo. A vida dele não consiste em momentos que são seguidos por outros momentos. Se um milhão de pessoas oram para ele às dez e meia da noite, ele não precisa ouvi-las todas no instante que chamamos de dez e meia. Dez e meia, ou qualquer outro momento ocorrido desde a criação do mundo, é sempre o presente para Deus. Para dizê-lo de outra maneira, Deus tem toda a eternidade para ouvir a brevíssima oração de um piloto cujo avião está prestes a cair em chamas. Vale lembrar que essa é só uma “ideia”.
 Sei que isso é difícil. Vou tentar dar outro exemplo, não exatamente sobre a mesma coisa, mas de algo um pouco parecido. Suponha que eu esteja escrevendo um romance. Escrevo: "Mary largou o trabalho e logo em seguida ouviu baterem à porta." Para Mary, que vive no tempo imaginário da minha história, não há intervalo entre largar o trabalho e ouvir a batida na porta. Eu, porém, que sou o criador de Mary, não vivo nesse tempo imaginário. Entre o tempo de escrever a primeira metade da frase e a segunda, posso parar o trabalho por umas três horas e ficar imerso em pensamentos sobre Mary.
Avaliar o custo
“Queria o alívio imediato da dor; mas, para ter isso, teria de submeter meus dentes ao tratamento completo.”
Deixem-me explicar. Quando era criança, eu tinha muita dor de dentes e sabia que, se me queixasse à minha mãe, ela me daria algo que faria passar a dor naquela noite e me deixaria dormir. Porém, eu não me queixava à minha mãe — ou só o fazia quando a dor se tornava insuportável. E o motivo pelo qual não me queixava é o seguinte: não tinha dúvidas de que ela me daria uma aspirina, mas sabia que não pararia por aí. 
Sabia que, na manhã seguinte, me levaria ao dentista. Eu não podia obter dela o que queria sem obter também outra coisa, que não queria. Queria o alívio imediato da dor; mas, para ter isso, teria de submeter meus dentes ao tratamento completo. E conhecia os dentistas: sabia que eles começariam a mexer com outros dentes que ainda não escavam doendo.
Depois de uma anamnese completa, o dentista vai explicar que precisaremos de uma cirurgia para corrigir o problema na ATM (orgulho), você não pode esquecer de escovar os dentes três vezes ao dia (orar), vamos precisar de implantes e exodontias, remover os dentes cariados e mortos para colocar novos, e muitas outras coisas. Você pode imaginar o preço desse tratamento? Não se preocupe, Jesus já deixou pago, você só precisa aceitar fazê-lo.
Se o deixarmos agir — pois podemos impedi-lo, se quisermos —, ele fará do mais fraco e do maior pecador entre nós uma criatura luminosa, radiante e imortal, tomada por uma pulsação tal de energia, alegria, sabedoria e amor que agora somos incapazes de imaginar; um espelho claríssimo e sem mácula que reflete ao próprio Deus o seu poder, sua bondade e sua felicidade infinita. O processo será longo e, às vezes, muito doloroso, mas é nesse processo que entramos — nada menos do que isso.
A boa infecção, Os teimosos