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A PERDA DE MANDATO PARLAMENTAR POR CONDENAÇÃO CRIMINAL TRANSITADA EM JULGADO E A INSEGURANÇA JURÍDICA CAUSADA PELA IMPREVISIBILIDADE DAS DECISÕES

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A PERDA DE MANDATO PARLAMENTAR POR CONDENAÇÃO CRIMINAL TRANSITADA EM JULGADO E A INSEGURANÇA JURÍDICA CAUSADA PELA IMPREVISIBILIDADE DAS DECISÕES: UMA VISÃO SEGUNDO A ANÁLISE DO DISCURSO[footnoteRef:1] [1: Trabalho apresentado no III Seminário de Teoria Geral do Direito e II Encontro Interdisciplinar Direitos Humanos da Universidade Federal do Piauí, como requisito para conclusão da disciplina Direito Constitucional II, ministrada pelo Professor Fernando Santos no curso de Bacharelado em Direito da Universidade Federal do Piauí.
² Graduando em Direito, 7º período, pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). E-mail: francilioinf@hotmail.com
³ Graduanda em Direito, 7º período, pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). E-mail: annanda_brandao@hotmail.com] 
Francílio Rodrigues Soares²; Annanda Brandão Amaral de Sousa³;
RESUMO: O presente trabalho tem como fito explanar as diversas teorias que explicam o modo como o STF usou as técnicas de interpretação chegando a resultados diferentes ao julgar casos análogos (ambos se enquadram no art. 92 do Código Penal), como a AP nº 470 (“Mensalão”) e AP nº 565 (caso senador Ivo Cassol). Através das técnicas da Análise do Discurso, busca-se perquirir o que os Ministros queriam dizer, mas na verdade não disseram. Assim, partindo do olhar para além da frase, o que se quer identificar é o discurso e como essa imprevisibilidade das decisões resulta numa insegurança jurídica.
PALAVRAS-CHAVE: STF; análise de discurso; perda de mandato; parlamentares; contradição.
INTRODUÇÃO
Vive-se na Era da Informação, disso todos sabem. Nunca se teve tanto acesso a tantas informações em tão pouco espaço de tempo e numa velocidade tão rápida, e isso cresce de forma exponencial. Da mesma forma, é do conhecimento de um sem número de pessoas que um dos principais Princípios que baliza o Direito é o tão conhecido Princípio da Publicidade. E, talvez, em decorrência deste, e também de tantos outros fatores, nunca se questionou tanto os poderes atuantes do País, e dentre eles, evidentemente, o tão aclamado Poder Judiciário, no qual, por vezes, parece estar depositada a maior parcela de confiança do povo brasileiro. No entanto, se tem questionado deveras, nos últimos tempos, sua atuação. E aí se inclui o tão poderoso Supremo Tribunal Federal, que sempre pareceu ter a melhor resposta, a decisão mais justa, e, portanto, digno da última palavra. Mas o que se pode perceber é um crescente questionamento a respeito da justiça e coerência dessas decisões. 
Uma discussão que causou (e ainda tem causado) grande polêmica foi sobre a perda de mandato parlamentar por condenação criminal transitada em julgado, em se saber se essa perda deveria ser automática ou não. Tal discussão tomou força a partir do julgamento da Ação Penal de número 470, referente ao caso que foi tão aclamado, denominado mais comumente como “Mensalão”. 
Pois bem, diante de tal exposição dos principais fatos, deve-se adentrar agora em exemplos palpáveis de decisões do Supremo a respeito da perda de mandado parlamentar por condenação criminal transitada em julgado, onde se poderá perceber que ele nem sempre decide da mesma forma. Mas por quê? O que pode haver por trás de decisões tão dessincronizadas?  
Para se conseguir repostas, deve-se passar primeiro à análise de dois casos (dentre inúmeros outros), em que as respostas do STF, a respeito dessa perda de mandato supracitada, são escancaradamente opostas. Trata-se da AP nº 470 (“Mensalão”) e da AP nº 565 (referente ao caso do Senador Ivo Cassol). 
Em tempo, é preciso entender, mesmo que brevemente, os fundamentos (ou pelos menos alguns deles) das duas correntes opostas, uma que defende a perda automática do mandato e a outra, que defende que a decisão sobre essa perda precisa ser da respectiva Casa Legislativa do parlamentar, ou seja, Câmara dos Deputados ou Senado Federal. 
A Teoria da Análise do Discurso e seus métodos tem um papel fundamental nesta pesquisa. No instante em que tais decisões díspares se colocam diante de todos, é imprescindível a utilização de técnicas capazes de identificar o que de fato ocorre com o Judiciário, interpretando sua linguagem através de suas decisões. O intuito é trabalhar, lançando mão da metodologia e dos conceitos desenvolvidos por Norman Flaircough ao analisar o discurso, a linguagem. A tríade linguagem-ideologia-discurso compõe um todo exemplificativo daquilo que se quer perquirir em sede doutrinária, fundamentação e realização dos preceitos jurídicos pelo Supremo Tribunal Federal. A celeuma não se encerra numa aparente antinomia dos dispositivos jurídicos. Vai além. A forma como o STF vem fundamentando suas decisões, reflete o seu percurso tortuoso na seara jurídica. Noutro giro, a segurança jurídica coloca-se em cheque xeque diante desta imprevisibilidade das decisões judiciais. 
PRIMEIRA CORRENTE: perda não automática (decisão política)
Antes, deve-se atentar aos artigos da Constituição Federal que ensejaram tal polêmica, quais sejam: 
Art. 15. É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se dará nos casos de: 
III – condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos; 
 
Art. 55. Perderá o mandato o Deputado ou Senador: 
IV – que perder ou tiver suspensos os direitos políticos; 
VI – que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado. 
§ 2º Nos casos dos incisos I, II e VI, a perda do mandato será decidida pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado Federal, por maioria absoluta, mediante provocação da respectiva Mesa ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa.
 
§ 3º Nos casos previstos nos incisos III a V, a perda será declarada pela Mesa da Casa respectiva, de ofício ou mediante provocação de qualquer de seus membros, ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa. 
Esta primeira corrente tem seus argumentos estruturados no sentido de que a perda do mandato não deverá ser automática. Tal corrente afirma que a regra do parágrafo 2º é muito clara em determinar que, no caso de condenação criminal transitada em julgado (inciso IV), a perda do mandato somente se dará se a Casa Legislativa decidir nesse sentido. E essa decisão é de natureza política, não ensejando, portanto, a possibilidade de o Poder Judiciário adentrar o mérito da questão. Por isso, diante da aparente antinomia entre a regra do parágrafo 2º do art. 55 (mais específica) e o inciso III do art. 15 c/c a regra do parágrafo 3º do art. 55, a regra a ser aplicada é aquela, visto não deva ser esquecido o Princípio da Especialidade, o qual afirma que a norma especial afasta a incidência da norma geral.
Antes de concluir a exposição de alguns dos argumentos utilizados por essa corrente, é necessário também demonstrar um dos argumentos utilizados por quem defende a perda automática, seguido pela refutação do mesmo. Trata-se do art. 92 de nosso Código Penal:
Art. 92 - São também efeitos da condenação: 
I - a perda de cargo, função pública ou mandato eletivo.
a) quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo igual ou superior a um ano, nos crimes praticados com abuso de poder ou violação de dever para com a Administração Pública;
 b) quando for aplicada pena privativa de liberdade por tempo superior a 4 (quatro) anos nos demais casos. 
Parágrafo único - Os efeitos de que trata este artigo não são automáticos, devendo ser motivadamente declarados na sentença. 
De acordo com o art. 92 do CP, como se pode perceber, a perda do mandato eletivo é efeito de condenação criminal transitada em julgado (desde que se enquadre nos requisitos das alíneas a e b). Sendo necessário esclarecer que o parágrafo único, quando diz que os efeitos de que trata o artigo não serão automáticos, está se referindo ao fato de que o juiz, caso os declare na sentença, deva o fazer motivadamente, trazendo a necessária fundamentação (ao contrário dos casos do art. 91, que tratam dos efeitos automáticos). Mas isso quer dizer que os efeitos não serão automáticos no