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Tutorial: Etapas da Carcinogênese

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mecanismo pelos quais as RUV podem induzir o surgimento de câncer é devido à quebra de ligações fosfodiéster no DNA. Alguns danos no DNA podem ser reparados; e as mutações podem tanto representar falhas nos mecanismos de reparo, como nos mecanismos de eliminação de células inviabilizadas pelo dano. Portanto, os efeitos das radiações ionizantes em um indivíduo dependem basicamente da dose absorvida (alta/baixa), da taxa de exposição (crônica/aguda) e da forma da exposição (corpo inteiro/localizada). Qualquer dose absorvida, inclusive das doses provenientes de radiação natural, pode induzir câncer ou matar células. A questão reside na probabilidade de dano, probabilidade de mutações precursoras de câncer e número de células mortas. Quanto maiores as taxas de dose e as doses absorvidas, maiores as probabilidades de dano, de mutações precursoras de câncer e de morte celular. 
	 Radiação Eletromagnética
As radiações eletromagnéticas são todas carcinogênicas e a sua ação perniciosa é evidenciada em várias circunstâncias, como, por exemplo, nos mineiros, que trabalham com elementos radioativos e que apresentam risco aumentado de câncer de pulmão, a incidência de certas formas de leucemia esteve e está acentuadamente aumentada em sobreviventes das bombas atômicas lançadas sobre o Japão e do acidente atômico ocorrido em Chernobyl. Apesar dos danos, os raios ultravioletas podem ser usados em beneficio da sociedade. A radioterapia é frequentemente utilizada no tratamento contra o câncer, sendo associada ou não a outras terapias. O tratamento baseia-se na exposição da parte do corpo afetada pelo tumor a uma fonte de raios γ ou X. Ao interagir com células e tecidos, a radiação induz a formação de espécies reativas de oxigênio que, danificam, entre outras moléculas, o DNA. Estas alterações podem deflagrar a morte das células afetadas pela radiação.
Carcinógenos Biológicos 
Existem fortes evidências biológicas e epidemiológicas de que diversos agentes infecciosos estão associados etiologicamente ao desenvolvimento de vários tipos de cânceres, uma vez que são capazes de agir como promotores de tumores humanos. Até o momento, o trabalho de maior relevância já publicado foi a Monografia IARC volume 100 B (2012), que traz diversos estudos sobre os agentes infecciosos considerados “carcinógenos biológicos” que são categorizados, segundo a IARC, como parte do grupo 1 de agentes carcinógenos, isto é, fazem parte dos agentes classificados como carcinogênicos em humanos. Perante a IARC, um carcinógeno pode ser: carcinogênico (grupo 1), provavelmente carcinogênico (grupo 2A), possivelmente carcinogênico (grupo 2B), não classificáveis (grupo 3), ou provavelmente não carcinogênico (grupo 4). Para que os agentes infecciosos fossem reconhecidos como carcinogênicos foi necessário que estes organismos preenchessem alguns critérios, como: taxa de incidência do organismo e tumor associado, não contemporaneidade entre a infecção pelo organismo patogênico e o desenvolvimento da neoplasia, distribuição geográfica da infecção, além do cumprimento dos postulados biológicos indispensáveis à associação. Primeiramente, para que um agente etiológico seja relacionado ao desenvolvimento de um tumor, é necessário que a incidência da neoplasia seja maior em pessoas infectadas em comparação a individuos não infectados. Quanto à presença do marcador biológico, este deve ser anterior ao surgimento do tumor, uma vez que geralmente as infecções são crônicas. Ademais, é indispensável que a distribuição geográfica da infecção coincida com a da neoplasia primária. O cumprimento dos postulados biológicos também é de extrema importância nesta relação, uma vez que prova o papel do agente infeccioso no desenvolvimento do tumor. Portanto, a detecção do organismo ou seu material genético é causa necessária em todos os casos da doença, além da colocalização do agente infeccioso junto à lesão tumoral. O isolamento do agente a partir das lesões, fazendo-o crescer em placa (via inoculação em cultura) e por fim reproduzi-lo, a partir da cultura, em animal de experimentação inoculado, finaliza o processo de teste da associação entre o agente biológico e o câncer. Entretanto, o maior obstáculo na busca de associação das infecções por organismos biológicos como promotores tumorais reside na complexidade das neoplasias humanas, uma vez que os tumores sofrem influência multifatorial durante seu desenvolvimento, tornando a relação difícil de ser feita.
Schistosoma haematobium
Diversos estudos apontam associação entre a presença hiperendêmica dessa parasitose e a alta prevalência de carcinomas epidermoides de bexiga, sendo que este tipo de câncer é conhecido por estar associado aos tecidos com inflamação crônica. Apesar de esta parasitose ser mais recorrente na infância, os picos do câncer de células escamosas da bexiga em países africanos são observados na segunda década da vida, indicando um período de latência de 20 a 30 anos. O câncer de bexiga é o nono câncer mais comum no mundo, com 430 mil novos casos diagnosticados em 2012. Foi três vezes mais comum em homens comparado a mulheres, possivelmente devido à ocupação (agrícola, no caso desta helmitose). O S. haematobium é considerado causa principal do câncer de bexiga epidermoide pela IARC desde 1994, especialmente em países em desenvolvimento e não desenvolvidos. É importante ressaltar que o tipo de carcinoma de bexiga mais comum no mundo é o urotelial (câncer de células transicionais), correspondendo a 99% em países desenvolvidos e apenas a 50% na África. O carcinoma epidermoide de bexiga representa aproximadamente 31% dentre as neoplasias malignas em regiões endêmicas ao S. haematobium no Egito, sendo o tipo de câncer mais frequente em homens e o segundo tipo mais frequente em mulheres. Em países do Mediterrâneo oriental, como Iraque, Zâmbia, Malaui e Kuwait, o câncer de bexiga é o tipo mais prevalente de neoplasia maligna. A IARC considera que existam evidências biológicas e epidemiológicas suficientes para definir a infecção pelo S. haematobium como causa principal do câncer de bexiga. Estima-se que a infecção por S. haematobium aumente o risco para o desenvolvimento de câncer de bexiga em aproximadamente cinco vezes, sendo observado, na maior parte dos casos, em jovens, perfil este diferente do tipo urotelial que se dá numa população com idade avançada. Além disso, o S. haematobium foi observado em 85% das secções microscópicas de carcinomas de células escamosas, ligeiramente mais comum em pacientes com níveis moderados e elevados da infecção (58%); versus 10% de carcinoma de células transicionais, mais comum em pacientes com baixas taxas de infecção (56%). Além da associação aos diferentes tipos de cânceres de bexiga, uma série de estudos em andamento tem relacionado a infecção por S. haematobium a outros tipos de câncer. As lesões provocadas pela deposição dos ovos nos epitélios do trato genital e colo uterino foram as mais associadas, pois poderiam facilitar a inflamação crônica tecidual. Assim, a infecção por S. haematobium contribuiria indiretamente para o aumento do número de neoplasias genitais e do colo uterino associadas ao HPV. O câncer de próstata também apresenta certa associação, assim como o cistoadenocarcinoma de ovário, teratoma e tumores de Brenner, leiomiossarcoma uterino, câncer de mama masculino, carcinoma hepatocelular, linfoma, sarcoma de bexiga, tumor carcinoide retal, carcinoma de células renais. Tem-se sugerido que um modo de se gerenciar o câncer de bexiga associado à esquistossomose é prevenir e controlar a disseminação do S. haematobium. O tratamento com praziquantel também tem sido avaliado como forma de impedir a evolução de lesões inflamatórias urinárias e genitais advindas dessa helmitose. Entretanto, poucos estudos foram publicados sobre o assunto até o momento. Recentemente foi realizado o sequenciamento do genoma completo do S. haematobium trazendo esperanças quanto a uma maior compreensão desta patologia e das demais helmitoses relacionadas. Enquanto isso, vários estudos