A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
48 pág.
Bioética Animal e Meioambiental

Pré-visualização | Página 1 de 11

Unidade 2. Bioética 
Animal e Meioambiental 
 
Prof. Agustín Hernández López 
 
Bioética 
 
 
Bioética Animal e Meioambiental1 
Unidade 2 
 
Sumário 
Prefácio 
► 1. Bioética da Experimentação com Animais 
• 1.1 Uso de Animais 
• 1.1.1 Razões para o Uso de Animais 
• 1.1.2 Consideração por Animais 
• 1.1.3 Senciência 
• 1.2 Justificativas Éticas do Uso de Animais 
• 1.2.1 A Deontologia Kantiana e os Animais 
• 1.2.2 O Contrato Social como Justificativa 
• 1.3 Legislação e Diretivas 
• 1.3.1 Ética na Prática com Animais 
• 1.4 Modificação Genética de Animais 
• 1.5 Invertebrados: A Fronteira 
► 2. Bioética Não Animal e Meio Ambiental 
• 2.1 Desextinção de Espécies 
• 2.1.1 Razões e sofrimento na desextinção 
• 2.1.2. Em favor da desextinção 
• 2.2 Plantas Modificadas Geneticamente 
• 2.2.1 PMGs e Ética 
• 2.2.2 Debates sobre as PMGs 
• 2.3 Microrganismos, Genética e Biotecnologia 
• 2.4 Ética e Produção Agropecuária 
• 2.5 Ética e o Meio Ambiente 
• 2.5.1 Valores Humanos e Meio Ambiente 
• 2.5.2 Valores Não Humanos e Meio Ambiente 
• 2.5.3 Outras Visões Ecologistas 
• Bibliografia de consulta 
 
 
 
1 Agustín Hernández López. Professor Visitante Estrangeiro. Bioquímico. PhD pela U. Bristol (RU da GB). 
 
 
 
Prefácio2 
 
O aluno encontrará nas páginas seguintes um condensado das ideias e dos conceitos 
mais importantes relacionados à ética do uso de animais como sujeitos experimentais e à 
ética meio ambiental. Acredito que estas notas serão suficientes para dar uma ideia geral; 
porém, por sua brevidade, não será suficiente para entender em profundidade os temas 
aqui tratados. Por isso, é importante que o aluno leia caprichosamente as fontes que se 
enumeram na bibliografia, tanto as principais quanto as classificadas como complementares. 
Assim, este módulo tem como objetivo oferecer informações e orientações sobre a 
bioética atual, e o aluno deve ter em conta que este campo está em rápida e contínua 
evolução e, em alguns aspectos, está sujeito a interpretações pessoais. 
 
 
 
 
 
 
2 Prof. Agustín Hernández (agustin.hernandez@ufscar.br). Setembro 2019. 
mailto:agustin.hernandez@ufscar.br
 
 
►1. Bioética da Experimentação com Animais 
Figura 1. Belka (branquinha/esquilo) e Strelka (setinha) formaram parte da tripulação experimental a bordo do 
Vostok-1 (1958) e estão entre os primeiros seres vivos enviados ao espaço que voltaram com vida. 
 
Fonte: Russian Post, Publishing and Trade Centre "Marka" (ИТЦ «Марка»). The design of the stamp by O. 
Yakovleva. / Public domain 
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/03/Belka_%26_Strelka_50_Years_Flight_Stump.jpg 
 
 
 
 
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/03/Belka_%26_Strelka_50_Years_Flight_Stump.jpg
 
 
1.1 Uso de Animais 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O uso de animais para benefício dos humanos é tão antigo que não temos certeza de 
quando aconteceu na pré-história nem qual foi o primeiro. As teorias mais aceitas 
atualmente propõem o cão como nosso primeiro companheiro já no pleistoceno, uns 30 mil 
anos atrás. Depois viriam as cabras, as ovelhas, as galinhas e o gado bovino. A maioria desses 
animais foi criada para, no tempo certo, ser abatida e usada como fonte de carne ou, em 
geral, de produtos úteisi. Em outras palavras, desde antes dos inícios da civilização, criamos, 
usamos e matamos animais. 
O uso de animais para obter conhecimento é também bem antigo. Os gregos 
utilizaram animais para compreender como funcionam os órgãos e sistemas fisiológicos. 
Durante os séculos seguintes, os experimentos com animais, mesmo que não tenham sido 
especialmente usuais, continuaram com os romanos e árabes. Porém, junto ao advento do 
renascimento, as vivissecções com o intuito de expandir os conhecimentos biomédicos 
tornaram-se muito mais frequentes e ainda foram cada vez mais praticadas durante os 
séculos seguintes até se tornarem uma prática habitual nos ensinos de medicina. Deve-se ter 
em conta que a Igreja Católica não permitia a dissecação de cadáveres humanosii,iii. 
No momento presente podemos afirmar que, embora as quantidades exatas sejam 
desconhecidas, estamos usando mais animais em pesquisa que em qualquer momento no 
passado. Contudo, anualmente, a proporção de animais utilizados em pesquisa é apenas de 
0,2% de todos os animais sacrificados pelos humanos. Por outro lado, a utilização de animais 
em experimentação resulta em uma preocupação bem maior que a criação e o abatimento 
para comida. Uma das razões disso está no sofrimento infligido que associamos à prática 
científica. Isso não é novo; já nos séculos XVIII e XIX espantava a vivissecção sem anestesia 
de animais nos teatros médicosiv, v. 
Professor Coelho: “Agora sem frescura! O 
princípio da ciência livre demanda que eu faça a 
vivissecção deste humano pela saúde do mundo 
animal todo”. 
“Die Vivisektion des Menschen”. Litografia 
colorida publicada em Lustige Blatter. Berlim, c. 
1910. 
Texto e imagem: 
Wellcome Collection, Creative Commons 
https://wellcomecollection.org/works/xm8wtp
m4. 
Attribution 4.0 International (CC BY 4.0) 
Figura 2 – Human vivisection. Wellcome Collection. 
https://wellcomecollection.org/works/xm8wtpm4
https://wellcomecollection.org/works/xm8wtpm4
 
 
1.1.1 Razões para o Uso de Animais 
 
 
 
 
 
 
 
 
Na atualidade, existem ainda grupos que se chamam de “antivivissecção”, embora 
essa prática esteja praticamente abandonada. A utilização de animais para uso alimentar e 
industrial é bem conhecida por todos. Porém, quais são os usos dos animais em pesquisa 
hoje? Se assumirmos o Reino Unido como um indicador do que acontece em outros países, 
35% dos animais em experimentação são utilizados em pesquisas básicas que podem ou não 
envolver modificações genéticas, 21% são utilizados em testes de drogas e procedimentos 
médicos ou veterinários, apenas 1% é utilizado em diagnóstico e os 43% restantes são 
animais que são mantidos em programas de criação para manter as colônias de mutantes ou 
as cepas determinadas. Na maioria dos casos (77,5%) os animais escolhidos são roedores, 
apenas 2% são primatas, gatos, cães, porcos ou outros mamíferos, e os 20,5% restantes 
seriam animais não mamíferos (anfíbios, aves, répteis e peixes, principalmente); porém, esta 
última porcentagem muito provavelmente não tem em conta animais inferiores, como 
Caenorhabditis elegans. A utilização realizada em universidades e centros públicos de 
pesquisa é majoritariamente relacionada à pesquisa básica, enquanto que em empresas 
farmacêuticas e CROs (Contract Research Organisations) se usam para teste de efetividade 
de drogas e toxicidade, respectivamente. Outros lugares onde fazem uso amplo de animais 
são os hospitais (novamente com relação à pesquisa) e laboratórios governamentais 
(toxicologia)vi. 
A outra questão é por que são usados os animais. Entre as razões estão o fato de não 
podemos fazer experimentos com humanos e o de que os animais são um bom modelo para 
entender a fisiologia animal, em geral, e a humana, em particular. Assim, acredita-se que a 
maioria dos grandes avanços na medicina nos últimos séculos vem de experimentos 
realizados em animais. Argumenta-se também que não existem alternativas neste momento 
que ofereçam um nível similar de confiabilidade, e, por outro lado, deixar de utilizar animais 
induziria a estagnação da ciência e um prejuízo sobre a saúde das gerações futurasvii. 
People for the Ethical Treatment of Animals (PETA) 
é uma organização criada em 1980 que promove “a 
total liberação dos animais“ e o veganismo. 
Em opinião da PETA: “Os animais não são nossos 
para experimentar, comer, vestir, serem usados 
para nos entreter ou abusados de qualquer jeito”. 
Sua posição frente à experimentação com animais 
é de rejeição total. Argumentam que os testes com 
animais não são nem necessários nem úteis e que 
existem alternativas válidas para todos os

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.