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Bioética Animal e Meioambiental

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procedimentos realizados em pesquisa. 
https://www.peta.org/ 
 
Figura 3 – Logotipo da People for the 
Ethical Treatment of Animals. 
Fonte: https://www.peta.org/ 
https://www.peta.org/
https://www.peta.org/
 
 
1.1.2 Consideração por Animais 
 
 
 
 
 
 
 
 
Os animais não possuem a capacidade de comunicação de conceitos complexos (pelo 
menos não com os humanos!), o que, junto à incapacidade de nossa parte de entender os 
processos cerebrais/mentais deles e a uma etologia diferente, fazem com que nós, os 
humanos, consideremos que os animais não possuem inteligência e que possuem um nível 
de senciência bem menor que o nosso. Por outro lado, de forma um tanto contraditória, 
colocamos neles sentimentos, capacidades e intencionalidades plenamente humanas, como 
acontece com nossos animais de estimação: consideramos que cães e gatos, principalmente, 
mas também cavalos e até alguns répteis, nos amam, comunicam seus desejos e até, em 
ocasiões, desaprovam nossas ações. Essa “humanidade” nos animais correlaciona-se à 
similaridade física com os humanos (os primatas são os mais “humanos”), ao contato e ao 
nível de domesticação (cães mais do que os lobos), ao tamanho (equídeos mais do que 
roedores), entre outras variáveis mais ou menos subjetivasviii, ix. 
A percepção da animalidade tem mudado bastante na história. Se considerarmos as religiões 
como fontes indiciárias corretas para o passado (de qualquer modo, são pontos de partida 
para as percepções atuais), tanto a Bíblia quanto o Alcorão colocam o ser humano como 
dono e senhor da criação e com direito absoluto à utilização de seus recursos, incluindo os 
animais, para seu próprio benefício. As culturas orientais, ainda que possuam uma maior 
tendência para a compaixão com animais, não consideram tradicionalmente que os animais 
sejam mais do que o equivalente a uma ferramenta ou alimento para os humanos. 
Descartes, como exemplo no século XVII, considerava que os animais não tinham capacidade 
de sentir (senciência). Essa visão foi se modificando, paralelamente a outras mudanças sobre 
a percepção humana que já mencionamos muito brevemente na unidade anterior, durante 
os séculos XVIII, XIX e XX. Assim, já em 1791, John Lawrence, na Inglaterra, solicitou o 
reconhecimento de direitos para os animais (neste caso, os cavalos). Contudo, o 
desenvolvimento de uma sensibilidade para com os animais realmente tomou força na 
segunda metade do século XXx. 
Arthur Schopenhauer, máximo representante do pessimismo filosófico, é 
uma grande influência no pensamento atual. Ele via os animais como 
frutos da mesma “vontade” ou força que os humanos. 
 
“[B]ecause suffering increases along with the increase in the 
clarity of consciousness, the pain that animals suffer in death or 
work is not as great as that which humans suffer by doing without 
meat or animal power. This is why people can affirm their 
existence to the point of negating the existence of an animal, and 
the will to live as a whole suffers less than if we acted the other 
way around. This also determines the extent to which people can 
make use of animals without doing wrong (WWR 1:440n)”. 
Puryear, S. (2017) Schopenhauer on the Rights of Animals. Eur. J. 
Philosophy 25:250. 
Figura 4 – Arthur Schopenhauer em 
1859. Fotografado por J. Schäfer 
Fonte: Domínio Público. 
https://commons.wikimedia.org/
wiki/File:Arthur_Schopenhauer_b
y_J_Sch%C3%A4fer,_1859b.jpg 
 
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Arthur_Schopenhauer_by_J_Sch%C3%A4fer,_1859b.jpg
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Arthur_Schopenhauer_by_J_Sch%C3%A4fer,_1859b.jpg
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Arthur_Schopenhauer_by_J_Sch%C3%A4fer,_1859b.jpg
 
 
1.1.3 Senciência 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Na atualidade, não consideramos que os animais sejam simples robôs que, de forma 
automática, respondem aos estímulos. Achamos que muitos deles têm capacidades, como o 
aprendizado, o uso de ferramentas e a comunicação, as quais, embora não cheguem aos 
níveis das que os humanos possuem, são substantivas. Contudo, também não consideramos 
que todos os animais sejam iguais. Acreditamos, por exemplo, que os insetos são realmente 
quase pequenos robôs, incapazes de sentir ou de racionalizar. Julgamos que isto está 
relacionado ao fato de que o sistema nervoso desses animais é constituído por gânglios 
simples interconectados formando uma linha ventral. Outros animais possuem sistemas 
nervosos que variam em complexidade. É a complexidade no sistema nervoso que usamos 
para supor as capacidades cerebrais/mentais de cada espécie. Nesse sentido, a senciência 
define-se como a capacidade de um ser vivo de sentir e experimentar sensações subjetivas, 
como medo, dor, angústia, alegria, entre outras. Apenas os animais sencientes poderiam 
sofrer, e o grau de sofrimento dependeria do grau de senciência da espécie. O sofrimento 
deve ser entendido como dor, mas também como ansiedade, pânico ou inquietação, por 
exemplo. Dessa maneira, consideramos que os roedores ou as aves, com cérebros 
relativamente mais simples, são menos sencientes que os golfinhos ou os cães. Essa 
aproximação, por outro lado, pode ser imperfeita, já que a complexidade nos sistemas 
nervosos apenas é comparável entre espécies relacionadas. Assim, considera-se que o polvo, 
capaz de mostrar medo e aprender, possui um cérebro simples, em parte por falta de 
homologia com os cérebros de vertebradosxi,xii,xiii. 
É importante dizer aqui que o valor moral que atualmente damos aos animais 
correlaciona-se ao seu presumível grau de senciência, de modo que consideramos mais 
valioso um gato que uma rãxiv. 
O problema de conhecer como outro ser vivo experimenta 
sensações subjetivas é imenso. Um exemplo ilustrativo é a 
dor. No hospital pediátrico onde trabalhavam em 
Oklahoma (EUA), a Dra. D. Wong e a enfermeira C. M. 
Baker idealizaram um método para que as crianças na 
unidade de queimados pudessem explicar o nível da dor 
que sentiam e poder medicá-los corretamente. Fizeram 
para isso uma escala com carinhas para as quais a criança 
apontava. O sistema foi um sucesso e agora é utilizado 
amplamente no mundo todo. 
 
História da classificação da dor com carinhas e imagem: 
https://wongbakerfaces.org/us/wong-baker-faces-history/ 
Figura 5 – Um esboço feito por C. M. 
Baker na beira da cama de uma criança. 
Fonte: 
https://wongbakerfaces.org/us/wong-
baker-faces-history/ 
https://wongbakerfaces.org/us/wong-baker-faces-history/
https://wongbakerfaces.org/us/wong-baker-faces-history/
https://wongbakerfaces.org/us/wong-baker-faces-history/
 
 
1.2 Justificativas Éticas do Uso de Animais 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Do ponto de vista da ética, a experimentação com animais não precisa se justificar se 
os animais não possuem valor moral. Isto era a situação no passado, quando se considerava 
que os animais eram autômatos que estavam na terra apenas para nos servir. Na atualidade, 
no entanto, julgamos que os animais têm algum valor moral, mesmo que menor que o dos 
humanos. Em outras palavras, a vida de um animal tem valor per se. É por isso que existem 
várias formas para justificar o uso de animais em experimentação que formam o substrato 
moral, mais ou menos consciente, de todos os pesquisadores. Estas se acham presentes 
também nas diferentes instâncias em que existe debate ou nas quais precisamos expressar 
essa justificativa, como é o caso das leis ou das diretrizes das comissões de ética de nossas 
instituições de pesquisaxv. 
De todas as escolas de pensamento, provavelmente, o utilitarismo é invocado com 
mais frequência. Segundo o utilitarismo, existem coisas, estados e situações que podemos 
considerar bons ou desejáveis; outros, pelo contrário, seriam ruins ou indesejáveis. As ações 
corretas são aquelas que produzem, no balanço, mais bem que mal. Assim, considera-se que 
a experimentação com animais produz mais benfazeres (por exemplo,

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