A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
48 pág.
Bioética Animal e Meioambiental

Pré-visualização | Página 3 de 11

avanços em terapias 
que ajudam humanos) que o prejuízo causado pelo sofrimento e sacrifício dos animais. 
Deve-se ter em conta que este razoamento depende do valor que damos à vida dos animais 
e ao benefício humano e de quanto benefício e prejuízo causamos. Assim, pode estar 
justificado um experimento para testar uma vacina contra o ebola utilizando 25 
camundongos, mas poderia não ser justificável utilizar mil primatas para testar o possível 
“Peter Singer: Speciesism is an attitude of bias against a 
being because of the species to which it belongs. 
Typically, humans show speciesism when they give less 
weight to the interests of nonhuman animals than they 
give to the similar interests of human beings.” 
Peter Singer: On Racism, Animal Rights and Human 
Rights 
By George Yancy and Peter Singer. New York Times, May 
27, 2015. 
https://opinionator.blogs.nytimes.com/2015/05/27/peter-singer-
on-speciesism-and-racism/ 
 
O especiesismo é uma forma de discriminação, similar ao 
racismo ou sexismo, que filósofos defensores dos direitos 
dos animais acreditam que nós, humanos, praticamos 
contra outras espécies animais. 
Figura 6 – Peter Singer 
Fonte: 
https://www.utilitarianism.com/pe
ter-singer.html 
https://opinionator.blogs.nytimes.com/2015/05/27/peter-singer-on-speciesism-and-racism/
https://opinionator.blogs.nytimes.com/2015/05/27/peter-singer-on-speciesism-and-racism/
https://www.utilitarianism.com/peter-singer.html
https://www.utilitarianism.com/peter-singer.html
 
 
caráter irritante de um composto de um sabonete. Além disso, em caso de existirem duas 
alternativas experimentais, só estaria justificada aquela que causasse o menor prejuízo. 
Finalmente, a justificação do experimento não abrange o abusoxvi. 
 
 
 
1.2.1 A Deontologia Kantiana e os Animais 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Como é claro, no utilitarismo não entra o conceito de “direito”; apenas fizemos uma 
avaliação de benefícios contra prejuízos. Isso implica que, se os benefícios fossem maiores 
que os prejuízos, a experimentação sobre humanos estaria igualmente justificada, 
independentemente de seu consentimento. A deontologia, iniciada por Immanuel Kant no 
século XVIII, faz uma aproximação diferente: os animais são pacientes morais. Isto é, eles 
têm direitos, sim, mas não todos, porque não são moralmente responsáveis, como os 
humanos comuns são. Desse modo, pode-se entender que os direitos dos animais são 
menores, mais restritos, que os dos humanos comuns; igualmente, aqueles humanos que 
consideramos incapazes de decidir por si mesmos são também pacientes morais. Essa 
diferença em direitos faz com que esteja justificado o uso de animais em experimentação. 
Além disso, segundo essa escola de pensamento, a linha divisória entre os animais com 
direitos e aqueles sem, seria a senciência. Animais não sencientes não teriam significância 
moral e, portanto, não possuem direitosxvii,xviii. Porém, é muito difícil saber o que pode sentir 
um animal, de forma que outros pensadores colocam a fronteira que os divide nos 
vertebrados, achando que outros animais não são capazes de aprendizado e senciência. 
Contudo, como falamos antes, há o caso dos polvos...xix,xx,xxi. 
Por outro lado, fica a pergunta de quantos direitos a menos são precisos para que o 
uso de um ser vivo em experimentação esteja justificado? Os humanos que não são 
responsáveis morais (crianças, doentes mentais etc.) podem ser usados em 
experimentação? Como os direitos são conferidos aos diferentes animais?xxii,xxiii. 
“The moral status of different beings 
[…] Within the current debate, we can identify three general 
positions, as follows. 
• [T]here is a categorical moral dividing line between humans 
and animals. Human beings have a moral importance that 
animals lack. This we can call the clear-line view 
• [T]here is not so much a clear dividing line as a continuum or 
moral sliding scale, correlated, perhaps, with a biological 
sliding scale of neurological complexity 
• [B]iological classification is not by itself sufficient to support 
claims about a categorical moral distinction between human 
and non-human animals.” 
Texto e imagem disponível em: 
https://www.nuffieldbioethics.org/assets/pdfs/The-ethics-of-
research-involving-animals-full-report.pdf 
Trecho retirado de: The Ethics of 
Research Involving Animals. The 
Nuffield Council on Bioethics. 
2005. Chapter 3 – Ethical issues 
raised by animal research. 
Figura 7 – The Nuffield Council 
of Bioethics é uma referência 
mundial em ética do uso dos 
animais em experimentação 
 
 
1.2.2 O Contrato Social como Justificativa 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A escola do contrato social estabelece, nas palavras de James Rachelxxiv, que “a 
moralidade consiste num conjunto de regras para governar como as pessoas devem tratar 
outras pessoas, as quais as pessoas racionais concordam em aceitar para o benefício mútuo 
e com a condição de que os outros seguirão essas mesmas regras”. Os animais não podem 
concordar com essas regras e, portanto, são deixados de fora da moral e da capacidade de 
serem credores de direitos. Por outro lado, dentro das regras que nós, humanos, damos 
para nós mesmos, estabelecemos que alguns animais têm alguns direitos. Esse contrato 
social atual é que estabelece que está justificado usar animais em experimentação. Nesse 
sentido pode ser muito útil saber qual a opinião da população sobre esse ponto, já que as 
regras que nos damos dependem de nossas opiniões. Em pesquisas feitas no Reino Unido, 
país considerado pró-animais, a proporção favorável ao uso oscilava entre 55% e 60%. 
Porém, deve-se ter em conta que a maneira com que são feitas as perguntas influencia 
grandemente o resultado. Assim, quando na pergunta era incluída uma referência à 
medicina, a porcentagem de respostas favoráveis aumentava claramente, enquanto que, se 
a referência era ao sofrimento animal, a porcentagem caía. Por tudo isso, deve-se ter em 
mente que a justificação pode mudar em pouco tempo, sem a necessidade de aparição de 
novas escolas de pensamentoxxv,xxvi. 
 
“If the government were to suddenly decide to 
remove everyone’s pet dogs from their homes, 
there would be a societal outcry that would 
likely be accompanied by violence [...] 
So, if contractualists are concerned with 
preventing societal chaos, why should dogs 
not have full moral standing under their 
system?” 
Swanson, Jennifer (2011) “Contractualism and the 
Moral Status of Animals”, Between the Species 14(1), 
Article 1. 
Between the Species is a peer-reviewed 
electronic journal devoted to the 
philosophical examination of the 
relationship between human beings and 
other animals. 
 
Figura 8 – Logo da revista de filosofía 
Between the Species 
Fonte: 
https://digitalcommons.calpoly.edu/bts/ 
 
https://digitalcommons.calpoly.edu/bts/
 
 
1.3 Legislação e Diretivas 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A preocupação pelo bem-estar animal tem-se traduzido em leis nos diferentes países. 
Porém, nem todos iniciaram esse caminho ao mesmo tempo. Assim, na Inglaterra, a Cruelty 
to Animals Act foi proclamada em 1876 e incluía que os animais utilizados em 
experimentação científica deveriam ser anestesiados, se envolvesse sofrimento ou feridas 
deveriam ser abatidos ao final dos experimentos e, mais importante, que só deviam ser 
utilizados animais se houvesse uma necessidade real de conhecimento. Por outro lado, os 
EUA decretaram sua primeira lei em 1966 (Animal Wellfare Act). No Brasil, somente em 2008 
foi promulgada a chamada Lei Arouca. Contudo, ainda há países, como China, que apenas 
possuem orientações mais ou menos oficiais, mas não legislaçãoxxvii. 
A lei no 11794/2008 estabelece normativas para o uso de vertebrados em 
experimentação científica no Brasil3. Da aplicação desta lei, criaram-se o Concea (Conselho 
Nacional de Controle da Experimentação Animal), órgão máximo nas questões de

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.