A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
48 pág.
Bioética Animal e Meioambiental

Pré-visualização | Página 6 de 11

animaisxl: 
• A transferência nuclear a partir de uma célula somática armazenada para um gameta 
feminino enucleado de uma espécie similar e utilização de uma mãe substituta. 
Porém, o clone será só quase geneticamente idêntico aos membros da espécie 
extinta: as mitocôndrias possuem DNA cuja origem está no gameta enucleado. 
• A fecundação de um gameta (geralmente feminino) de uma espécie afim com 
gametas conservados da espécie a ser “ressuscitada”. Nesse caso, os indivíduos serão 
híbridos que deveriam ser retrocruzados para conseguir a homogeneidade genética. 
Ambas as técnicas podem gerar críticas sobre se realmente estamos desextinguindo 
espécies ou criando novas, dependendo de quais sejam os critérios para aceitar que um 
indivíduo pertence a uma espéciexli. 
Do ponto de vista da ética, as primeiras preocupações que se sobressaem são as 
razões reais pelas quais queremos realizar a desextinção. Sem dúvida, é bacana, traz fama, e 
talvez seja até economicamente interessante para um grupo de pesquisa conseguir trazer de 
volta uma espécie extinta. Por outro lado, desextinguir uma espécie pode ser uma forma de 
consolar nossa consciência da responsabilidade de ter causado a extinção desta ou de outras 
espécies. Nenhum deles é um argumento éticoxlii. 
Voltando às técnicas, a imperfeição destas faz com que muitos dos indivíduos 
clonados apresentem problemas sérios de malformações, infertilidade e até problemas 
imunitários. Por isso, desde o utilitarianismo, somente é aceitável a desextinção se esta traz 
The de-extinction process via precise 
hybridization. The sequential stages begin with 
in silico and end in situ, shown on the outside 
circle. The inner circle shows the 
compartmentalized and overlapping supporting 
research for the de-extinction process, with 
arrows showing exchange of resources (dark 
purple are physical resources, light purple are 
knowledge resources). 
 
Novak, B. J. De-Extinction. Genes (Basel). 2018. 9(11):548. 
Disponível em: 
https://www.mdpi.com/2073-4425/9/11/548/htm 
O processo de desextinção envolve muito 
mais do que a simples clonagem. Pode 
envolver até a reconstrução do ecossistema 
original. 
Figura 15 – Procesos de desextinção via 
hibridação precisa 
Fonte: Figura 2 de Novak, B. J.. Genes 
(Basel). 2018. 9(11):548 
 
 
https://www.mdpi.com/2073-4425/9/11/548/htm
 
 
consigo um maior benefício que o prejuízo causado com o sofrimento animal. Do ponto de 
vista dos direitos dos animais, matar um animal (ou embriões) para trazer outro diferente à 
vida não é aceitávelxliii. 
 
 
 
 
2.1.2. Em favor da desextinção 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O argumento maior em favor da desextinção também vem do utilitarismo. A 
reintrodução de uma espécie num ecossistema estará justificada se isso significar uma 
melhora na “saúde do ecossistema”. Por exemplo, a extinção de um predador pode trazer 
consigo o incremento no número de suas presas herbívoras que, por sua parte, modificam o 
ecossistema, colocando em perigo de extinção algumas das espécies de plantas ou, em geral, 
reduzindo a diversidade. Nesse caso, a reintrodução do predador traria de volta o equilíbrio 
entre espécies e um incremento na diversidade, que pode ser entendido como um aumento 
na saúde do ecossistema. Ou seja, depois de uma análise cuidadosa, em alguns casos, pode 
estar justificada a desextinção do ponto de vista da éticaxliv. 
Outro argumento é que a desextinção pode oferecer animais que possam ser 
utilizados para obter conhecimentos fisiológicos, anatômicos ou de outro tipo que não 
podem ser obtidos de outra forma. Porém, como foi adiantado anteriormente, os animais e 
plantas desextintos podem não ser idênticos aos originais. Relacionado a isso, se os animais 
não são idênticos, vale a pena gerá-los? Um quadro pintado por Rembrandt tem o mesmo 
valor que uma cópia deste, caso o original fosse perdido num incêndio?xlv. 
Por outro lado, argumenta-se que, se a extinção não é irreversível, nossa 
preocupação pelo cuidado do meio ambiente se tornaria bem menor. Mas se o resultado são 
ecossistemas íntegros e saudáveis, vale a pena se preocupar por isso?xlvi. 
Em linhas gerais, há mais perguntas que respostas, mas a tendência geral na sociedade é 
para a justificação. 
“De-extinction via breeding has been widely 
presented by many authors as a novel 
conservation endeavour wholly separate from 
historic conservation trends […] 
Aside from the well-known case of wolves in 
Yellowstone National Park, reintroductions via 
translocation in the United States include: 
beaver, bighorn sheep in badlands habitats, elk 
in eastern states and bald eagles and wild turkey 
in New England. Wild turkeys, which are 
abundantly common now in New England, had 
gone extinct in the region by the 1840s and were 
absent until successful reintroductions in the 
1970s” 
Novak, B. J. De-Extinction. Genes (Basel). 2018. 9(11):548. 
O castor foi reintroduzido nas Badlands 
(ND, EUA) por iniciativa daquele que seria 
depois o presidente T. Roosevelt. 
Figura 16 – Castor (autor desconhecido) 
Fonte: 
https://www.chelseagreen.com
/2018/badlands-without-
beavers/ 
https://www.chelseagreen.com/2018/badlands-without-beavers/
https://www.chelseagreen.com/2018/badlands-without-beavers/
https://www.chelseagreen.com/2018/badlands-without-beavers/
 
 
2.2 Plantas Modificadas Geneticamente 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
As plantas modificadas geneticamente (PMG) apresentam algumas diferenças 
notáveis com respeito ao já visto anteriormente e estas diferenças possuem uma grande 
importância. Em primeiro lugar, as plantas não são consideradas sencientes por carecerem 
de sistema nervoso e, consequentemente, não são consideradas credoras de direitos nem 
possuem valor moral, contrariamente ao caso dos animais vertebrados. Contudo, um pouco 
incongruentemente, considera-se errado maltratar as plantasxlvii. Por outro lado, as PGM são 
majoritariamente dirigidas direta ou indiretamente para o consumo alimentar humano. Este 
último fato é o causador de as PMG estarem no “olho do furacão” da controvérsia sobre os 
seres vivos modificados geneticamente. 
A percepção sobre as PGM não é similar em todos os países. Assim, nos EUA apenas 
2% da população considera as PMG uma preocupação, enquanto na Europa a porcentagem 
se eleva até quase 60%xlviii,xlix. A controvérsia gira ao redor de vários itens que podem ser 
resumidos eml,li: 
• A virtude da modificação genética de seres vivos e seu cultivo. Ou seja, é correto 
modificar o genoma dos seres vivos? Este é um debate similar em muitos aspectos ao 
já visto com animais. 
• Os direitos intelectuais e a patenteabilidade de seres vivos. Podemos considerar os 
seres vivos como instrumentos nossos? Invenções humanas? 
• Os direitos de agricultores, corporações e consumidores: etiquetagem, segurança 
alimentar, interesse geral, lucro. 
• A segurança meio ambiental dos cultivos de PMG: existe perigo em modificar as 
espécies selvagens de plantas com o pólen das PMG? Podem afetar de alguma outra 
forma? 
“A wide gap exists between the rapid 
acceptance of genetically modified (GM) crops 
for cultivation by farmers in many countries and 
in the global markets for food and feed, and the 
often-limited acceptance by consumers […] 
Recent political and societal developments show 
a hardening of the negative environment for 
agricultural biotechnology in Europe, a growing 
discussion – including calls for labeling of GM 
food – in the USA, and a careful development in 
China towards a possible authorization of GM 
rice that takes the societal discussions into 
account” 
Lucht, J. M. (2015) Public Acceptance of Plant 
Biotechnology and GM Crops. Viruses, 7: 4254-4281. 
Disponível em: 
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26264020/ 
A percepção social contra os transgênicos 
às vezes é explorada comercialmente sem 
pudor. 
Figura 18 – Água não transgênica – de 
Amanda

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.