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Bioética Animal e Meioambiental

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houve um grande 
debate sobre microrganismos e sobre como podiam ser modificados geneticamente. Isso 
trouxe consigo uma parada voluntária temporária na pesquisa dessas técnicas e, 
consequentemente, da modificação de microrganismos, que durou apenas dois anos. Desde 
essas datas, a maior parte das dúvidas sobre a ética sobre a manipulação de microrganismos 
tem sido dissipada, e, na atualidade, apenas aquelas modificações que atingem ou têm 
como fim o mercado alimentar são recebidas com receio. Por outro lado, as inúmeras 
instâncias de modificação genética no campo biomédico (por exemplo, a produção de 
insulina recombinante ou anticorpos antitumorais) são recebidas com entusiasmo pela 
sociedade. Na atualidade, as maiores controvérsias têm a ver com segurança. Nesse sentido, 
os maiores receios giram em torno da resistência aos antibióticos (transmissão horizontal de 
genes de resistência), da toxicidade humana, de possíveis reações alérgicas ou da criação de 
cepas patogênicas novas ou mais virulentas (neste caso, às vezes associado ao possível uso 
como armas biológicas)lvi. 
A respeito da liberação de microrganismos modificados no meio ambiente, 
contrariamente ao panorama em plantas, é considerada uma opção válida para o caso de 
melhoras ambientais (por exemplo, despoluição) ou controle de pragas, entre outros. A 
oposição social, ainda que existente, é fraca e baseia seus argumentos nos mesmos 
princípios do caso de animais e plantaslvii,lviii. 
Em resumo, a partir de um ponto de vista ético, os pontos mais controversos sãolix: 
40 Years Ago, GMO Insulin Was Controversial Also 
“It may seem like olden days to millennials, but the late 1970s were a lot like today. America was 
divided due to an unpopular President, gas was expensive, the movie industry was at death's door 
... and genetic engineering was a big concern. […] 
Though GMO insulin today is regarded as a gigantic success story for public health, in 1977, the year 
before the American Council on Science and Health was founded, the same political forces and 
activists aligned against science now were already against it then. Just the names have changed. […] 
Scientists persevered, voluntarily making sure everything was done safely before Kennedy and the 
Carter administration could find a legal way to shut them down. They came to a consensus on using 
specific bacteria (e-coli strain K12) genetically engineered so that even if they somehow got to the 
outside world, they would die quickly and have no chance to colonize the human digestive tract.” 
 
Hank Campbell July 29, 2017 
https://www.acsh.org/news/2017/08/29/40-years-ago-gmo-insulin-was-controversial-also-11757. 
https://www.acsh.org/news/2017/08/29/40-years-ago-gmo-insulin-was-controversial-also-11757
 
 
• Possibilidade de efeitos sobre os humanos ou o meio ambiente se espalharem, 
como dito acima. A maior preocupação está associada ao fato de que, uma vez 
liberado o microrganismo, não possuímos mais controle sobre ele. 
• Controvérsia sobre os direitos intelectuais e o patenteamento de organismos vivos, 
como no caso de plantas. 
• Direitos do consumidor (etiquetagem de alimentos nos quais pode haver uso de 
organismos modificados geneticamente, como no caso de laticínios fermentados) e 
segurança alimentar. 
• Criação e uso de armas biológicas por parte de governos e grupos terroristas. 
 
 
 
2.4 Ética e Produção Agropecuária 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O santo graal da ética da produção agropecuária é contestar a pergunta: O que é 
comida boa (virtuosa)? Pensando a partir do academicismo, utilizando aproximações 
utilitaristas, mediríamos os benefícios e os prejuízos das opções e tomaríamos uma decisão 
sobre qual é a forma mais ética de atuar; se utilizarmos uma aproximação deontológica, 
como Tom Regan, chegaríamos à conclusão de que seria aquela agricultura que melhor 
respeita os direitos dos animais. Porém, existem mais duas aproximações para esse 
problema, que tentam dar visões mais bem adaptadas ao contexto agropecuário. A visão 
orientada ao valor cria uma agricultura ideal baseada em valores corretos e, a partir daí, 
julga a agricultura real. Por outro lado, a visão do pluralismo democrático avalia as práticas 
atuais e tenta obter padrões de excelência aos quais se deve chegarlx. 
Em qualquer caso, essas aproximações são utilizadas para avaliar os diferentes 
debates que atualmente temos relacionados à produção agropecuárialxi: 
• Os países “ricos” têm a obrigação de ajudar aqueles que não possuem comida 
suficiente? Essa ajuda é efetiva? Que fazemos com os excedentes agropecuários? 
• Qual deve ser nossa posição frente à má nutrição tanto estrangeira (exemplo: 
avitaminoses em áreas pobres) quanto própria (exemplo: obesidade)? 
“The Nations accepting this Constitution, being 
determined to promote the common welfare by 
furthering separate and collective action on their part for 
the purpose of: 
• raising levels of nutrition and standards of living of the 
peoples under their respective jurisdictions; 
• securing improvements in the efficiency of the 
production and distribution of all food and agricultural 
products; 
• bettering the condition of rural populations; 
• and thus contributing towards an expanding world 
economy and ensuring humanity's freedom from 
hunger”. 
 
Preâmbulo da Constituição da FAO (Food and Agriculture Organization 
of the United Nations. 
Textos básicos da FAO: http://www.fao.org/3/K8024E/K8024E.pdf. 
 
Figura 21 – Logotipo da Organização 
das Nações Unidas para 
Alimentação e Agricultura. 
Fonte: 
https://www.wucwo.org/index.php/
en/activities/international-
updates/fao 
http://www.fao.org/3/K8024E/K8024E.pdf
 
 
• Como devemos encarar o impacto meio ambiental produzido pela agricultura? Como 
agir frente à mudança climática? Que significa sustentabilidade? 
• Como agir na produção pecuária de forma correta com relação aos direitos dos 
animais, tendo em conta os diferentes pontos que isto envolve: transporte, 
abatimento e condições de criação de gado, entre outras? 
• Que posição é mais correta frente às mudanças econômicas e de modos de produção 
industrializado? Devemos ter em conta aqui as consequências econômicas da 
tendência aos grandes monopólios, a redução da agrobiodiversidade e as condições 
de vida dos agricultores. 
Esses debates estão abertos, e não apareceram, ainda, diretrizes claras de consenso. 
Isto, entre outras razões, porque as respostas para umas perguntas criam conflitos com as 
respostas para outras. 
 
 
 
 
2.5 Ética e o Meio Ambiente 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Em linhas gerais, a ética meio ambiental segue as mesmas linhas de pensamento que 
outros ramos da bioética. Isso não é surpreendente se temos em conta que existe uma 
grande transferência de ideias e conceitos entre o pensamento sobre direitos dos animais e 
a ética do meio ambiente. Assim, existem três escolas de pensamento que são as 
majoritárias na hora de conceituar o que é bom e que ações são corretas com relação ao 
meio ambientelxii: 
• Consequencialismo (do qual o utilitarismo é o ramo principal): estão certas ou 
justificadas aquelas ações que maximizam o benefício. Em alguns casos, o benefício 
último é considerado como o florescimento da vida. 
• Deontologia e direitos dos animais: a justiça deve dirigir as ações, e não o benefício. 
Dessa forma, mesmo que produza um menor benefício, devem-se seguir os princípios 
morais (o que é bom) e evitar qualquer atuação que signifique uma ação injusta. Por 
exemplo, a morte sem razão e a extinção de animais seria injusto por ir contra seus 
direitos. 
• Ética da virtude: essa escola está ganhando uma maior importância nos últimos 
anos, embora não seja majoritária. Segundo ela, nossas ações devem maximizar a 
virtude (não o benefício). Assim, nossas ações estarão justificadas se trouxerem 
consigo valores como

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