A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
210 pág.
FALO, OU NÃO FALO, Expressando sentimentos e comunicando idéias - Fátima Cristina de Souza & Conte Maria ZiJah da Silva Brandão (Editoras) 2007 (2) pdf

Pré-visualização | Página 13 de 50

quando estou cuidando de mim, da minha vida, fazendo as minhas escolhas, se o 
outro me desaprova, ele tem um problem a e, assim, cabe a ele resolvê-lo.
É claro que se se tratar de uma pessoa que eu amo, que é importante para 
mim, eu posso tentar de mil maneiras diferentes explicar para aquela pessoa a 
situação, tentar ajudá-ia a compreender, talvez até mesmo a mudar o seu com­
portamento. Mas, essencialmente, o problem a é dela\ Eu posso e talvez até deva 
tentar explicar e explicar, mas o convencimento é de cada um e isso eu não posso 
garantir para o outro.
K claro que nenhum de nós está autorizado a agir como se os outros não 
importassem. Fazer isso é a rota mais curta para o suicídio social; é só uma questão 
de tempo. Mais cedo ou mais tarde e de uma maneira que eu possivelmente não vou 
gostar, os outros vão me mostrar que eles existem, sim, e que são importantes.
Entretanto, mais uma vez, temos algumas maneiras práticas para saber isso: 
se o que você está fazendo não arranca pedaços do seu corpo ou do coq>o dos
Expressando sentimentos e comunicando ideias 45
outros, se a lei não impede você de fazer isso e se, após refletir com honestidade, 
você estiver segura de que não está fazendo isso para machucar os outros de pro­
pósito, de que é um direito seu, então, siga em frentel Caso contrário, da próxima 
vez que você quiser fazer alguma outra coisa que seja importante para você e que 
seja do seu legítimo direito decidir, e isso, por qualquer razão ilegítima, incomodar 
ao outro, adivinhe só o que o outro vai fazer? Isso mesmo; vai desaprovar você, 
sabendo que, se ele fizer isso, você vai se sentir mal autom aticam ente e, para 
licar livre deste sentimento de mal-estar, vai acabar fazendo o que ele quer.
Mas fazer o que ele quer, neste caso, condena você a não fazer o que você legi­
timamente quer fazer. Aí, é a sua vida que fica mim e aí, José ou Maria, será a sua vez 
de olhar para o outro com olhos chorosos, atirando para cima dele a responsabi­
lidade sobre o seu sofrimento e, com isso, iniciando mais uma vez o ciclo de raiva, 
culpa e arrependimento que os manterá aprisionados, cada um aos problemas e 
dificuldades do outro, para o resto da vida de vocês! Péssimas notícias, não?
Como resolver isso? Más notícias ou boas notícias, você decide. Lima boa 
maneira de se livrar do medo da desaprovação do outro, da desaprovação social é 
sendo desaprovado pelo outro. Expondo-se à desaprovação social: deliberadamen­
te, de propósito, por vontade própria, por querer! K um exercício. Você começa 
um exercício devagar, acostumando-se a ele.
Por exemplo, você pode começar por fingir, num restaurante, que esbar­
rou num copo e fazer com que ele caia no chão e se quebre, Isso é errado , não 
é? Quero dizer, mesmo quando quebramos alguma coisa acidentalm ente, isso é 
errado, não é? E as pessoas nos desaprovam quando fazemos algo errado, não é? 
É, mas nem precisa. Mesmo antes que eles nos desaprovem, nós mesmos já nos 
desaprovamos, nos sentindo mal conosco mesmos, nos sentindo inadequados.
Mas pense um pouco mais comigo: o que você acha que de fato vai acon­
tecer se você quebrar um copo ’‘acidentalmente” num restaurante? Praticamente 
nada, não é? No pior, você terá que pagar um copo junto com a conta, que não é 
lá essas coisas, sobretudo pelas vantagens que você terá: você terá aprendido a 
se aprovar, mesmo que as pessoas ao seu redor possam não aprovar você.
Você poderia também, por exemplo, pegar uma coisa numa prateleira de um 
supermercado, digamos, um pacote de arroz, andar com ele pelo supermercado e 
às vistas de outros fregueses - melhor ainda se for às vistas de um funcionário do
46 LALO OU NÃO FAÍX)?
supermercado - colocar o pacote numa outra seção, a de sapatos, por exemplo. 
Duvido que algo de muito ruim para você possa acontecer por causa disto. No 
máximo, urna olhada feia do funcionário; no máximo, uma advertência por parte 
dele. Dá para sobreviver a isso tranqüilamente, não acha?
Você mesmo poderá inventar mil e uma maneiras criativas, divertidas e 
interessantes de fazer a sua má ação semanal; basta libertar o moleque que ainda 
existe em você! Fazendo coisas assim, expondo-se de propósito à desaprovação 
social, você verá que, aos poucos, esta desaprovação irá perdendo o poder de fazer 
você se sentir mal, de sofrer por causa disto. Mesmo que o outro, por problemas 
dele, esteja desaprovando você, você pode aprovar-se a si mesmo\
Vou-lhe recomendar uma experiência ótima para você fazer: compre uma 
coisa que você gosta de comer; por exemplo, um bombom ou um chocolate. Dê 
uma bela dentada no chocolate. Sinta o sabor, o doce, o gostinho bom. Agora, vá 
e pratique uma molecagem qualquer, faça algo errado deliberadamente. Espere 
um pouco, para sentir bem a desaprovação do outro e dê uma outra dentada no 
chocolate.
Agora, fale a verdade: o chocolate mudou o gosto? Ficou menos gostoso 
depois de você se ter exposto à desaprovação do que antes disso? É claro que não, 
não é? Então? Viu como você pode sobreviver a uma desaprovação social e ainda 
assim manter a sua capacidade de ter prazer e ser feliz? Viu como você pode se 
aprovar, mesmo que o outro desaprove você?
Uma palavra de advertência: este exercício - ele tem um nome: chama-se 
“ataque de vergonha”- será mais eficaz se for praticado do ambiente social mais 
longínquo para o mais próximo e do ambiente afetivamente mais fraco para o mais 
forte. Explico-me: comece a praticar longe de casa, longe das pessoas que conhecem 
você. Costuma ser muito mais fácil lidar com a desaprovação de desconhecidos 
do que com a de conhecidos. Costuma ser muito mais fácil suportar e lidar com 
competência com a desaprovação de um colega de trabalho, do qual você nem 
mesmo amigo é, do que com a desaprovação da sua mãe, por exemplo.
Como qualquer outra habilidade, qualquer outro comportamento novo, 
de início a gente não se sente muito seguro ao praticá-lo e pode até mesmo errar 
a mão, exagerando um pouco. Caso isso aconteça, será melhor que isso ocorra 
num lugar no qual você não precise voltar do que num lugar onde você precisará
Expressando sentimentos e comunicando idéias 47
estar todos os dias. Primeiro, fortaleça aos poucos os seus músculos; depois, suba 
a montanha. Se você se preparou bem, suas chances serão ótimas: mesmo que 
outros desaprovem você, você pode aprovar a si mesmo\
Se você fizer estes exercícios, você poderá conseguir se aprovar mesmo 
quando alguma outra pessoa, qualquer outra pessoa, não aprovar você, desde que as 
suas ações sejam legítimas. Quando isso acontecer, você ganhará um outro presente 
maravilhoso, que sempre vem junto dentro deste mesmo pacote: no momento em 
que você suportar a desaprovação ilegítima do outro sem se abalar, sem se sentir 
mal, você verá que você passará a desaprovar menos os outros, a aceitar melhor a 
diferença. E isso, João e Maria, é que é uma verdadeira liberdade\ Escolher para si 
mesmo, sem se abalar, os caminhos próprios e aceitar, sem se abalar, as escolhas 
de caminhos que os outros fazem para eles mesmos.
Caso você tenha alguns dos problemas que conversamos aqui, faço votos que 
você pratique mesmo os exercícios sugeridos. Somente ler e pensar dificilmente 
irá ajudar você a mudar. Quando estamos interessados em mudanças, o verbo c 
fazer. Entretanto, para algumas pessoas, pode ser que as indicações que fiz nesta 
conversa sejam insuficientes. Neste caso, considere procurar uma ajuda profis­
sional. Procure um profissional que certamente saberá como ajudar você de uma 
maneira prática, rápida e eficaz: procure um analista do comportamento.
49
COMPORTAMENTO ASSERTIVO: 
UM GUIA PARA JOVENS
Fernanda Silva Brandão 
Priscila Rosemann Derdyk
Alice, perdida na floresta, vira-se para o gato invisível e pergunta: 
“Vocêpode me ajudar?" Ele responde: “Claro ”. Eia fala: “Para onde vai 
esta estrada?" O galo diz: “Para onde você quer ir?" Alice responde: 
“Não sei Estou perdida. ” Enlão o gato conclui: “Para quem não sabe 
para onde vai, qualquer