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FALO, OU NÃO FALO, Expressando sentimentos e comunicando idéias - Fátima Cristina de Souza & Conte Maria ZiJah da Silva Brandão (Editoras) 2007 (2) pdf

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que olhar para 
o jeito com que falamos e a situação. Até um simples “eu te amo”, ou “você é um 
amigo legal” pode soar o inverso dependendo da “nossa cara”, o jeito de nosso 
corpo, nosso tom de voz ou da situação. Isso pode parecer um “sarro”, humilhar ou 
criar dúvida. E mais, “a cara” tem que combinar com as palavras, ou a mensagem 
fica ainda mais confusa. Isso não é bom! Se alguém diz que ficou com raiva num 
tom de quem pede desculpas, enrolando-se como um caramujo, pode parecer que 
ela está mais com medo do que com raiva. Pode ter ficado magoado, por exemplo, 
da amiga ter contado seu segredo a outra pessoa! Então a “tagarela” pode dar com 
os ombros, e ela se sentirá desrespeitada mais uma vez!
Temos que falar, ver como falamos, olhar para o outro sem ficar encarando 
ou desviando os olhos e combinar a postura, o tom de voz com as palavras. Tudo 
isso faz parte do comportar-se assertivamente,
Sobre as conseqüências de se comportar assertivamente
Se ao ler este texto, o leitor está formulando “algumas perguntas que não
Expressando sentimentos e comunicando ideias 103
querem calar”, têm razão! Que tal estas: “no mundo em que vivemos, isso é sempre 
certo? Toda esta transparência não faz mal? Não aumenta a exposição de nossos 
pontos fracos? Podemos não ser entendidos? Podem se aproveitar disso para nos 
machucarem? A regra 6 de que ser assertivo é sempre possível, bom, necessário, 
adequado?”. Serão ótimas perguntas e bastante realistas! E começando pela última 
pergunta, podemos dizer um grande e sonoro NÃO!
Ter uma comunicação mais aberta, tentar ser sempre assertivo e lutar 
por relacionamentos reciprocamente respeitosos é muito bom como meta, mas 
a cada passo, devemos avaliar as conseqüências. Muitas vezes, é melhor deixar 
passar algumas situações, esperar outra oportunidade para nos expressarmos, 
evitar algumas pessoas e situações mais do que ser assertivos com elas e assim 
sucessivamente. É sempre bom avaliar alternativas e as conseqüências possíveis, 
e fazer uma escolha. Isso também é aprendido. Por vezes, é melhor deixar de 
responder a uma provocação, ignorar um apelido, por exemplo, do que continuar 
respondendo e demonstrando que ficamos chateados, para um colega que se sente 
muito feliz em nos provocar irritação! Às vezes, como já dito de início, é preciso 
revidar a agressão!
E se a criança se tornar sem-educação? Bem, deve ter sido notado que o 
que geralmente chamamos de falta de educação também pode ser chamado de 
agressividade! Geralmente, comportamentos “não-educados” também trazem certas 
conseqüências positivas imediatas, mas desrespeitam direitos, limites, sentimentos 
e pensamentos das outras pessoas. Provavelmente, a resposta alternativa à “falta 
de respeito” é a asserção. Assim, é preciso corrigir e redirecionar para uma forma 
“mais educada” de responder. Não é assertivo, por exemplo, dizer à avó de 70 anos 
que ela é uma chata, porque conta a mesma coisa três vezes e que nunca acerta 
em nos dar um presente. Se a criança age assim, é o caso de fazê-la desculpar-se, 
ajudá-la a refletir sobre a situação da avó e seus sentimentos e limites, e combinar 
uma nova forma de lidar com situações como estas. Outros exemplos são os abusos 
verbais que alguns infantes podem fazer com empregados da família. Neste caso, 
devemos interromper firmemente esta conduta e ajudar a criança a resolver o 
problema que tenha de forma assertiva.
É possível ser assertivo com os pais e avós, professores, pessoas mais ve­
lhas e autoridades, funcionários etc, usando-se os mesmos critérios já colocados 
anteriormente.
104 FAT.O 01 .VV) FALO?
Vale a pena tentar. Pessoas assertivas geralmente são mais respeitadas e 
valorizadas que as agressivas e passivas. A falta de assertividade ou a agressivida­
de não asseguram que todos vão gostar de nosso filho. Ser considerado o mais 
poderoso (bravo) ou bonzinho não é garantia de felicidade.
Aprendendo com o Caso de Carol e sua terapeuta a fazer análise 
do problema junto a seu filho.
A mãe de Carol, de 10 anos, diz que sua filha é iinalura, chorona e cha­
ta, devido aos comportamentos que apresenta em casa e com as amigas. Carol 
também se acha chata e se queixa muito dos comportamentos do irmão, da mãe 
e das amigas. Em casa, ela briga muito com o irmão (12 anos), grita muito alto 
quando provocada e briga muito com a mãe sem que nenhuma mudança ocorra 
no comportamento deles. Eles não fazem as coisas da forma como ela quer e ela 
fica muito brava e agride sua mãe, enquanto esta lhe dá muitos conselhos para 
se acalmar. Carol expressa o que sente de um modo desagradável e disfuncional. 
Torna-se malcriada nessas situações, e não identifica formas mais convenientes de 
solucionar seus problemas. Com as amigas, não fala sobre as coisas de que não 
gosta, pois tem medo de perdê-las e ser chamada de chata.
Ouvir que é chata, imatura e chorona interfere na formação do autocon- 
ceito da criança. O que os outros dizem colabora para o processo de formação 
do autoconceito (acreditamos que somos aquilo que nossa comunidade verbal 
diz que somos). Ao dizer que a criança é ‘‘legal'1, agradável, boa aluna, esperta e 
inteligente, podemos favorecer a formação de autoconceito positivo. Ao dizer que 
a criança é burra, chata, desagradável e irritante, podemos favorecer a formação 
do autoconceito negativo para essas condições. A criança pode estabelecer novas 
relações e acreditar que se é burra, chata, desagradável e irritante, ninguém pode 
gostar dela. Carol também estabelece novas relações: se sou chata, ninguém gosta 
de mim, então tenho que aceitar o que Bete fala, pois assim não serei chata e não 
perderei minhas amigas.
Carol conta que sua melhor amiga (Bete), com a qual faz tudo junto, fica 
muito brava quando Carol não concorda com tudo o que ela quer. Carol passou 
a concordar com tudo, mesmo com as coisas que lhe desagradam muito. Essa 
"amiga” Bete, então, passou a exigir que ela ficasse no recreio só com ela; se
Expressando sen timen los e comunicando idéias 105
Caro! conversasse com outras crianças, Bete inventava para as meninas que Carol 
havia falado mal delas ou contava “segredos” que Carol tinha confiado só a Bete. 
Carol não queria mais ser amiga de Bete, mas tinha medo de dizer isso para ela. 
Uma vez, quando não estava mais agüentando a situação, começou a dizer para 
Bete que não queria mais ser sua amiga. Bete disse a Carol que se não fosse mais 
sua amiga, ela faria toda a classe ficar contra ela. Carol ficou com muito medo de 
ficar sozinha e continuou ficando no recreio, somente com Bete, e fazendo tudo 
que ela queria.
Esse tipo de interação mostra a dificuldade de Carol em expressar seus 
sentimentos de modo assertivo para enfrentar a amiga controladora. Se Carol não 
fosse tão insegura com relação a conseguir novas amigas, teria sido capaz de não 
aceitar ser amiga exclusiva de Bete. Se tivesse aprendido habilidades sociais para 
ser agradável com as amigas, não teria medo de ficar sozinha e desta forma enfren­
taria Bete e conquistaria outras amigas. Bete, ao perceber que não poderia fazer 
de Carol sua refém, tem de fazer algumas escolhas: ou muda seu comportamento 
com Carol e amplia o número de amigas sem ser controladora ou continua da 
mesma forma e fica sem amigas, até adquirir novas habilidades sociais.
É possível que Carol fosse insegura com relação a agradar às pessoas, 
porque os comportamentos aprendidos em casa de chorar e brigar, ao invés de 
buscar a solução que mais funcionasse no momento, provocou uma limitação 
na interação agradável com as pessoas. 0 irmão de Carol aprendeu a provocá-la 
para vê-la chorar. Quando Carol vai tomar banho, o irmão apaga a luz e desliga 
a água quente, quando ela está ensaboada. Ela grita muito, chama a mãe, que ri 
dos gritos dela e diz que é muito chorona. O irmão liga a água quente novamente, 
depois de rir muito. Quando desce ao playground do prédio e só o irmão está 
em casa, Carol costuma deixar a porta aberta. O irmão tranca a porta e demora