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Medicina Felina - Apostila

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tratados em unidades de tera-
pia intensiva (UTI) para melhor mo-
Pacientes em choque 
devem ser tratados em 
Unidades de Terapia 
Intensiva (UTI) para 
melhor monitoração e 
tratamento.
26 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 82 - dezembro de 2016
nitoração e tratamento 
(Feliciano, Rodrigues e 
Ramos, 2015). Uma es-
tratégia de ressuscitação 
envolve a manipulação 
dos parâmetros, orien-
tada por metas, descritas 
no Quadro 3, que po-
dem ser alcançadas com 
o tratamento.
 O pilar da terapia de todos os ti-
pos de choque, exceto o cardiogênico, 
é a administração de grandes volumes 
de líquidos intravenosos para propor-
cionar um volume circulante efetivo e 
perfusão tecidual (Murphy e Hibbert, 
2013; Laforcade e Silverstein, 2015). 
No entanto, é importante lembrar que 
é essencial a definição da etiologia e o 
tratamento adequado da causa do cho-
que, caso contrário, embora seja institu-
ído o suporte hemodinâmico, ocorrerá 
perpetuação da hipoperfusão tecidual, 
desenvolvimento da sín-
drome de disfunção de 
múltiplos órgãos e morte 
(Feliciano, Rodrigues e 
Ramos, 2015). Uma vez 
que a velocidade da ad-
ministração de fluidos é 
proporcional ao diâme-
tro do lúmen do cateter 
e inversamente propor-
cional ao sem comprimento, cateteres 
curtos e de diâmetro grande devem ser 
colocados em uma veia central ou peri-
férica. Caso o acesso intravenoso esteja 
difícil, devido ao colapso do sistema car-
diovascular, um acesso intraósseo ou a 
dissecção da veia podem ser necessários 
(Laforcade e Silverstein, 2015).
A administração do déficit de flui-
do em pequenas alíquotas permite 
melhor avaliação da capacidade do fe-
lino de acomodar o volume infundido. 
Recomenda-se que sejam feitos bolus de 
 A administração 
do déficit de fluido 
em pequenas 
alíquotas permite 
melhor avaliação da 
capacidade do felino 
de acomodar o volume 
infundido.
Quadro 3 – Metas de reanimação volêmica
Pressão arterial sistólica maior ou igual a 100 mm Hg
Normalização da frequência cardíaca
Normalização da qualidade do pulso
Melhora no tempo de preenchimento capilar e na coloração das mucosas
Melhora do estado mental
Débito urinário maior ou igual a 2 ml/kg/h
Extremidades mornas
Queda do lactato (normal < 2,5mmol/L)
Saturação venosa central maior que 70%
Pressão venosa central: 5 a 10 cm H2O
Saturação de oxigênio (SpO2) maior que 93%
Fonte: Adaptado de Laforcade e Silverstein, 2015; Murphy e Hibbert, 2013.
272. Choque circulatório em felinos
5 a 10 ml/kg de cristaloides, em 10 mi-
nutos, e o fluido inicialmente recomen-
dado é o Ringer com Lactato (Murphy 
e Hibbert, 2013). Entretanto, Rabelo 
(2012) recomenda que sejam realiza-
dos bolus de 10 ml/kg em 6 minutos, 
sempre seguido de verificação dos parâ-
metros clínicos. Se, após o primeiro bo-
lus, o paciente demonstrar melhora clí-
nica ou de seus parâmetros, dois bolus 
adicionais podem se realizados. Caso o 
felino persista hipotenso, após a realiza-
ção de três bolus, o uso de vasopresso-
res e ou inotrópicos pode ser necessário. 
Fluidoterapia agressiva deve ser evitada, 
pois felinos são suscetíveis à sobrecarga 
hídrica e a manifestam pelo aumento 
da frequência e do esforço respiratório, 
crepitações pulmonares e secreção nasal 
serosa, devido à ocorrência de edema 
pulmonar agudo e efusão pleural. Para 
evitar a sobrecarga, o paciente deve ser 
continuamente monitorado (Murphy 
e Hibbert, 2013) e deve-se utilizar a 
bomba de infusão para reduzir o risco 
de hipervolemia iatrogênica. Ressalta-
se que, caso o gato esteja hipotérmico, a 
administração de fluido deve ser muito 
cautelosa e ser dada durante o aqueci-
mento em incubadora (Fig. 6) (Murphy 
e Hibbert, 2013). 
Após a realização das provas de 
carga e da estabilização clínica, o cál-
culo de reposição para 24 horas pode 
ser realizado, sempre descontando o 
volume infundido no atendimento 
emergencial. Segundo Rabelo (2012), 
o cálculo deve ser realizado da seguinte 
maneira:
1. Desidratação em % x peso em gra-
mas = volume em ml;
2. Diarreia: 50 ml/kg/dia;
Figura 6 – Paciente felino admitido em choque cardiogênico após episódio de tromboembolismo aórti-
co em aquecimento na incubadora com suplementação de oxigênio durante fluidoterapia por bomba 
de infusão. Fonte: Hospital Veterinário da UFMG.
28 Cadernos Técnicos de Veterinária e Zootecnia, nº 82 - dezembro de 2016
3. Vômito: 50 ml/kg/
dia;
4. Perdas contínuas 
(urina, fezes, perda 
pela respiração): 40 
ml/kg/dia.
Esse método é rápi-
do e eficiente na rotina 
hospitalar, além de ser 
flexível permite a adap-
tação de acordo com 
o paciente e suas necessidades. Tais 
valores servem como base para a flui-
doterapia e podem ser aumentados ou 
diminuídos de acordo com a gravidade 
do quadro clínico.
 Pacientes com hipoproteinemia 
aguda ou com pressão oncótica redu-
zida podem beneficiar-se da infusão de 
coloides sintéticos (ex.: hidroxietilami-
do - HES) em uma dose de 5 a 10 ml/
kg/dia. Coloides são hiperoncóticos e 
por isso causam a mudança do fluido 
extravascular para o compartimento 
vascular e ajudam a manter esse volu-
me no vaso por um período de tempo 
prolongado. Na medicina humana há a 
preocupação de que a infusão de HES 
esteja associada à ocorrência de injú-
ria renal aguda em pacientes críticos 
e em pacientes com sepse. Entretanto, 
não existem evidências que suportem 
essa associação com a medicina vete-
rinária, até o momento (Laforcade e 
Silverstein, 2015). Não obstante, devi-
do às semelhanças fisiopatológicas en-
tre humanos e pequenos animais, uma 
reavaliação crítica do 
uso de coloides como 
estratégia de reanima-
ção volêmica na medi-
cina veterinária deve 
ser realizada (Cazzolli 
e Prittie, 2015). Um es-
tudo recente, realizado 
in vitro para avaliar os 
efeitos do ringer com 
lactato, o hidroxietila-
mido (HES) e o plasma fresco conge-
lado na coagulação de cães por meio da 
tromboelastografia, demonstrou efei-
tos pronunciados no tempo de coagu-
lação com o uso de HES, ressaltando a 
necessidade de mais estudos para veri-
ficar a segurança desse coloide para uso 
em animais (Morris et al, 2016).
A administração de hemocompo-
nentes é comumente necessária no 
tratamento do paciente em choque. A 
maior parte dos pacientes responsivos 
a fluidoterapia tolera uma hemodilui-
ção para um hematócrito menor que 
20%. Tanto a dose quanto a velocidade 
da administração dependerão da con-
dição subjacente e do estado hemodi-
nâmico do paciente. Recomenda-se 
que a transfusão de sangue seja utiliza-
da para estabilizar pacientes com sinais 
de choque e para manter um hemató-
crito maior que 25% e os valores do 
coagulograma dentro da normalidade 
(Laforcade e Silverstein, 2015).
Felinos que permanecem hipo-
tensos apesar da reanimação volêmi-
Pacientes com 
hipoproteinemia aguda 
ou com pressão oncótica 
reduzida podem 
beneficiar-se da infusão 
de coloides sintéticos 
(ex.: hidroxietilamido - 
HES) em uma dose de 
5 a 10 ml/kg/dia.
292. Choque circulatório em felinos
ca em geral requerem 
tratamento com drogas 
vasopressoras ou ino-
trópicas, uma vez que 
a entrega de oxigênio 
depende tanto do dé-
bito cardíaco quanto 
da resistência vascular 
sistêmica (Fig. 3) 
(Laforcade e Silverstein, 
2015). A norepinefrina 
é um agente vasopres-
sor associado à constri-
ção arteriolar e veno-
sa, causando aumento 
da pressão arterial por 
meio desse mecanismo. 
A dose é de 0,1 a 2 mcg/
kg/min. A dobutamina 
é uma droga com característica ino-
trópica positiva que causa aumento do 
débito cardíaco com pouca alteração 
da pressão arterial e sua dose é 5 a 20 
mcg/kg/min (Haskins, 2015). 
Diferente do choque hipovolêmico 
ou do distributivo, o choque cardio-
gênico é caracterizado por disfunção 
sistólica