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caderno_MSE_0712

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à atuação das ins-
tituições responsáveis pelo acompanhamen-
to e avaliação das ações destinadas à garan-
tia de direitos das crianças e adolescentes. 
A atuação do SGD, por meio dos três eixos, 
ocorre de maneira articulada e integrada 
para a concretização dos direitos humanos 
(civis, políticos, sociais, econômicos e cultu-
rais) de crianças e adolescentes.
É fundamental que o acompanhamento 
considere o histórico de violação de direitos 
e o contexto de vulnerabilidades, fatores que 
geralmente caracterizam a vida dos adoles-
centes em cumprimento de medidas socio-
educativas. Esses aspectos têm impacto no 
desenvolvimento dos adolescentes, pois se 
desdobram no alto índice de evasão escolar 
ou de baixa escolaridade, no precário aces-
so à rede de saúde e nas restritas opções de 
acesso à cultura, à profissionalização, ao es-
porte e ao lazer.
Esse cenário provoca tensionamento no 
atendimento socioeducativo, revelando limi-
tes entre a defesa de direitos e a responsabi-
lização, duas dimensões que devem se conci-
liar, concomitantemente, no cumprimento 
de uma medida socioeducativa. Essa contra-
dição se impõe como desafio à equipe de re-
ferência, obrigando-a a estabelecer diferen-
ciação, durante o acompanhamento, entre a 
dimensão que envolve a resposta necessária 
(responsabilização) do adolescente ao ato in-
fracional cometido e a dimensão que se refere 
ao acesso a direitos (proteção social).
Dessa forma, a proteção social, dimen-
são a ser garantida durante o cumprimento 
da medida socioeducativa, é um mecanismo 
que busca a criação de condições favoráveis à 
superação da negação de direitos inerente à 
trajetória da maioria desses adolescentes.
A responsabilização, outra dimensão 
da medida socioeducativa, decorre da desa-
provação da conduta infracional, por meio 
da aplicação da medida socioeducativa, que 
objetiva levar o adolescente à reflexão e ao 
reconhecimento de sua responsabilidade 
frente ao ato infracional cometido e suas con-
sequências, o que vai ao encontro da ideia de 
responsabilidade individual. Apesar da res-
ponsabilização, o cumprimento de medidas 
socioeducativas deve necessariamente garan-
tir os direitos individuais e sociais do adoles-
cente, por meio de um atendimento que este-
ja atento às singularidades e potencialidades 
de cada um.
A Política de Assistência Social estabe-
lece o Serviço de MSE em Meio Aberto como 
um dos seus serviços socioassistenciais30, po-
rém dotado de característica distintiva, a res-
ponsabilização, que ultrapassa as ações exclu-
sivamente voltadas à proteção social. Dessa 
forma, as ações planejadas no acompanha-
mento não podem perder de vista a dimensão 
da responsabilização do adolescente frente ao 
ato cometido.
É necessário salientar que responsabi-
lizar não significa punir, constranger, repri-
mir ou humilhar o adolescente. A respon-
sabilização deve ser suscitada por meio das 
intervenções técnicas e da inserção do ado-
lescente em atividades/serviços que promo-
vam a reflexão sobre a convicção que o leva à 
opção pela trajetória infracional, certeza que 
normalmente acompanha os adolescentes 
em conflito com a lei. Uma das possibilida-
des para se concretizar a responsabilização 
se dá a partir do momento que o adolescente 
consegue fazer uma reflexão crítica sobre as 
suas escolhas, o que permite a ele projetar 
alternativas além daquelas possíveis na tra-
jetória infracional.
30 Ver Resolução CNAS nº 109/2009.
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Além da escuta qualificada, que possi-
bilita a reflexão em relação ao ato cometido, 
o processo de responsabilização aliado à pro-
teção social, permitirá o comprometimento 
do adolescente com a sua escolarização, com 
a sua saúde, com o estabelecimento de novos 
vínculos comunitários e a adesão às oportu-
nidades ofertadas a ele de profissionalização, 
de inserção no mercado de trabalho e de aces-
so a bens e equipamentos culturais. Decorre, 
daí, a importância da intersetorialidade para 
o atendimento socioeducativo, à medida que 
a responsabilização se efetiva também por 
meio do trabalho em rede. 
Os adolescentes devem ser instrumen-
talizados para a defesa e a promoção de seus 
direitos, bem como para o exercício de seus 
deveres no âmbito das relações familiares e 
sociais. Para tanto, o trabalho técnico deve 
buscar o desenvolvimento de atividades que 
orientem e incentivem os adolescentes a con-
quistarem seus direitos e a cumprirem seus 
deveres como cidadãos autônomos.
A utilização do método da Justiça Ju-
venil Restaurativa  pode auxiliar no proces-
so de responsabilização do adolescente con-
siderando que suas práticas se configuram 
como um modelo de justiça centrado não na 
punição, mas, na restauração dos vínculos 
individuais, sociais e comunitários de pes-
soas afetadas por um conflito, dano ou ato 
infracional através das Práticas Restaurati-
vas, que buscam o diálogo como ferramen-
ta de superação dos problemas enfrentados. 
O objetivo principal é propiciar um espaço 
de diálogo através do qual se busca, coleti-
vamente, restaurar vínculos, reparar danos 
e promover responsabilidades, possibilitan-
do a integração e a pacificação comunitária 
(Terre des hommens, 2013)31.
31 Terra des hommes Lausanne no Brasil (Tdh) é uma organização 
não governamental que atua, há mais de 30 anos em 33 países, com 
projetos de promoção dos direitos juvenis. Na América Latina, a 
Tdh busca a redução do fenômeno da violência e delitos envolven-
do crianças e adolescentes, promovendo uma justiça centrada na 
responsabilização e na reparação dos atos e na restauração de vín-
culos. Para mais informações, consultar www. thdbrasil.org 
4.1.3. A territorialização 
A diretriz da territorialização da Política 
Nacional de Assistência Social é fundamental 
para a execução do Serviço de MSE em Meio 
Aberto, já que, a partir da leitura do território 
como espaço das relações cotidianas, é possí-
vel a caracterização das dinâmicas sociocultu-
rais que revelam as particularidades da vida 
social e o conhecimento objetivo sobre a rede 
de serviços e equipamentos públicos a que tem 
acesso aquela determinada comunidade.
A compreensão das dinâmicas internas 
de uma comunidade pode contribuir para 
planejar o acompanhamento dos adolescen-
tes em cumprimento de medidas socioeduca-
tivas e suas famílias. Por exemplo, atualmen-
te, muitas periferias das grandes cidades são 
dominadas pelo tráfico de drogas, que impõe 
regras específicas de convivência, estabele-
cendo fronteiras e restringindo a mobilida-
de dentro do território. Situações desse tipo 
acabam refletindo diretamente na dinâmi-
ca das comunidades e no comportamento 
de sua população, limitando e marcando as 
relações sociais ali estabelecidas. A incorpo-
ração destes elementos como matéria a ser 
trabalhada no acompanhamento dos adoles-
centes e de suas famílias pode se transfor-
mar num caminho a ser tomado pela equipe 
técnica para a busca conjunta de alternativas 
diante de contextos tão desfavoráveis à con-
vivência comunitária e familiar.
Os adolescentes são discriminados sim-
plesmente por sua origem socioterritorial, 
sendo vítimas de preconceitos devido aos 
modos de falar, de se vestir e de se compor-
tar, socialmente vistos como marcas dos ter-
ritórios marginalizados. A partir desse perfil 
criam-se estereótipos diretamente relacio-
nados ao mundo do crime.
Apesar das vulnerabilidades, os ter-
ritórios possuem potencialidades, como 
associações, grupos e equipamentos cultu-
rais, manifestações e eventos comunitários, 
espaços de esporte e lazer, projetos sociais, 
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que devem ser valorizadas a partir da sen-
sibilização e da mobilização dos adolescen-
tes e de suas famílias, como mecanismos 
de ampliação da integração comunitária e 
também como alternativas para a reformu-
lação de projetos de vida.
Este é um ponto importante
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