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40A114 - Sistema de Gestão e Planejamento Ambiental AULAS

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Percepção ambiental e 
sociedade (paisagem, 
sociedade e ambiente)
Introdução 
A percepção ambiental da paisagem por meio de leituras biofísicas e socio-
culturais se processa a partir do espaço ocupado pelas pessoas, pois remete à sua 
memória, à sua história, bem como à sua identificação, como espaço vivido e suas 
problemáticas, evidenciando a “força do lugar”. Para uma leitura e percepção da 
paisagem, cumpre-nos assinalar que também é sistêmica e é o resultado da com-
binação dos elementos naturais e materiais somados às obras humanas e grupos 
culturais que viveram no espaço. 
Dessa forma, em ações de gestão ambiental é imprescindível desenvolver proces-
sos cognitivos de percepção ambiental visando à integração do ser humano e natureza. 
Portanto, nesta aula serão abordadas as principais questões e conceitos sobre percepção 
ambiental e sociedade, seguido desta percepção com paisagens e, por último, as paisa-
gens como espaços educadores para as sociedades. 
Percepção ambiental e sociedade 
(paisagem, sociedade e ambiente)
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1.1 Algumas questões sobre a percepção 
do ambiente e sociedade
As questões ambientais e seus problemas têm acompanhado, em diferentes períodos 
históricos, diversas sociedades que possuem por sua cultura percepções próprias da nature-
za. Esse fato traz à ciência um rico campo de estudos e pesquisas, para avaliar as percepções 
e os efeitos da ação humana sobre o ambiente natural, social e cultural.
Rodaway (1995) citado por Hoeffel (2007) caracteriza percepção como um processo, 
uma atividade que envolve organismo e ambiente, e que é influenciada pelos órgãos dos 
sentidos – percepção como sensação –, e por concepções mentais – percepção como cogni-
ção. Dessa forma, ideias sobre o ambiente envolvem tanto respostas e reações a impressões, 
estímulos e sentimentos, mediados pelos sentidos, quanto processos mentais relacionados 
com experiências individuais, associações conceituais e condicionamentos culturais.
As pessoas constroem sistemas para manejar o mundo, ou seja, formulam hipóteses 
segundo a sua experiência e predizem assim o futuro de acordo com estas hipóteses. Tais 
construções mentais variam segundo as pessoas, que somente reagem aos estímulos que são 
capazes de imaginar como atuantes, que, por sua vez, formam parte do espaço construído 
e do espaço percebido.
Além disso, a atividade perceptiva enriquece continuamente a experiência individual 
e por meio dela nos apegamos, cada vez mais, ao lugar e à sua paisagem, pois quando o 
espaço nos é familiar torna-se lugar. De acordo com Leite (1994), a percepção do tempo, do 
espaço e da natureza muda com a evolução cultural, o que exige a procura de novas formas 
de organização do território que melhor expressem o universo contemporâneo, formas que 
capturem o conhecimento, as crenças, os propósitos e os valores da sociedade.
É a partir da percepção do ambiente pelo ser humano que se pretende identificar como 
homens e mulheres veem e classificam seus ambientes, como se colocam nos ambientes que 
criam, e que referências usam para escolher tais ambientes. Nossa mente organiza e repre-
senta essa realidade percebida por meio de esquemas perceptivos e imagens mentais, com 
atributos específicos (DEL RIO e OLIVEIRA, 1999) e que servem para avaliar a qualidade dos 
ambientes (PILOTTO, 2003). Uma imagem é uma representação internalizada do ambiente, 
por meio da experiência, e incorpora ideais, isto é, a avaliação da qualidade ambiental traz 
a organização do meio ambiente como o resultado da aplicação de conjuntos de regras que 
refletem de diferentes concepções de qualidade ambiental (OJEDA, 1995). Além disso, é pela 
percepção que o ser humano estrutura sua representação cognitiva do ambiente. 
De acordo com Del Rio e Oliveira (1999) a percepção consiste em trocas funcionais do 
indivíduo com o meio exterior, as quais têm dois aspectos: cognitivo e o afetivo. O primeiro 
ocorre paralelamente, quando o indivíduo conhece o mundo exterior e começa a ter senti-
mentos em relação a ele e o segundo é a energia do sistema. Para Ojeda (1995) é cada vez 
mais necessário considerar os costumes cognitivos com a finalidade de entender a manei-
ra pela qual o meio ambiente é conhecido e estruturado pelos indivíduos e pela socieda-
de. As pessoas, como organismos ativos, adaptativos e procuradores de objetivos ou fins, 
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(paisagem, sociedade e ambiente)
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estruturam o mundo a partir de três fatores: o organismo, o meio ambiente e o meio cultural, 
os quais se relacionam para formar representações cognitivas. 
Segundo este mesmo autor, existem dois significados diferentes do termo cognição am-
biental; um é psicológico, o outro antropológico, sendo que o primeiro ressalta o conheci-
mento do meio ambiente, enquanto que o antropológico afirma que os processos cognitivos 
convertem o mundo em algo significativo. Decifrar e valorizar os costumes cognitivos das 
paisagens deveria ser uma ferramenta indispensável na gestão dos espaços, sejam eles pú-
blicos ou privados, a partir do momento que identifica não somente os diferentes ideários 
na busca da qualidade ambiental como também os saberes e significados socioambientais 
específicos das inter-relações evolutivas entre natureza e populações locais.
Dentro dessa dinâmica insere-se a questão paisagística, incluindo-se a necessidade de 
investigar o significado das diversas expressões do verde dentro das diferentes culturas. O 
verde existe como objeto dado no mundo e como idealização. Por exemplo, ao se projetar 
áreas verdes, como nas áreas protegidas, navega-se, portanto, na semiótica de significantes e 
significados, não como elementos isolados, mas como partes de um todo em que, aquele que 
habita, é indissociável do espaço onde exerce sua autopoiesis1 (MATURANA e VARELLA, 
1980). A paisagem está presente em cada situação da história dos seres humanos, traçando 
uma relação vital para ambos, em que as pessoas necessitam da paisagem que ordena os 
serviços ambientais que a natureza oferece e esta depende das ações e percepções, ideias e 
ações das pessoas (DEL RIO e OLIVEIRA, 1999). 
Além disso, o ser humano, assim como os organismos, impõe uma ordem espacial, social 
e temporal diferentes, porém relacionadas entre si, já que têm de coexistir na trama espa-
ço-temporal de um mesmo mundo, e porque todas as ordenações se apoiam nos mesmos 
processos de aprendizagem, memória, identidade, localização e orientação (PILOTTO, 1997).
Este tipo de estudo de percepção ambiental tem se tornado uma ferramenta importante 
para o desenvolvimento de processos educadores e participativos, pois, segundo Pilotto 
(1997, p. 30),
a percepção ambiental é, pois, a experiência sensitiva mais direta e imediata do 
meio ambiente, e, ainda que afetada pela memória e cognição, é muito indepen-
dente. A percepção sempre se relaciona com a ação, pelo que tem de envolvente, 
participativa e relacionada com a motivação e o significado.
Para Del Rio (1999), nosso cotidiano se conforma e se realiza por meio da percepção de 
paisagens, num amálgama entre realidade e imaginário. O ser humano age e reage de acor-
do com a maneira que percebe seu entorno, e que a percepção ambiental tem se mostrado 
cada vez mais útil como instrumento de análise da atuação antrópica sobre a paisagem. A 
partir do paradigma de que só percebemos o que conseguimos interpretar, a legibilidade 
1 Autopoiese ou autopoiesis (do grego auto “próprio”, poiesis “criação”) é um termo criado na década 
de 1970 pelos biólogos e filósofos chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana para designar a ca-
pacidade dos seres vivos de produzirem a si próprios. Segundo esta teoria, um ser vivo é um sistema 
autopoiético, caracterizado como uma rede fechada de produções moleculares (processos) em que as 
moléculas produzidas geram com suas interações
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