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cambi_2015 2


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1 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
 
 
 
 
2 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
CARTA DOS EDITORES 
 
 
Cenários Atuais e a Influência Sobre a 
Produção Científica 
 
 Às vésperas de publicarmos mais uma edição da Cambiassu, uma série de 
acontecimentos tomou conta do noticiário do país e do mundo. Desastre humano e 
ecológico em Mariana; recrudescimento do terror, operado pelo Estado Islâmico, em 
Paris e em outros lugares do mundo; prisão do líder do governo por – pasmemos – 
pretender comprar o silêncio e arquitetar um plano de fuga para um réu, já condenado 
por desvios na Petrobras; denúncia de quebra de decoro do presidente da Câmara dos 
Deputados entre os próprios pares; e possibilidade de abertura de um processo de 
impedimento da presidente da República, eleita regularmente. 
 Contribuindo para a sensação de instabilidade, os recorrentes anúncios de cortes 
de investimentos públicos e de agravamento da economia desde o semestre anterior. 
 Não se deve esperar juízo de valor e partidarização nesta carta. E eles não aqui 
estarão. Mas não dá para negarmos que esse quadro mal pintado acima atinge a todos na 
sociedade. Para nossa surpresa, a produção dos interessados em publicar na revista 
parece não ter sofrido abalo. Nesta edição do segundo semestre de 2015, a Cambiassu 
bateu recorde de trabalhos concorrendo à publicação, o que ampliou o trabalho dos 
editores e pareceristas, mas, com certeza, resultou em uma publicação mais acurada e de 
ainda maior qualidade. 
 Resta-nos torcer pela organização do cenário sociopolítico brasileiro, com os 
cidadãos como maiores beneficiários, e para que se mantenha o ímpeto de produção 
deste semestre que se encerra. 
 
 Boa leitura e até a próxima. 
 
 
Carlos Agostinho A. de M. Couto 
Larissa Leda F. Rocha 
Editores 
3 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
SUMÁRIO 
 
ARTIGOS 
 
A REPRESENTAÇÃO DE CRIANÇAS NEGRAS NOS COMERCIAIS DA “OI”: 
reflexos de um racismo velado 
Alane Regina Rodrigues dos SANTOS; Erika Acsa de Souza SANTOS; Renata Barreto 
MALTA............................................................................................................................ 06 
 
DO DIAL A WWW: a evolução do rádio a partir da noção de mídia 
Bruna ALMEIDA; Polyana AMORIM; Ricardo FERNANDES.................................... 21 
 
1964-2014: O CINQUENTENÁRIO DE UMA NARRATIVA JORNALÍSTICA 
SOBRE O GOLPE CIVIL-MILITAR NO BRASIL 
Camila Garcia KIELING................................................................................................ 30 
 
ESCÂNDALO POLÍTICO E ANÁLISE DA NARRATIVA: a cobertura sobre o 
vazamento do depoimento de Paulo Roberto Costa nos jornais Folha de S. Paulo e 
O Estado de S. Paulo 
Camila MONT’ALVERNE.............................................................................................. 45 
 
PERFORMANCES DOS EMPREGADOS NOS PALCOS ORGANIZACIONAIS: 
uma análise goffmaniana da coluna “Identidade” 
Dôuglas Aparecido FERREIRA ..................................................................................... 67 
 
VIOLÊNCIA E JORNALISMO EM MÍDIAS SOCIAIS : um estudo sobre o 
discurso da punição no blog Casos de Polícia, no Twitter, e na fanpage Plantão 
Policial, no Facebook 
Fabio Leon MOREIRA ................................................................................................. 85 
 
COMUNICAÇÃO NO BRASIL: o potencial da educomunicação para a efetivação 
do direito à comunicação 
Jéssica Oriente da SILVA; Laís Elias da COSTA; Lígia Beatriz Carvalho de 
ALMEIDA..................................................................................................................... 104 
 
SOBRE O CONCEITO DE INDÚSTRIA CULTURAL E A POSSIBILIDADE DE 
O CINEMA SE CONSTITUIR COMO ARTE: apontamentos sobre a obra de 
Ingmar Bergman 
João Fabricio FLORES DA CUNHA .......................................................................... 118 
 
HACKEANDO DADOS ABERTOS NO BRASIL: motivações e práticas 
Marcelo Crispim da FONTOURA ............................................................................... 134 
4 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
 
SER E PERFORMAR NO CIBERESPAÇO 1.5: uploads sobre (re)criações de si 
para inclusão em uma cultura (popular) digital 
Márcio Henrique Melo de ANDRADE......................................................................... 150 
 
A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA MULHER NO DISCURSO PUBLICITÁRIO DE 
PRODUTOS DE BELEZA 
Paula Rickes VIEGAS; Tassia Azevedo Santos SOUZA............................................... 166 
 
FRATURAS PÓS-MODERNAS: corpo, prazer e sexualidade em LA Zombie, de 
Bruce Labruce 
Plynio NAVA................................................................................................................. 180 
 
A COMUNICAÇÃO DIALÓGICA E AS RELAÇÕES PÚBLICAS 
Priscilla COSTA ........................................................................................................... 194 
 
NARRATIVAS IMAGÉTICAS DA VIOLÊNCIA: dramatização da morte na 
mídia impressa da Amazônia Paraense 
Sergio do Espirito Santo FERREIRA JUNIOR............................................................. 211 
 
O BRASIL DE TODAS AS TELAS E SEU FINANCIAMENTO PELO FUNDO 
SETORIAL DO AUDIOVISUAL 
Thiago da Silva TAVARES............................................................................................ 230 
 
REFLEXÕES SOBRE PRÁTICA DE LOCUÇÃO A PARTIR DA DISSERTAÇÃO 
“A REPRESENTAÇÃO DO CAIPIRA NA UNESP FM” 
Wellington César Martins LEITE................................................................................. 244 
 
 
ENSAIO 
 
A ONIPRESENÇA DO RISCO: breves provocações teórico-analíticas 
Francisco Vieira da SILVA; Geilson Fernandes de OLIVEIRA ................................. 258 
 
 
ENTREVISTA 
 
ROBERTO TIETZMANN 
O papel da teoria crítica na contemporaneidade 
Ed Wilson ARAÚJO; Lucas Santiago Arraes REINO; Marco Antônio GEHLEN; Thaísa 
BUENO......................................................................................................................... 269 
 
 
5 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
RELATO DE PESQUISA 
 
 
PROJETO ÍTACA, FASE 1: Os monstros da mitologia grega na série de games 
Final Fantasy 
Lúcio REIS FILHO; Eric Alves DIAS........................................................................... 279 
 
RESENHA 
 
DES(EN)COBRINDO OS DESAFIOS E CAMINHOS DA PESQUISA 
CIENTÍFICA 
Elton Bruno Barbosa PINHEIRO ................................................................................ 289 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
6 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
A REPRESENTAÇÃO DE CRIANÇAS NEGRAS 
NOS COMERCIAIS DA “OI”: reflexos de um 
racismo velado 
 
Erika Acsa de Souza SANTOS
1
 
Tassia Azevedo Santos SOUZA
2
 
Alane Regina Rodrigues dos SANTOS
3
 
Renata Barreto MALTA 
4
 
 
 
RESUMO: Este artigo pretende discutir em que medida a publicidade representa 
crianças da raça branca e da negra de forma equitativa, considerando o espaço que 
ocupam em comerciais, tendo o corpus como base - vídeos publicitários 
randomicamente selecionados da empresa de telefoniaOI. Como método, utilizamos a 
análise de conteúdo. Apresentamos como hipótese que ainda existe uma discrepância no 
que se refere à representação racial na mídia, privilegiando brancos em detrimento de 
negros. Fundamentamos essa pesquisa em autores que discutem representação e mídia, 
especialmente a relação entre raça e meios de comunicação. 
PALAVRAS-CHAVE: Representação. Criança. Publicidade. Etnia e raça. 
ABSTRACT: This article intends to discuss in which level the advertising represents 
white and black children equally, considering the space they occupy in commercials, 
having the corpus as base – advertising videos randomly selected of the telephone 
company OI. As a method, it has been applied the Content Analysis. It has been 
presented as hypothesis that there is a discrepancy concerning the racial representation 
in media, privileging white over black people. This research has been based on authors 
who discuss media and representation, especially the relation between race and media. 
KEYWORDS: Representation. Child. Advertising. Ethnicity and race. 
 
 
1 
Graduanda em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda da Universidade Federal de 
Sergipe, e-mail: acsa53@gmail.com 
2 
Graduanda em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda da Universidade Federal de 
Sergipe, e-mail: tassia.azevedo@hotmail.com 
3 
Graduada em geografia com especialização em tecnologias educacionais, e-mail: alane-rs@hotmail.com 
4 
Doutora em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Professora efetiva do Curso de 
Publicidade e Propaganda da Universidade Federal de Sergipe. Professora permanente do PPGCOM - UFS, e-mail: 
renatamaltarm@gmail.com 
mailto:acsa53@gmail.com
mailto:tassia.azevedo@hotmail.com
mailto:renatamaltarm@gmail.com
7 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
1. Introdução 
“Durante muito tempo, o preconceito racial no Brasil foi totalmente 
escancarado, sem nenhuma restrição ou regulamentação. O negro não tinha os mesmos 
direitos que o branco.” (OLIVEIRA, 2010, p. 24). Nesta perspectiva, em pleno século 
XXI, a população afrodescendente brasileira ainda vivencia situações constrangedoras 
com relação à mídia televisa do Brasil. Em muitos casos, o “negro” ainda é tratado 
como inferior intelectualmente, economicamente pobre e muitas vezes fora do padrão 
estéticos de beleza. 
A importância da publicidade na sociedade moderna é cada vez maior. Se 
os veículos de comunicação adquirem em toda parte um lugar destacado e 
tornam-se imprescindíveis no cotidiano das sociedades, a publicidade 
veiculada pela mídia atualmente é uma poderosa força de persuasão que 
modela as atitudes e os comportamentos no mundo contemporâneo 
(SANTOS, 2009, p. 3). 
Em 1977 o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária (CONAR)
5
 
foi redigido com a intenção de regulamentar a publicidade brasileira, evitando abusos 
que de algum modo fossem prejudiciais ao mercado e à sociedade. Na Seção de 
Respeitabilidade, Art. 19 e 20
6
, lê-se que os anúncios devem ser feitos com caráter de 
respeito a todas as raças. Naturalmente, o racismo explícito é cada vez menos presente 
em produções culturais brasileiras, considerando tratar-se de crime previsto na lei. No 
entanto, pontuamos que um racismo camuflado, caracterizado pelas representações do 
negro na mídia por meio de imagens que o inferioriza, ou até pela ausência de 
representações, ainda é visível. 
Como exemplo, a Caixa Econômica Federal em 2011 veiculou uma propaganda 
com o título: “Caixa 150 anos” 
7
, no qual o escritor Machado de Assis é vivido por um 
ator branco, houve denúncias e foi fundamentada nos Artigos 1º, 3º, 6º e 50, letra "b" do 
Código. De acordo com a Caixa Econômica Federal, a propaganda tinha um intuito de 
homenagear o escritor que foi cliente da instituição, e que o ator branco foi selecionado 
pela sua semelhança física com Machado. A mesma se retratou, e refizeram a 
propaganda com um ator negro ocupando o papel do escritor Machado de Assis. 
 
5
 Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária. Disponível em: < http://www.conar.org.br/> 
6 
CAP. II - SEÇÃO 1 Respeitabilidade - Artigo 19: Toda atividade publicitária deve caracterizar-se pelo respeito à 
dignidade da pessoa humana, à intimidade, ao interesse social, às instituições e símbolos nacionais, às autoridades 
constituídas e ao núcleo familiar. Artigo 20: Nenhum anúncio deve favorecer ou estimular qualquer espécie de 
ofensa ou discriminação racial, social, política, religiosa ou de nacionalidade. 
7 
Disponível no site do CONAR, com Representação nº: 226/11. < http://www.conar.org.br/ > 
http://www.conar.org.br/
8 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
Partindo da premissa de que a publicidade é uma produção cultural a qual 
influencia a sociedade em diferentes graus, podemos afirmar que suas produções 
potencialmente refletem de algum modo nas atitudes e no comportamento das pessoas. 
Não está previsto em lei, nem mesmo regulamentado pelo código de ética (Conar), a 
obrigatoriedade de que a publicidade represente as diferentes etnias de forma igualitária, 
garantindo os mesmos espaços para brancos e negros na mídia. Desse modo, é frequente 
observar a ausência de personagens da raça negra em determinados espaços midiáticos, 
assim como sua imagem vinculada á criminalidade, a trabalhos subalternos e outras 
representações que subjugam seus representados. Neste sentido, para Santos, “a 
publicidade tende a caracterizar de modo ofensivo certos grupos particulares de 
pessoas, pondo-os numa situação de desvantagem em relação a outros. Isto se verifica 
com frequência no modo de representar a etnia negra nos veículos de comunicação” 
(SANTOS, 2009, p. 1). Assim, observamos um déficit de visibilidade e pouca 
representação dos afrodescendentes nos meios de comunicação em geral, uma vez que 
esse grupo étnico corresponde a maior parte da população brasileira
8
 que, devido a sua 
cor, classe social e estereótipos, são colocados em posição desfavorável pela mídia. 
Com base nessas considerações, a pesquisa tem como objetivos analisar a 
representatividade das crianças negras dos comercias da empresa OI, a partir de um 
corpus cuidadosamente selecionado. Para tanto, propomos identificar o número de 
propagandas que contém crianças afrodescendentes; descrever como ocorre a 
representatividade dessas crianças nos comercias que compõem o corpus, avaliando em 
que medida a identidade dessas crianças negras se apresenta em sua plenitude. Para 
atingir aos objetivos propostos, faremos uso, além da pesquisa bibliográfica de autores 
que discutam as relações entre raça e meios de comunicação, aplicaremos como método 
a análise de conteúdo do corpus. 
2 O racismo na publicidade contemporânea 
 
O Brasil é considerado por muitos estudiosos “um país multiétnico, 
caracterizado por intensa mestiçagem entre brancos europeus, índios, negros e 
asiáticos, mas também marcado pela colonização portuguesa e pela herança cultural 
de valorização do corpo branco e europeu em detrimento dos demais” (PEREZ, 2011, 
p. 72). 
 
8 
 Dados do SAE. Disponível em: < http://www.sae.gov.br/site/?p=11130 > 
9 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
Nesse sentido, percebe-se que para se entender a pouca representatividade do 
negro na mídia, é necessária uma compreensão mais profunda a respeito de como surgiu 
o racismono Brasil. Naturalmente, propomos aqui expor o tema de forma sucinta, com 
objetivos de contextualização, devido à sua amplitude e multidisciplinaridade. 
Vale ressaltar que tratar as dinâmicas da mídia frente às questões de raça e 
etnicidade é, em grande medida, discutir as matrizes do racismo no Brasil. “Os meios de 
comunicação são, por assim dizer, um caso-modelo de reprodução das nossas relações 
sociais” (RAMOS, 2002, p.9 apud NASCIMENTO,2012, p.74). 
 Corroborando com essa afirmativa, Barthes (1989) propõe que os conteúdos 
ideológicos nas mensagens de comunicação podem trazer danos para os telespectadores, 
visto que as ideologias ajudam a legitimar relações de exclusão e dominação social. Em 
outras palavras, o racismo presente na sociedade está refletido em suas produções 
culturais, como é o caso da publicidade e, ao mesmo tempo, o modo como as etnias 
estão representadas na mídia contribui para a manutenção da ideologia hegemônica, a 
qual, no Brasil, privilegia brancos em detrimento de negros. 
Segundo Mirian Leitão (2002, p.42) o nosso país ainda não deixou de ser racista, 
assim, nas propagandas, é visível a maneira como o negro é socialmente percebido: “A 
mídia sempre reflete o país. E nós optamos pela pior forma de racismo, o da 
invisibilidade. É como o país tem vivido desde o fim da escravidão: nós decidimos não 
ver o problema”. 
Da mesma forma, o registro branco do Brasil concorre também para a 
naturalização do racismo. Uma vez que a estereotipação/invisibilização 
do negro é constante nos espaços de representação simbólica, os discursos 
sociais acabam “disciplinados” de tal forma que ambos os grupos são 
incapazes de perceber a si próprios de maneira diferente à comumente 
apresentada. Torna-se, então, natural que os brancos figurem em posições 
de prestígio e os negros apareçam em posições subalternizadas, passando 
a desigualdade a ser vista como algo inato, normal, e não como uma 
faceta conflitante da sociedade que precisa ser pensada. (MARTINS, 
2011, p. 58). 
 
Afirmamos aqui, a partir das contribuições dos autores ora apresentados, que a 
invisibilidade também é uma forma de racismo camuflado. Como afirma Leitão (2002), 
essa forma de racismo é extremamente nociva por não ser direta e não encontrar 
ressalvas na lei. Não se trata de desrespeitar a imagem do negro, como em 
representações estereotipadas, mas simplesmente não retratá-lo nas produções 
midiáticas, o que se agrava ao se tratar de uma sociedade majoritariamente 
afrodescendente. 
10 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
Não podemos ignorar, no entanto, o fato de que a sociedade brasileira luta 
paulatinamente para ampliar as políticas de ações afirmativas que de fato promovam a 
igualdade racial no Brasil. Movimentos sociais atuam como protagonistas dessa causa 
nas diversas esferas sociais, cobrando respeito por parte da própria sociedade e exigindo 
direitos que compensem parte da desigualdade, como a política das cotas em 
universidades, por exemplo. Ainda assim, é aparente que muito ainda deve ser feito para 
que a disparidade racial deixe de ser uma realidade. Como bem afirma Lahni, 
É verdade que a realidade está se modificando, o problema é que essa 
mudança é muito lenta. Enquanto isso os afro-brasileiros que estão à 
margem da sociedade desde a abolição da escravatura (e durante a 
escravidão), agora continuam marginalizados nas favelas, com acesso 
precário ao estudo e emprego e também sem ser representados na 
sociedade (cargos político) e na mídia (jornalistas, atores e personagens 
que realmente identifiquem os afro-brasileiros). (LAHNI, 2007 p. 83). 
 
Com efeito, “quando precisam mostrar uma família, um jovem ou uma criança, 
todos os meios de comunicação social usam quase que exclusivamente o modelo 
branco” (BENTO, 2002, p.30). Seguindo esse raciocínio, 
Nota-se que é possível perceber um pequeno percentual de negros, em 
relação aos brancos, na mídia no Brasil, sobretudo no tocante à 
programação das redes de televisão e nas propagandas veiculadas de 
todas as formas. Esta incidência é bastante desproporcional, tendo em 
vista que esse segmento populacional representa metade da população 
brasileira (CHAVES, 2008, p.17). 
 
Assim, a maioria dos meios de comunicação faz uso de personagens brancos e, 
em contra partida, o negro aparece em um percentual pouco representativo, e quando é 
apresentado, aparece frequentemente retratado como coadjuvante, em posições 
rebaixadas, pobre, criminoso, empregado, dentre outras. No caso da publicidade, 
especialmente em produtos que demandam maior poder aquisitivo e marcas que 
habitam o imaginário do público como de prestígio, a imagem do negro é praticamente 
inexistente em suas produções. Ainda assim, de acordo com Chaves (2008, p.22), 
percebe-se que embora a presença do negro na mídia, de forma geral, seja muito 
pequena, estes já conquistaram, mesmo que minoritariamente, um espaço no atual 
mercado publicitário. 
É importante ressaltar, também, que muitas vezes quando os negros aparecem 
em jornais, moda, TV, revistas e comercias, é notório que sua identidade étnica não é 
11 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
autêntica. Esse processo pode ser considerado como um “branqueamento” da raça por 
meio de traços afinados, cabelos alisados, lentes de contato, e outros artifícios. Esse 
mecanismo, essencialmente simbólico, deforma a percepção social acerca do modelo de 
beleza, definindo padrões de forma tirana. Nas palavras de Chaves (2008), “seria 
desejável mostrar todas as raças de forma mais equilibrada, e que todas as pessoas se 
reconhecessem nesse meio, para não precisarem se espelhar em modelos idealizados de 
beleza” (CHAVES, 2008, p. 9). 
3 Empresa “OI” 
A “OI” é a terceira maior empresa do setor de telecomunicações na América do 
Sul, sendo conhecida anteriormente como Telemar 
9
, uma empresa concessionária de 
telefonia fundada em 1998 e que, a partir de 2007, passou a usar a marca Oi. Sua sede 
fica na cidade do Rio de Janeiro. Fazem parte nove acionistas que são os que 
atualmente detêm as ações da “OI” (empresas, fundos de investimentos, de pensão e 
bancos): a AG Telecom Participações S.A. com 12,9% das ações; o Banco Nacional de 
Desenvolvimento (BNDES) 13,05%; Bratel Brasil S.A. com 12,07%; Fundação 
Atlântico de Seguridade Social, com 11,51%, a Caixa de Previdência dos Funcionários 
do Banco do Brasil – Previ, com 9,69% diretos e 3,67% indiretos, a Fundação dos 
Economiários Federais (Funcef), que detém 7,48%, a Fundação Petrobras de Seguridade 
Social (Petros), que adquiriu em um leilão 7,48% de participação no grupo, 
Luxemburgo Participações, com a menor participação, 6,4% das ações ordinárias da 
empresa. 
Segundo dados
10
 é a maior operadora de telefonia fixa, a quarta maior operadora 
de telefonia móvel, além de oferecer uma gama de produtos como: serviços de telefonia 
fixa e móvel, transmissão de dados, acesso à internet em banda larga, provedor de 
internet e TV paga. Ademais, essa empresa, no ano de 2012, possuía 70 milhões de 
clientes e atualmente está presente em 27 estados brasileiros. Segundo informações 
obtidas no site da empresa, a “Oi” tem como clientes
11
 vários segmentos, sendo eles: 
indivíduos, domicílios e empresas e procura focar suas estratégias para cada um deles de 
maneira diferenciada. Por ser uma empresa de comunicação, prestando serviço de 
 
9 
 Abordagem sobre a Telemar disponível em: 
<http://monografias.ufrn.br:8080/jspui/bitstream/1/274/1/MarcioCA_Monografia.pdf> 
10 
 Dados disponíveis em: http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/america-movil-e-2a-maior-operadora-de-telefonia-fixa-do-pais Acesso em: 08 de Jan. 2015. 
11 
 No site da “Oi” contem a informação a repeito dos segmentos que ela tem como clientes, disponível em: 
<http://ri.oi.com.br/oi2012/web/conteudo_pt.asp?idioma=0&conta=28&tipo=43306> Acesso em: 08 de Jan. 2015. 
12 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
telefonia móvel e fixo, a “Oi” abrange um publico muito vasto e diversificado, já que 
nessa sociedade globalizada, interligada, as pessoas dependem de um telefone para se 
comunicar, aparelho esse que também garante acesso à internet. 
 
4 Abordagem da criança nas propagandas da “OI” 
Para Civita (1990), as crianças já eram expostas nas mídias desde o inicio do 
século XX, e é por causa do impacto emocional que podem causar no público que as 
empresas se utilizam delas para compor a propaganda. Essa estratégia de se utilizar das 
crianças é recorrente na atualidade, já que comumente a mesma está presente em 
propagandas, tendo sua imagem vinculada a produtos que inúmeras vezes não fazem 
parte do seu ambiente Para Giacomini (2002), “a criança, especialmente, carrega, além 
do apelo emocional, o peso de um senso comum, a respeito de que a criança é 
verdadeira, inocente, o que acrescenta à mensagem uma grande dose de credibilidade” 
(GIACOMINI FILHO apud PEREIRA, 2002, p.145). 
Assim, o símbolo do infante é arquetípico e atinge o público de forma 
inconsciente, já que habita o imaginário coletivo, representando pureza, alegria, 
inocência. Considerando a força desse arquétipo, muitas corporações, de vários 
segmentos, os quais não estão direcionados ao público infantil, como é o caso da OI, 
expõem crianças em seu comerciais de forma apelativa para compor suas campanhas, 
como afirmam Heldt & Schmidt (2010, p.54). 
Ao mesmo tempo, recorrer à imagem infantil não é apenas uma estratégia 
dos bancos, pois variadas empresas utilizam-se desse recurso. É possível 
listar redes de hotéis e resorts, empresas de telefonia, purificadores de 
água, fabricantes de automóveis, empresas estatais, ONGs, Governo 
Federal, Governos Estaduais, editoras de revistas, emissoras de televisão, 
grupos alimentícios e de bebidas, campanhas para doação de medula 
óssea, sistemas de educação e ensino, empresas que organizam 
workshops, fabricantes de cosméticos e redes que trabalham com aluguel 
de veículos. 
5 Análise de conteúdo 
O procedimento metodológico utilizado na elaboração deste trabalho foi baseado 
na revisão bibliográfica, aliado a uma etapa empírica baseada na análise de conteúdo. 
OLABUENAGA e ISPIZÚA (1989), definem a análise de conteúdo como uma técnica 
para ler e interpretar o conteúdo de toda classe de documentos, que analisados 
adequadamente nos abrem as portas ao conhecimento de aspectos e fenômenos da vida 
13 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
social de outros modos inacessíveis. 
Para Bardin (2011), o termo análise de conteúdo aponta 
Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando a obter, 
por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das 
mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência 
de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis 
inferidas) destas mensagens (BARDIN, 2011, p. 47). 
Aplicando o método, a pesquisa tem como objetivo constatar como a campanha 
publicitária da empresa “OI” representa as crianças na assinatura de suas peças 
publicitárias. Para tanto, selecionamos um corpus para análise. Adotamos como base 
(universo) o Canal da “Oi” no Youtube, especificamente as peças publicitárias 
disponíveis nessa mídia as quais apresentavam crianças na sua assinatura. Chegamos a 
um total de 227 peças. Considerando a dificuldade em analisar todo o universo, 
elencamos como amostragem 35 (trinta e cinco) vídeos randomicamente selecionados, 
já que estipulou-se, cientifica e estatisticamente, que para que uma amostra seja 
probabilística e generalizável é preciso que todos os membros da população do grupo a 
ser estudado tenham as mesmas chances de serem selecionados e que esta amostra seja 
formada por pelo menos 35 integrantes deste grupo, independentemente do tamanho da 
população inicial (universo) (AAKER, 2004). Seguimos, assim, as indicações de Aaker 
(2004) para a seleção dos vídeos analisados. Enumeramos todos os vídeos previamente 
catalogados disponíveis no Canal da empresa no YouTube (consultado em dezembro de 
2014) com o critério de ter ao menos uma criança finalizando o comercial. Realizamos 
um sorteio
12
, para esta prospecção, trinta e cinco. Asseguramos que o sorteio foi 
realizado apenas uma vez, e que todos os vídeos sorteados foram analisados, sem 
exceção. 
Foi através da análise de conteúdo quantitativa de peças publicitárias 
cuidadosamente definidas e selecionadas que buscamos compreender a estrutura do 
corpus, no sentido de identificar como o infante afrodescendente é representado. 
Questões como tipo de cabelo, cor dos olhos, formato do nariz foram levadas em 
consideração, assim como se a presença de crianças negras está equiparada à presença 
de crianças brancas nas produções analisadas. A partir dos dados quantitativos, 
propomos uma discussão dos resultados. 
 
 
12 
 Sorteio realizado por meio do site www.sorteador.com.br 
http://www.sorteador.com.br/
14 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
5.1. Análises 
Para responder às indagações elencadas no presente trabalho, partiremos para as 
análises ora propostas. É importante pontuar, aqui, nossa trajetória empírica. 
Primeiramente buscaremos compreender se a representação racial no corpus se dá de 
forma proporcional, considerando as diferentes etnias. Além disso, temos a intenção de 
analisar e observar como se caracteriza a representação das raças entre brancos e negros 
nas peças que compõem o corpus. Primeiramente observamos que todas as peças 
analisadas, no que se refere às crianças, estão basicamente dispostas em cinco formatos 
de comerciais, como veremos a seguir: 
1. Quatro crianças – todas brancas: 
 
Figura 1 – Grupo de crianças brancas. 
Fonte: https://youtube.com/watch?v=ReNWN21qZU 
2. Quatro crianças – uma negra e três brancas: 
 
Figura 2 – Grupo de crianças brancas com apenas uma negra. 
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=6NdyiAwUEAI 
 
3. Quatro crianças – uma asiática e três brancas:
 
https://youtube.com/watch?v=ReNWN21qZU
15 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
Figura 3 – Grupo de crianças brancas com apenas uma asiática. 
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=ZOlaru_MPU4 
 
4. Uma criança – branca: 
 
Figura 4 – Individual com uma criança branca. 
Fonte: https://youtube.com/watch?v=TECxKzf5RbI) 
 
 
5. Uma criança – negra 
 
Figura 5 – Individual com uma criança negra. 
Fonte: https://youtube.com/watch?v=2DXCxyP036Y 
 
Por meio da análise foi possível identificar 57 crianças brancas, 8 negras, e 6 
orientais, totalizando 71 crianças nos comerciais da empresa “Oi”, os quais compõem o 
corpus
13
. Sendo assim a porcentagem, em um universo de 100%, apenas 11,26% são 
negros, como apresentado no gráfico a seguir. 
 
 
13 
 Tabela completa da primeira análise em anexo I 
https://youtube.com/watch?v=TECxKzf5RbI
16 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015Figura 6 – Gráfico mostrando a quantidade de crianças identificadas no 
corpus divididas em raças. 
 Podemos perceber que esses dados quantitativos não se caracterizam como 
representativos, num pais onde os negros são maioria. Em uma pesquisa atualizada do 
IBGE (2010)
14
 os afrodescendentes totalizam 50,7% da população Brasileira. 
Observamos que, mesmo sendo maioria, esse grupo racial ainda continua sendo pouco 
representado na mídia, especificamente em produções publicitárias, baseando-nos no 
corpus de análise e em asserções de autores já bem pontuadas no decorrer dessa 
pesquisa. 
Percebemos, ainda, por meio das análises, que as crianças apresentadas nos 
anúncios são ora dispostas individualmente, ora dispostas em grupos, geralmente de 
quatro integrantes. Assim sendo, distinguimos essas duas formas de representação, 
considerando suas peculiaridades. 
No que se refere à presença do negro em grupos, observamos que entre as 60 
crianças protagonistas, 3 (três) são negras, o que, em porcentagem, significa meros 5%. 
Mais além, notamos a aparição de 13 (treze) grupos, sendo que 10 (dez) deles não 
exibem nenhuma criança da raça negra. Notamos que nesses três grupos o 
afrodescendente compõe um grupo onde três dos integrantes são brancos e apenas um é 
negro, reafirmando assim sua aparição nas propagandas apenas como cota. Vejamos as 
seguir demonstrações dessa disparidade: 
 
Figura 7 – Grupo de crinas brancas. 
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=wyJXyKJfRjM 
 
14
 IBGE - Estatística do Gênero disponível em: http://www.ibge.gov.br/apps/snig/v1/?loc=0&cat=-1,-
2,3,4,-3,128&ind=4707 
17 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
 
Figura 8 – Grupo de crianças com uma asiática. 
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=yy5YX7_T09k 
 
Figura 9 – Grupo de crianças com apenas uma negra. 
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=-2vxRuKB7uo 
Já quando é apresentado individualmente, dentre 22 (vinte e duas) propagandas 
exibidas com criança sozinhas, 2 (duas) são asiáticas, 2 (duas) negras. Assim, em sua 
avassaladora maioria crianças brancas protagonizam os comerciais analisados. 
Observamos, ainda, que uma das crianças negras possui traços de mestiçagem, como 
cabelos encaracolados, e não totalmente crespos e nariz afinado. 
 
Figura 10 – Menina com traços mestiços 
Fonte: https://youtube.com/watch?v=foUAb5tSH9I 
 
6 Conclusão 
 
 Ao longo da historia do Brasil o negro não foi valorizado na sociedade, reflexos 
https://youtube.com/watch?v=foUAb5tSH9I
18 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
do período escravocrata que ainda assola afrodescendentes. Baseando-nos na revisão 
bibliográfica, as produções midiáticas geralmente estereotipam os negros, associando 
sua imagem com frequência à criminalidade, às funções subalternas, inferiorizando-os. 
A invisibilidade é outra forma de desvalorizar o negro socialmente. Ao não representá-
lo em seu conteúdo, a mídia reforça a hegemonia que supervaloriza a raça branca. Para 
autores aqui apresentados, como Santos (2009) e Leitão (2002), a invisibilidade é uma 
forma de racismo velado, difícil de ser combatido por sua camuflagem. 
 No percurso empírico, analisamos o corpus composto por comerciais da “OI”, 
selecionados randomicamente, com o objetivo de verificar em que medida a presença de 
crianças brancas e negras nessas produções se dava de maneira equitativa. Constatamos 
que as observações de autores que discutem a mídia e suas representações, aqui 
apresentadas, confirmavam-se no corpus. A esmagadora maioria de personagens 
infantis apresentados nos vídeos era branca. Mais além, notamos que as poucas crianças 
negras eram distribuídas em grupos de infantes, sempre como minoria, caracterizando o 
que chamamos de “cota”. Em apenas dois casos observamos o total protagonismo da 
raça negra em comerciais analisados, considerando que estas crianças não estavam 
acompanhadas de outras e finalizavam sozinhas as peças. Ainda sim, pontuamos que em 
um dos casos, a criança escolhida possuía nitidamente traços da raça branca. 
Finalizamos pontuando que ainda que haja uma preocupação por parte do 
CONAR em exigir respeito a todas as raças em suas produções, não há nada que 
regulamente a equidade de representação étnica, garantindo espaço a negros e brancos 
de maneira igualitária. Entendemos que essa seria uma medida importante na luta contra 
o racismo no país. Reforçamos que essa pesquisa se apresenta relevante socialmente 
porque a manutenção da hegemonia se dá de forma horizontalizada e aculturada. Assim, 
pontuar a discrepância no que se refere à representação racial na mídia é uma forma de 
levantar o debate acerca do tema e desnaturalizar essas disparidades. 
 
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BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2009. 
 
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19 
 
 
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21 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
DO DIAL A WWW: A evolução do rádio a partir da 
noção de mídia. 
 
Bruna ALMEIDA
15
 
Ricardo FERNANDES
16
 
Polyana AMORIM
17
 
 
Resumo: Ao compreender que as mudanças atuais com o rádio não ocorrem por acaso, 
esta pesquisa se preocupa em destacar as mudanças que o rádio sofre até o atual cenário. 
A partir da noção de mídia, apresentamos uma trajetória que se sustenta em três fases. A 
primeira consiste na construção do rádio enquanto veículo massivo, a segunda, por sua 
vez, identifica os primeiros sinais de fragmentação da mídia, o que, sob certa ordem, 
prepara para a emergência da terceira fase, ambientada no cenário da convergência. 
 
Palavras-chave: Rádio; Mídia; Configurações; Produção; Consumo; Convergência. 
 
Abstract: By understanding that the current changes with the radio does not occur by 
chance, this research is concerned to highlight the changes that radio suffers to the 
current scene. From the media sense, it is presented a trajectory which is based on three 
phases. The first is the radio construction such as massive vehicle, the latter, in turn, 
identifies the first signs of fragmentation media, which, under certain order, preparing 
an emergence of the third stage, set in the convergence scenario. 
 
Keywords: Radio; Media; Changes; Production; Consumption; Convergence. 
 
1. Introdução 
O presente trabalho é fruto das discussões do Grupo de Pesquisa em Estratégias 
Audiovisuais na Convergência (G-PEAC) em seu projeto Rádio Web Híbrida. Na busca 
 
15
 Graduada em Comunicação Social - Rádio e TV pela Universidade Federal do Maranhão; estudante de pós-
graduação pela Universidade Estácio de Sá; Técnica do Laboratório de Rádio da UFMA; é membro integrante do 
Grupo de Pesquisa em Estratégias Audiovisual na Convergência - G-PEAC integrado ao Núcleo de Estudos e 
Tecnologia (NEEC-UFMA). Email:brunaalmeida87@gmail.com 
16
 Mestre em Comunicação pela UFPE. Membro do Grupo de pesquisa em Estratégias Audiovisuais na Convergência 
– GPEAC/UFMA, integrado ao Núcleo de Estudos e Estratégias e Comunicação – NEEC/UFMA. Email: 
fernandesricardo86@gmail.com 
17
 Mestre em Cultura e Sociedade pela UFMA. Professora do curso de Comunicação Social da UFMA. Membro do 
Grupo de pesquisa em Estratégias Audiovisuais na Convergência – GPEAC/UFMA, integrado ao Núcleo de Estudos e 
Estratégias e Comunicação – NEEC/UFMA. Email: polyana.amorim@gmail.com 
mailto:brunaalmeida87@gmail.com#_blank
mailto:fernandesricardo86@gmail.com
mailto:polyana.amorim@gmail.com
22 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
por entender melhor o rádio no cenário atual, o grupo problematiza a concepção do 
rádio em termos de produção e consumo para que, de maneira consequente, possamos 
constatar as mudanças ocorridas na atualidade. 
Um dos pontos de maior complexidade incide em como interpretar a 
convergência, especificamente, o significado de sua emergência. O fenômeno é definido 
por Jenkins (2008, p.27) como um processo “onde velhas e novas mídias colidem, onde 
a mídia corporativa e mídia alternativa se cruzam, onde o poder do produtor e do 
consumidor interage de maneiras imprevisíveis”. Posto isso, devemos assumir que a 
convergência simplesmente promove toda a transformação cultural nas mídias, sem 
qualquer tipo de questionamento? Em outras palavras, devemos avaliar a convergência 
dos meios como algo dado ou problematizá-lo frente à própria concepção das mídias? A 
primeira das opções trata-se de algo largamente feito pelas pesquisas, considerando suas 
atenções em averiguar os novos acontecimentos, eventos e fenômenos que germinam na 
atualidade. Contudo, sentimos a necessidade de confrontar a emergência deste cenário 
com a concepção que temos das mídias, algo que, certamente, colabora na compreensão 
do que vem ocorrendo com o rádio. 
Assim, a proposta que orienta este trabalho consiste em pensar a concepção do 
rádio através dos tempos. Na medida em que utilizamos a noção de mídia para avaliar a 
concepção de rádio, constatamos que sua adoção acaba por evidenciar uma trajetória 
evolutiva. De modo a sistematizar essa trajetória, organizamos todas as transformações 
do rádio a partir de três fases: a primeira fase consiste em descrever uma mídia em 
formação, como se davam suas produções, consumo, programação. A segunda, por sua 
vez, consiste em apontar os primeiros índices de mudanças na concepção do rádio, 
vistas a partir dos avanços tecnológicos e mutações na prática específica de seu 
consumo, mutações estas, que posteriormente, colaboram para a incursão da terceira 
fase que atualmente vivemos: a convergência. 
 
2 A NOÇÃO DE MÍDIA: o ponto de partida. 
 
Podemos compreender rádio de diferentes maneiras. Podemos assumi-lo como o 
aparelho responsável pela transmissão dos conteúdos radiofônicos, da mesma maneira 
que é possível entendê-lo como a empresa responsável por administrar toda uma cadeia 
produtiva. Por outro lado, a especificidade dessa cadeia produtiva, a maneira mais geral 
23 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
de produzir, bem como a conduta de consumo dessas produções, são igualmente 
designadas como rádio. O que nos mostra um impasse: Afinal, o que é rádio? Como 
entendê-lo frente a tantas acepções? 
Todas as acepções ditas, de fato, remetem o rádio. A primeira, por exemplo, 
descreve o dispositivo técnico de acesso, o aparelho rádio, utilizado para escolher as 
estações, os programas. A segunda, por sua vez, remete a indústria responsável por um 
modelo de negócio, pela sistematização de toda uma cadeia produtiva, da programação, 
ou seja, a emissora em si. A maneira escolhida para se expressar, a forma como se 
produz, remete a linguagem desenvolvida pelo meio. E, por fim, a última pontua o 
consumo, a prática social de ouvir os conteúdos radiofônicos. 
Uma maneira de condensar todos esses elementos indissociáveis ao rádio é 
compreendê-lo a partir da noção de mídia. Carlon (2008), ancorado na semiótica, 
compreende mídia comoa articulação de um suporte tecnológico aliado a uma prática 
social específica. A noção, além de fundamentar a forma como conceber o rádio 
epistemologicamente, ajuda a sistematizar a trajetória evolutiva da mídia radiofônica. 
Em outros termos, no instante em que tomamos rádio sob a noção de mídia, 
conseguimos mapear as transformações que ocorreram desde sua plataforma de acesso 
(dispositivo), sua forma de produzir (indústria), de se expressar (linguagem) e consumir 
(prática social). O que viabiliza a construção de uma abordagem capaz de sistematizar a 
evolução da mídia radiofônica ao longo dos tempos, algo que o presente trabalho 
produz. 
É preciso, contudo, atentar que as fases evolutivas do rádio a serem apresentadas 
nas próximas linhas não devem ser entendidas como descontinuidades, afinal, não há 
completas rupturas de uma fase para a emergência de outra. As fases, portanto, tratam-
se, apenas, de um recurso pedagógico, de uma maneira de apresentar as modificações 
com o rádio que vão se acumulando e se sobrepondo ao longo da evolução da mídia. 
 
FASE 1: O rádio e a construção de um veiculo massivo 
 
A fase que aqui será apresentada esboça um rádio com propriedades específicas, 
desenhadas por um cenário de uma mídia em formação. A isso, somam-se a novidade, o 
impacto e a emergência de uma prática social que surge com a mídia radiofônica no 
início do século XX. Sua plataforma de acesso, o aparelho rádio converter-se em um 
24 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
artigo de luxo, onde aqueles que o possuíam, posicionava-o na sala de modo a promover 
a reunião social. No Brasil, a maioria das rádios tinha o nome de “rádios clubes”, pois 
atendiam a esquemas de associações por parte de seus ouvintes. Os conteúdos 
produzidos pelas rádios, por consequência, atendiam aos interesses do público que 
financiava sua programação. 
Dito isso, destacamos dois pontos: o envolvimento do público na produção dos 
conteúdos midiáticos e o desenho de programação voltada para atender exclusivamente 
a esses interesses. Havia, de fato, uma participação efetiva do ouvinte que, aos poucos, 
foi direcionada ao posto de receptor, se pensarmos conforme o modelo tradicional de 
comunicação. 
Um dos motivos dessa mudança na forma como o ouvinte se envolvia nos 
conteúdos das rádios ocorreu com a entrada de investimentos publicitários nas 
emissoras que, de um lado, representou a profissionalização e modernização dos 
estúdios, mas, de outro, eliminou o sistema de rádios clubes custeadas pelos próprios 
ouvintes. Entretanto, a entrada da publicidade nas rádios ajudou a mídia se tornar 
massiva e a dirigir seu conteúdo a um público maior e menos segmentado. 
A configuração social e os acontecimentos que circunscrevem a emergência 
dessa prática colaboram decisivamente para a construção da concepção do rádio. A 
relação que se estabelece quem é doutrina e quem é doutrinado, contribui para o 
fortalecimento do discurso massivo, fundada no consumo simultâneo de um mesmo 
conteúdo, no mesmo dado momento de sua transmissão, que se organiza em um fluxo 
articulado e ininterrupto de conteúdos sistematizados em uma grade de programação. 
As rádios tornaram-se comerciais, o número de emissoras cresceu e o número de 
consumidores se expandiu. Agora, as rádios buscam atingir novos públicos. Com o 
barateamento do aparelho, esse quadro de consumo mudou e já no final da década de 30 
e por toda a década de 40, o rádio apresenta uma programação pautada no 
entretenimento com humorísticos, radionovelas e programas de auditório em sua grade 
de programação. 
 
FASE 2: Os primeiros sinais da fragmentação 
 
Os primeiros sinais da fragmentação do rádio podem ser constatados com os 
avanços tecnológicos de cada período, promovendo assim um processo gradual de 
25 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
transformação. O surgimento da televisão, nos anos 50, retira a hegemonia do rádio 
enquanto mídia de entretenimento. A concorrência da mídia televisiva leva o rádio a 
investir em mudanças. A invenção do transistor
18
, por exemplo, traz portabilidade ao 
consumo radiofônico, modificando de modo consequente o seu consumo. Assim, a 
prática específica, obrigatoriamente doméstica e coletiva, passa a dividir espaço com 
uma prática individual e móvel. 
 
O processo de transistorização tem um impacto na forma do consumo do 
rádio que deixa de ter uma audição coletiva familiar e passa a incorporar 
além da mobilidade, a escuta individual que amplia a ideia do rádio como 
simulação do diálogo direto com o ouvinte, a partir do momento que o 
consumo deixa de ser feito em grupo. (KOSHNNAM; FREIRE; LOPEZ, 
2011, p. 06) 
 
 Outra inovação por parte do rádio consiste em sua linguagem. Se a forma como 
os consumidores podem ouvir o rádio passa a se ampliar, nada mais coerente que as 
produções radiofônicas acompanhem esse processo. O surgimento da modalidade FM
19
 
figura entre uma das inovações que colaboram para um reordenamento da concepção de 
rádio. A nova possibilidade de faixa de transmissão orienta as empresas a segmentarem 
seus conteúdos: a faixa FM destina-se a emissoras que investem em uma programação 
de entretenimento, enquanto a AM passa a investir em programas noticiosos. 
 
(...) surge o rádio popular com uma programação baseada na 
coloquialidade de seus comunicadores, no sucesso fácil das músicas 
veiculadas, na constante prestação de serviços – não raro descambando 
para o assistencialismo – e na exploração do noticiário policial; (2) para 
um público de até 25 anos, das classes A e B, de nível, pelos padrões da 
época, secundário8 ou universitário, começa a surgir na segunda metade 
dos anos 1960 o rádio musical jovem, que se consolida ao longo da 
década de 1970; e (3), explorando o sempre necessário acesso à notícia e 
se beneficiando da abertura política, começam a se constituir emissoras 
dedicadas ao jornalismo e focadas, em especial, no público adulto, das 
classes A e B e com acesso ao ensino médio e/ou superior. Estas últimas 
vão aproveitar a transistorização por outro viés, o da irradiação ao vivo no 
palco de ação dos fatos. Simulando uma conversa, o ouvinte ganha, em 
cada um destes segmentos, respectivamente, um tipo diferenciado de 
 
18
 O transistor foi criado em 1947 nos Estados Unidos. Trata-se de um dispositivo eletrônico que permitiu o 
desenvolvimento de aparelhos radiofônicos independentes de eletricidade, com seu funcionamento sendo mantido 
por pilhas (Ferraretto, 2000). 
19
 O surgimento da FM (frequência modulada) permitiu ao rádio ter mais qualidade na transmissão do sinal, porém 
o alcance era menor, mais localizado. Enquanto a AM (amplitude modulada) tem maior alcance e menor qualidade 
do sinal. Em função disso, as rádios transmitidas na frequência modulada investiram em programação de 
entretenimento, principalmente com foco em programações musicais com pouco espaço para notícia. Já as AM 
ficaram com programações mais informativas, onde o comunicador passa horas comentando fatos do cotidiano. A 
participação do ouvinte por telefone começa também a crescer nesse novo modelo de rádio AM, enquanto que nas 
rádios FM sua participação fica limitada a promoções e concursos culturais (Ferraretto, 2012). 
26 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
interlocutor virtual: o comunicador popular, o disc-jóquei ou o âncora. 
(FERRARETO, 2012, p. 14-15) 
 
Aliado a segmentação de conteúdo nas faixas AM e FM, a evolução dos 
dispositivos de consumo radiofônico,como aparelhos de rádio em pilha, autorrádios, 
walkman, discman e microsystems, reafirmam a emergência de outras práticas de 
consumo, caracterizadas por uma certa individualização e dispersão. O ouvinte de rádio 
em posse de dispositivos que permitem a gravação do áudio começa a gravar e 
compartilhar, por exemplo, seleções de músicas, mixtapes
20
, tal quais as figuras dos 
locutores. Essa conduta acaba por prenunciar o que, posteriormente, veio se firmar com 
a cultura do download e as plataformas streaming
21
. 
 
FASE 3: Rádio no cenário da convergência 
 
A trajetória mais recente das mídias, de um modo geral, nos conduz a verificar 
que a segunda fase não comporta mais as transformações sofridas. Para Scolari (2009) o 
advento da convergência promove uma verdadeira “promiscuidade” midiática, 
obrigando as mídias massivas, como a TV, o rádio e os impressos, a se adaptarem ao 
surgimento de uma nova mídia. 
 
A internet é aquela que fornece uma série de ferramentas para as pessoas 
usarem na recuperação de informações e comunicação individual, grupal 
e de massas, contudo, o diferencial mais significativo entre as mídias 
tradicionais e as redes de computadores do tipo internet talvez esteja 
centrado na possibilidade desta última produzir experiências interativas, 
criando novas configurações entre fontes, mensagens e receptores dessas 
novas tecnologias digitais de comunicação. (DECEMBER, J. The 
Mythsand Realities of World Wide Web Publishing). 
 
Em termos da noção de mídia, o rádio, bem como as demais mídias, passa a ter 
uma variedade de plataformas de acesso e práticas nada específicas. O rádio, neste 
momento, passa a se endereçar a um consumidor que navega pela internet, e como tal, 
está acostumado com práticas que exijam competências cognitivas, interpretativas e 
associativas distintas do consumo tradicional de outrora. 
 
20
 Mixtapes eram nomes dados às coletâneas de músicas gravadas em fitas cassetes. Existiam tanto as mixtapes 
oficiais, lançadas pelas gravadoras, como existiam também às não-oficiais criadas por dsj e ouvintes que as 
compartilhavam. 
21
 Atualmente, existem mais de 10 plataformas de consumo de conteúdo por streaming, seja em vídeo ou áudio. A 
prática consiste em consumir determinado bem cultural sem precisar downloadear o arquivo para o computador. 
27 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
A cultura participativa, o cenário para onde todos os meios e conteúdos 
convergem, expande as possibilidades produtivas e de consumo, consequentemente. No 
caso da mídia radiofônica há um investimento cada vez maior em sites que 
retransmitam sua programação, aplicativos para plataformas móveis, assim como a 
produção de outros conteúdos associados. A rádio Jovem Pan é um bom exemplo desse 
tipo de investimento
22
. Além de seu site e aplicativo próprio para celular, a emissora fez 
acordo com o aplicativo de comunicação Viber. Os consumidores podem interagir com 
a emissora através do aplicativo, enviando mensagens, fotos ou vídeos; acompanhando 
os conteúdos produzidos para esta plataforma em seus grupos abertos, como notícias e 
novidades da programação; e, por fim, pelos grupos abertos dos principais programas da 
rádio como ‘Morning show’, ‘Pânico’ e ‘Missão Impossível’, promovendo uma espécie 
de conversação paralela às transmissões dos programas
23
. 
Assim, se antes o consumo específico do rádio não orienta produções que 
envolvam textos, imagens, conversações ou mesmo conteúdos audiovisuais, hoje, isso 
não se aplica. Castells (2002) concorda, no instante em que diz que o rádio vive um 
momento de renascimento, quer seja através das ondas eletromagnéticas, quer seja por 
meio das redes informacionais e com as possibilidades tecnológicas, ao desenvolver 
uma identidade particular. O rádio, nessa fase, pode ser multilíngue, nômade, com 
formas e conteúdos variados, o que altera, definitivamente, a relação de produção, 
circulação e consumo com o ouvinte. 
Na medida em que o cenário da cultura participativa orienta as produções 
midiáticas apreende, também, as produções de conteúdos por parte dos consumidores 
que, em sua maioria, são desenvolvidos a partir dos veículos midiáticos. Neste sentido, 
podemos exemplicar as rádios produzidas pela audiência, as playlist’s em sites 
especializados, entre outros. Além de produzir conteúdos multiplataformas, a mídia 
passa a estimular e incorporar as produções de seus ouvintes, convertendo-os em 
produtores. Com isso, rompe-se a antiga separação entre produtores e consumidores de 
mídia, como ocupantes de papeis distintos, considerando que passam a interagir nesse 
cenário que estabelece “um conjunto de regras, que nenhum de nós entende por 
completo” (JENKINS, 2008, p. 30). 
 
22
 http://jovempan.uol.com.br/noticias/ouvinte-da-jovem-pan-pode-se-comunicar-pelo-viber-agora-saiba-
como.html 
23
 O grupo G-PEAC entende a possibilidade de conversação com a emissora e\ou seus programas como algo 
semelhante ao que acontece com a TV Social, algo a ser melhor explorado em outro trabalho. 
28 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
Por fim, avaliamos que o rádio passa a discursar para uma geração que nasce e 
cresce navegando na web, manuseando softwares e jogos com desenvoltura ímpar. A 
forma encontrada para isso sistematiza-se por meio da produção de conteúdos 
radiofônicos que exijam do consumidor engajamento e competências especificas 
da prática de consumo nas mídias digitais. Esta forma torna-se mais evidente quando 
percebemos estrategias enunciativas com propriedades como a não linearidade, 
hipertextualidade, e simultaneidade de conteúdos e informações dispersas em distintas 
plataformas midiáticas. 
 
3 Considerações finais 
 
Como vimos, a emergência de um novo cenário pelas mídias digitais traz como 
consequência mais geral a fragmentação e autonomia cada vez maior dos consumidores. 
Assim, aquele rádio moldado pelo sistema broadcasting convive com outra identidade 
em que seus usos não são tão claramente precisos. Esta crise de identidade na mídia 
radiofônica é provocada por essas novas possibilidades que ampliam as experiências de 
consumo e provocam a reestruturação nos modos de produção. 
O conteúdo passa a ser o elemento chave para pensar a reconfiguração do rádio, 
sobretudo na maneira mais geral de pautar experiências de interatividade (PRIMO, 
2007) ancorada na cultura participativa em plataformas como redes sociais e aplicativos. 
Frente a tudo que foi dito, e comparando a fase atual com as anteriores, 
constatamos que o rádio, atualmente, deve ser pensado, pelo menos, a partir de três 
vetores: a interatividade, a oferta de conteúdos por demanda e sua articulação com 
outras plataformas/mídias. 
Esses vetores são diretamente responsáveis por tencionar uma trajetória 
midiática atrelada ao acompanhamento das transmissões da programação, algo tido de 
forma mais evidente nas fases um e dois. 
 
 
 
 
 
 
29 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
REFERÊNCIAS 
 
CARLÓN, Mario; SCOLARI, Carlos (orgs.). El fin de los medios masivos. El comienzo 
de un debate. 1. ed. Buenos Aires: Ediciones La Crujía, 2009. 
 CARLÓN, Mario. Autopsia a la televisión. Dispositivo y linguaje em el fin de uma era. 
In: El fin de los médios massivos. El comienzo del debate. Buenos Aires: La crujía, 
2008. Disponível em: 
<http://www.fba.unlp.edu.ar/medios/biblio/Carlon_el_fin_de_los_medios_masivos.pdf>
. 
Acesso:25.mar. 2014. 
DECEMBER, J. The Myths and Realities of World Wide Web Publishing CMC 
Magazine. May, 1997. Disponível em: 
http://www.december.com/cmc/mag/1997/may/december.html. 
FERRARETO, Luís. Uma proposta de periodização para a história do rádio. Eptic 
online, Sergipe: 2012. Disponível em: 
http://www.seer.ufs.br/index.php/eptic/article/view/418. Acesso em: 10.02.2015. 
FERRARETTO, Luiz Artur. Rádio: o veiculo, a historia e a técnica. Porto Alegre: Sagra 
Luzzatto, 2000. 
KOCHNNAM, Roseli; FREIRE, Marcelo; LOPEZ, Débora. Rádio: evolução 
tecnológica e a evolução dos dispositivos. Anais do 8º Encontro Nacional de História da 
Mídia. Guarapuava, PR, 2011. 
JENKINS, Henry. Cultura da convergência, Trad. S. Alexandria. São Paulo: Aleph, 
2008. 
JOST, François. Novos comportamentos para antigas mídias ou antigos 
comportamentos para novas mídias? Revista Matrizes, Vol, 4, N.2. 2011. Disponível 
em: <http://revistas.univerciencia.org/index.php/MATRIZes/article/view/7994/7390>. 
Acesso: 02 ago.2013. 
PRIMO, Alex. O aspecto relacional das interações na Web 2.0. E- Compós (Brasília), 
v. 9, p. 1-21, 2007. 
 
 
30 
 
 
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1964-2014: O CINQUENTENÁRIO DE UMA 
NARRATIVA JORNALÍSTICA SOBRE O GOLPE 
CIVIL-MILITAR NO BRASIL24 
 
Camila Garcia KIELING
25
 
 
RESUMO: Em 2014 completou-se o cinquentenário do golpe civil-militar de 1964 no 
Brasil. O jornal Folha de S.Paulo testemunhou os acontecimentos em 1964, conviveu 
com a ditadura e chegou a 2014 como o diário de maior circulação no país. Neste artigo, 
realizamos um exercício interpretativo e comparativo que toma como recortes as 
narrativas desse jornal sobre o golpe em 1964 e sua releitura na ocasião do 
cinquentenário em 2014. Em 1964, a Folha idealizou um mundo de progresso através 
do apagamento dos conflitos políticos, favorecendo a solução autoritária. Em 2014, 
justifica sua atuação através de estratégias de objetivação, em uma narrativa baseada na 
exploração do conceito de democracia. 
 
PALAVRAS-CHAVE: Comunicação Social. Imprensa. Golpe de 1964. Folha de 
S.Paulo. 
 
ABSTRACT: In 2014 the 1964 Civil-Military Coup d’État which placed Brazil under a 
dictatorship that lasted 21 years completed its 50
th
 anniversary. Folha de S.Paulo (FSP) 
is a newspaper that reported not only the 1964 event but also experienced the 
dictatorship over the years and has come to 2014 as the largest circulation daily in the 
country. The purpose of this article is to analyze the newspaper’s narratives of the 1964 
coup and its reinterpretations of the event 50 years later. In 1964, Folha pictured a 
world of progress by obliterating the political conflicts, supporting the authoritarian 
solution. In 2014, it justifies its own acting using objectification strategies, producing a 
narrative based on the exploitation of democracy concept. 
 
KEYWORDS: Social Communication. Press. 1964 Coup d’état. Folha de S.Paulo. 
 
24 
Versão modificada de trabalho apresentado no GT de Historiografia da Mídia do 10º Encontro Nacional de 
História da Mídia (Alcar), Porto Alegre, 3 a 5 de junho de 2015. 
25 
Doutoranda em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Mestre 
em Comunicação Social pela mesma instituição. Bolsista Capes/Prosup. E-mail: camila.kieling@acad.pucrs.br. 
31 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
1. Introdução 
 
As efemérides são ocasiões oportunas para debater assuntos que, mesmo não 
gratos, merecem ser lembrados e discutidos. Em 2014 completou-se o cinquentenário do 
golpe civil-militar que colocou o Brasil sob uma ditadura que durou 21 anos (1964-
1985). A ocasião teve ampla repercussão midiática, não apenas pelo marco histórico em 
si, mas também pelos múltiplos desdobramentos desse evento no presente: o fato da 
presidente Dilma Rousseff ser ex-presa e perseguida política da ditadura; a investigação 
da Comissão Nacional da Verdade sobre as violações aos Direitos Humanos por parte 
de agentes do Estado ocorridas no período de regime militar; as manifestações de junho 
de 2013, além de um quadro de acirramento das disputas políticas no país. 
A atuação da imprensa no golpe de 1964 é ainda importante objeto de pesquisa. 
A passagem do tempo abre novas perspectivas, tanto do ponto de vista histórico quanto 
comunicacional, especialmente sobre veículos que testemunharam os fatos à época e 
seguem ativos e influentes meio século depois
26
, como é o caso de nosso objeto de 
análise neste artigo, o jornal Folha de S. Paulo (FSP). 
Diversos e qualificados estudos já demonstraram a adesão da grande imprensa 
brasileira, inclusive do jornal Folha de S. Paulo, ao movimento golpista que destituiu o 
presidente João Goulart. Apesar da memória institucional e dos próprios jornalistas 
tentarem consolidar uma visão contrária ou amenizada, o fato é que a maior parte da 
imprensa brasileira disse sim ao golpe, como demonstram as pesquisas de Abreu (2004), 
Amado (2008), Barbosa (2007), Chammas (2012), Kushnir (2004), Larangeira (2014), 
Machado da Silva (2014), entre outros. Cinquenta anos depois do golpe, o 
posicionamento da Folha é ainda marcado por um tom de justificativa, acalentado por 
um olhar peculiar do presente em relação ao passado e pela atualização de recursos 
narrativos operados em 1964. 
Assim, nosso objetivo neste artigo é analisar a narrativa jornalística da FSP em 
sua relação com o tempo, realizando um exercício interpretativo e comparativo que 
toma como recortes as narrativas sobre o golpe em 1964 e sua releitura na ocasião do 
cinquentenário em 2014, agora sob uma perspectiva não apenas jornalística no sentido 
de cobertura diária de acontecimentos, mas de narrativa ancorada no presente. 
 
26
 A FSP é o jornal de maior circulação e audiência do Brasil, de acordo com o Instituto Verificador de Circulação – 
IVC 2014, com circulação média de 341.553 edições, sendo 117.721 digitais. 
32 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
Em termos metodológicos, consideramos a narrativa jornalística como narrativa 
do cotidiano, mediadora das ações no tempo, organizadora da experiência entre o 
passado, o presente e o futuro: “O jornalismo observa o mundo desde o atual, ancora 
seu relato no presente para relatar o passado e antecipar o futuro. Opera uma mediação 
que é, ao mesmo tempo, linguística e temporal” (MOTTA, 2005, p. 9). Nesse sentido, o 
texto é ponto de partida, mas não perdemos de vista o fato de que ele só produz sentidos 
na relação com atores históricos humanos e com o contexto: 
 
O texto e suas significações são apenas os nexos entre a produção e o 
consumo, entre o ato de enunciar e o ato de interpretar (atos de alguém, 
de algum sujeito). São apenas a forma que assume a relação entre atores 
humanos históricos. Concebemos a análise da narrativa como caminho 
rumo ao significado porque o significado é uma relação, não há 
significado sem algum tipo de troca (MOTTA, 2005, p. 3). 
 
A dimensão do público leitor é fator inseparável da origem dos jornais: por 
maiores que sejam as ambições empresariais, um jornal não se constitui sem dialogar 
com o público em uma perspectiva ampla, desde os leitores comuns, passando pelos 
grupos políticos, econômicos e o governo. Não foi diferente com a Folha. O surgimento 
da empresa Folha da Manhã S.A. dá-se com o vespertino Folha da Noite, que começa a 
circular em 19 de fevereiro de 1921. Os fundadores são um grupo de colegasegressos 
do já estabelecido O Estado de S. Paulo. Editorialmente, a publicação procura ocupar o 
lugar deixado pelo Estadinho, folha vespertina que desapareceu após a Primeira Guerra 
Mundial, dedicando-se a uma linguagem mais coloquial, com destaque para assuntos 
locais. Pilagallo (2002, p. 17) descreve da seguinte forma a orientação política do jornal 
quando da sua fundação: “O texto de apresentação do novo jornal, redigido por Julio de 
Mesquita Filho, defendia uma linha flexível que comportasse mudanças de opinião”. 
Com capital e estrutura bastante restritos, era um jornal pequeno, com oito 
páginas. Buscava, através do humor, da sátira e da ironia, aproximar-se de seu público-
alvo, a classe média urbana de São Paulo. Exemplo disso é o personagem Juca Pato, 
criado em 1925 pelo redator de política Lellis Vieira e pelo cartunista Belmonte 
(Benedito Carneiro Bastos Barreto): “Baixinho, careca, óculos de tartaruga, fraque, 
polainas e gravata-borboleta, Juca Pato representa o cidadão paulista de classe média 
em seus anseios e reivindicações” (BELMONTE, 2013). Seu bordão era: “Podia ser 
pior”. 
33 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
O início da década de 1960 foi de profundas mudanças na Empresa Folha da 
Manhã. A primeira delas foi aglutinação dos três títulos editados pelo grupo (Folha da 
Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite) em um só, sob o nome Folha de S.Paulo, em 
1º de janeiro de 1960. Em 13 de agosto de 1962, a empresa é comprada por Otávio Frias 
de Oliveira e Carlos Caldeira Filho, que assumem sua direção. O grupo assume uma 
postura administrativa mais agressiva e muda o sistema de distribuição, conquistando o 
público do interior e transformando-se no jornal de maior circulação paga no Brasil já 
em 1963 (MOTA; CAPELATO, 1980). 
Pilagallo (2002) afirma que a gestão de Octavio Frias de Oliveira e Carlos 
Caldeira Filho pode ser entendida em dois ciclos: o primeiro, de reestruturação 
financeira, vai de 1962 a 1967; o segundo, de investimento em tecnologia, entre 1968 e 
1974. José Nabantino Ramos, proprietário anterior à gestão Frias-Caldeira, relacionou o 
sucesso financeiro da Folha com sua capacidade de adaptação ao cenário econômico do 
país à época, de alta da inflação: 
 
O processo inflacionário que culminou, no Brasil, de 1962 a 1964, 
arruinou as finanças dos jornais mal administrados em razão da excessiva 
elevação dos custos. Mas, de outro lado, fez a fortuna dos jornais 
razoavelmente geridos, porque se os custos subiram muito, os preços da 
venda do jornal e da publicidade subiram mais ainda. [...] com a inflação, 
mudou a condição econômica da atividade jornalística. Se antes o preço 
da venda avulsa não pagava sequer o papel ocupado pela redação, agora 
paga-o com larga sobra. A expansão da distribuição passa a ser proveitosa 
imediatamente, na venda de cada exemplar, deixando de constituir o ônus 
de outrora, a ser coberto a longo prazo, pelo aumento de anúncios. 
(RAMOS apud MOTA e CAPELATO, 1980, p. 186-7) 
 
Podemos dizer, assim, que a Folha foi um jornal que se desenvolveu e 
consolidou como negócio durante a ditadura militar, regime com o qual teve uma 
relação de adesão, como demonstra o texto do jornalista Oscar Pilagallo, publicado no 
próprio caderno comemorativo aos 90 anos do jornal, completos em 2011: 
 
A Folha apoiou o golpe militar de 1964, como praticamente toda a grande 
imprensa brasileira. Não participou da conspiração contra o presidente 
João Goulart, como fez o "Estado", mas apoiou editorialmente a ditadura, 
limitando-se a veicular críticas raras e pontuais. 
Confrontado por manifestações de rua e pela deflagração de guerrilhas 
urbanas, o regime endureceu ainda mais em dezembro de 1968, com a 
decretação do AI-5. O jornal submeteu-se à censura, acatando as 
proibições, ao contrário do que fizeram o "Estado", a revista "Veja" e o 
carioca "Jornal do Brasil", que não aceitaram a imposição e enfrentaram a 
censura prévia, denunciando com artifícios editoriais a ação dos censores. 
34 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
As tensões características dos chamados "anos de chumbo" marcaram esta 
fase do Grupo Folha. A partir de 1969, a "Folha da Tarde" alinhou-se ao 
esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que 
exaltavam as operações militares. 
A entrega da Redação da "Folha da Tarde" a jornalistas entusiasmados 
com a linha dura militar (vários deles eram policiais) foi uma reação da 
empresa à atuação clandestina, na Redação, de militantes da ALN (Ação 
Libertadora Nacional), de Carlos Marighella, um dos 'terroristas' mais 
procurados do país, morto em São Paulo no final de 1969. 
Em 1971, a ALN incendiou três veículos do jornal e ameaçou assassinar 
seus proprietários. Os atentados seriam uma reação ao apoio da "Folha da 
Tarde" à repressão contra a luta armada. 
Segundo relato depois divulgado por militantes presos na época, 
caminhonetes de entrega do jornal teriam sido usados por agentes da 
repressão, para acompanhar sob disfarce a movimentação de 
guerrilheiros. A direção da Folha sempre negou ter conhecimento do uso 
de seus carros para tais fins. (PILAGALLO, 2011 – grifos do original) 
 
 
Os dois primeiros ciclos citados anteriormente, o financeiro e o tecnológico, 
prepararam a empresa para a mudança editorial quando os militares ensaiavam o início 
da abertura do regime. “A distensão com que o governo acenava coincidiu com o 
momento em que a empresa se encontrava equilibrada e modernizada – pronta para 
passar a cuidar da redação” (PILAGALLO, 2002, p. 139). Apoiando o projeto de 
abertura política, a reformulação é capitaneada por Cláudio Abramo: “Contratou 
jornalistas identificados com posições combativas – Alberto Dines, responsável pela 
reforma do Jornal do Brasil, e Paulo Francis, polêmico articulista de O Pasquim, entre 
outros – e abriu a Folha à sociedade civil” (p. 140). Nesta etapa, as relações da FSP 
com os militares nem sempre transcorreram com tranquilidade, como atesta a prisão do 
cronista da Folha, Lourenço Diaféria, em agosto de 1977. 
A Folha foi um dos jornais que melhor soube ressignificar suas relações o 
passado militar. A ênfase no engajamento na campanha pela Lei da Anistia e pelas 
Diretas Já e as estratégias publicitárias dos anos 1980 e 90 foram marcantes para a 
consolidação de sua imagem como um veículo moderno, independente, imparcial, 
apartidário. É exemplo disso o famoso comercial “Hitler”
27
, de 1987, marcado pelo 
slogan “Folha, o jornal que mais se compra, e o que nunca se vende”. A face encoberta 
de sua relação com os militares vem sendo desmontada pela pesquisa acadêmica e 
dentro do discurso do próprio jornal ao longo dos anos 2000, como vimos no texto de 
2011, no qual a FSP admite o golpismo e o colaboracionismo, e como veremos na 
 
27 
 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nd9R7ZxhjJ8. Acesso em: 25 abr. 2015. 
https://www.youtube.com/watch?v=nd9R7ZxhjJ8
https://www.youtube.com/watch?v=nd9R7ZxhjJ8
35 
 
 
Rev. Cambiassu, São Luís, v.15, n.17, julho/dezembro 2015 
 
análise da cobertura do cinquentenário do golpe, em 2014. Antes disso, discutiremos 
alguns pressupostos teóricos que nortearão nossa análise. 
 
2. Jornalismo: dramas e tramas do cotidiano 
 
Motta (2005) sugere seis movimentos para a análise da narrativa jornalística: 
1. Recomposição da intriga ou do acontecimento jornalístico; 
2. Identificação dos conflitos e da funcionalidade dos episódios; 
3. Construção de personagens jornalísticas; 
4. Desvendamento

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