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Linguística Básica - Trilha de Aprendizagem TODAS

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Breve percurso histórico da linguística 
 
Antiguidade Clássica até a Gramática de Port-Royal 
 
O primeiro passo que inicia o percurso, mesmo que breve, da história da linguística não começa na 
sua emancipação enquanto ciência no início do século XX a partir de Ferdinand de Saussure. Na 
verdade, desde muito tempo atrás, o ser humano já se indagava acerca da natureza da linguagem. 
 
Assim, de acordo, com Lyons (2008) e Mattoso Câmara Jr. (1975), um dos principais marcos das 
primeiras investigações sobre a linguagem pode ser encontrada na obra “Crátilo”, de Platão. Nela, 
escrita a partir dos famosos diálogos platônicos, o filósofo apresenta uma discussão entre dois 
pensadores: Crátilo e Hermôgenes. 
 
Basicamente, o primeiro argumentava que as coisas possuem um nome natural, ao passo que o 
segundo defendia que isso não passava de uma convenção, por um acordo prévio (PLATÃO, 1973). 
Todavia, essas abordagens eram mais de cunho filosófico e metafísico. 
 
Essa abordagem filosófica impulsionou, na época, um estudo o qual se objetiva “[...] estabelecer uma 
relação entre linguagem e lógica, buscando sistematizar, através da observação das formas 
linguísticas, as leis de elaboração do raciocínio” (CUNHA, COSTA, MARTELOTTA, 2010, p. 25). 
 
Os gramáticos tradicionais se preocuparam mais ou menos exclusivamente com a linguagem literária, 
padrão; e tendiam a desconsiderar ou a condenar como “incorreto” o emprego de formas não 
consagradas ou coloquiais, tanto no falar como no escrever. Com frequência, deixavam de 
compreender que a linguagem padrão é, de um ponto de vista histórico, tão somente o dialeto regional 
ou social que adquiriu projeção, tornando-se o instrumento da administração, da educação e da 
literatura. 
 
Assim, os estudos sobre a linguagem, por um bom tempo, ficaram praticamente centrados na 
formulação das gramaticais, principalmente, as de caráter normativo. 
 
Ao você ler normativo, associe-o com norma, ou seja, considerar um modo de se falar uma língua 
como paradigma, algo valorizado, correto e que deve ser seguido pelos usuários de um idioma. 
 
Da antiguidade até a Idade Média, a maioria dos estudos gramaticais giravam em torno das línguas 
latinas e grega. Já na transição do medievo para a época moderna, começou o período da formação 
das nações europeias. Em virtude disso, as línguas nacionais também passaram a ser estudadas: 
 
No Renascimento, começaram a surgir gramáticas das línguas vernáculas (Gramática de la lengua 
castellana, de Antonio de Nebrija, 1492; Gramática da linguagem portuguesa, de Fernão de Oliveira, 
1536; a gramática de João de Barros, 1540), mas fortemente inspiradas nas gramáticas clássicas de 
até então (AZEVEDO, apud SPERANÇACRISCUOLO, 2014, p. 20). 
 
Porém, em 1660, foi elaborada uma gramática a qual se diferenciou das anteriores. Com base no 
racionalismo francês e nas pesquisas de René Descartes, surgiu a Gramática de PortRoyal 
(Grammaire générale et raisonnée de Port-Royal). 
 
Escrita por Antoine Arnauld e Claude Lancelot, essa gramática 
 
[...] representa um corte epistemológico e uma ruptura com o modelo latino. Surge como resposta às 
insatisfações com a gramática formal do Renascimento. Inicia-se a busca do rigor científico, na 
ruptura com o método das gramáticas anteriores (RANAURO, 2003, p. 253). 
 
Isto é, em vez de se buscar analisar e estruturar uma forma ideal de se manifestar uma língua, esse 
estudo teoriza os princípios e normas ideais que regem todas as línguas, bem como explicar a 
associação entre linguagem e pensamento do ser humano, porém com uma postura científica ainda 
incipiente. 
 
Portanto, nesta primeira fase, os estudos sobre a linguagem, mas ainda não linguísticos, enfocaram o 
aspecto gramatical das línguas, objetivando descrever e apregoar as regras e normas de uma forma 
de se falar e de escrever uma língua. 
 
Aproveitando esse momento, convidamos você a refletir sobre uma questão: será que os estudos da 
gramática tradicional ainda existem nos dias de hoje? Se sim, são do mesmo jeito, ou apresentam 
formas diferentes? 
 
O Comparativismo Histórico 
 
Até a gramática de Port-Royal no século XVII, os estudos da linguagem praticamente eram centrados 
nas formulações de gramáticas. Porém, gradativamente, houve uma mudança desse paradigma, 
porque, a partir do século XVIII, passou-se a estudar a evolução delas. 
 
Em 1768, Sir Willians Jones apresentou à Sociedade Asiática de Bengali um discurso denominado 
“On Hindus”, o qual era baseado em seus estudos sobre o sânscrito (LYONS, 2008). 
 
Sânscrito é uma língua da região do Nepal e da Índia, além de ser empregada nos textos sagrados 
hindus. 
A partir de seu discurso, Jones mostrou na época uma série de similaridades entre as línguas antigas, 
no caso, o latim, o grego, o persa e o próprio sânscrito. Tal descoberta não só trouxe um alvoroço na 
época por comprovar que existia um parentesco entre idiomas de diferentes continentes, como 
também revolucionou a maneira de se estudar as línguas e, por sua vez, os estudos da linguagem da 
época. 
 
De um modo geral, a pesquisa de Jones era baseada na observação de palavras de diferentes línguas 
a partir do seu nível fonético e morfológico, a fim de identificar semelhanças e diferenças ocorridas 
ao longo do tempo. 
 
Em outras palavras, a pesquisa dele foi feita por meio de um método comparativo-histórico. 
 
Na visão de Weendwood (2002, p. 103), 
Concorda-se em geral que a mais extraordinária façanha dos estudos linguísticos do século XIX foi 
o desenvolvimento do método comparativo, que resultou num conjunto de princípios pelos quais as 
línguas poderiam ser sistematicamente comparadas no tocante a seus sistemas fonéticos, estrutura 
gramatical e vocabulário, de modo a demonstrar que eram “genealogicamente” aparentadas. 
 
Aproveitando ainda a fala de Weendwood (2002), queremos destacar outros desdobramentos 
causados pelo surgimento do método comparativo-histórico. Um deles é de que foi constatado que as 
línguas mudam de fato ao longo do tempo de modo sistemático e também geográfico, 
independentemente dos seres humanos que as falam. 
 
Além disso, essas, por mudarem constantemente, tinham um caráter orgânico, característica advinda 
das influências do darwinismo da época. Outra consequência é a de pesquisadores da época se 
empenharem em procurar a chamada “proto-língua”, ou seja, a língua mãe a qual originou todas. 
 
Um exemplo desse tipo de investigação linguística pode ser encontrado em Lyons (2008, p. 145): 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura - Exemplo de estudo linguístico a partir do método comparativo-histórico. | Fonte: Lyons 
(2008, p. 145). 
Somado a isso, existiram outros pesquisadores de destaque na época os quais eram adeptos do método 
comparativo-histórico, como Friedrich Schlegel, August Schlegel, Ramus Rask, J. Adelung, Wilhelm 
Von Humboldt, August Schleicher, Hermann Steinthal. 
 
Por conseguinte, nesta segunda fase, os estudos da linguagem passaram a ter uma natureza filológica, 
ou seja, estudar o desenvolvimento de um idioma baseado em documentos históricos. 
 
Os Neogramáticos 
 
Já no final do século XIX, hegemonia dos estudos comparativos-históricos nos estudos linguísticos 
encontrou o seu auge. Todavia, isso começou a mudar, principalmente, com o surgimento dos 
Neogramáticos. 
 
Nas universidades alemãs, vários estudos sobre os idiomas germânicos e escandinavos começaram a 
aparecer, porém, diferentemente dos comparativistas - históricos, esses pesquisadores olhavam os 
idiomas fazendo um recorte temporal presente, isto é, as “línguas vivas atuais” (FARACO, 2005, p. 
140), e não mais a partir da sua evolução. 
 
Somado a isso, esses também começaram a incluir fatores individuais dos falantes, a fim de observar 
quais são os aspectos que regulam as alterações nas línguas. Aliás, de todos os níveis de uma língua, 
o fonético é o mais