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Linguística Básica - Trilha de Aprendizagem TODAS

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do conhecimento. 
 
Em primeiro lugar, vamos nos recordar qual é a definição de Saussure acerca da linguagem. Para ele, 
 
[...] a linguagem é multiforme e heteróclita; um cavaleiro de diferentes domínios, ao mesmo tempo 
física, fisiológica e psíquica, ela pertence além disso ao domínio individual e ao domínio social; não 
se deixa classificar em nenhuma categoria de fatos humanos, pois não se sabe como inferir sua 
unidade. (SAUSSURE, 2012, p. 17). 
 
Assim, ela é muito ampla e diversa, atravessando inúmeros aspectos e níveis. Inclusive, vale ressaltar 
que tal afirmação é coerente, uma vez que existe a linguagem musical, a das artes plásticas e visuais 
etc. 
 
Mas o que é a língua? Para nós, ela não se confunde com a linguagem; é somente uma parte 
determinada, essencial dela, indubitavelmente. É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade 
de linguagem e um produto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o 
exercício desta faculdade nos indivíduos (SAUSSURE, 2012, p. 17). 
 
Desta forma, o objeto da linguística é estudar a linguagem humana em seu caráter verbal, isto é, a 
língua. 
 
Esse fato nos leva a uma possível definição da linguística: 
 
A Linguística Pura de Saussure é constituída por todas as manifestações da língua humana, sem 
considerar apenas a linguagem correta, mas sim todas as expressões” (SILVA; CASTRO, 2017, p. 
36). 
 
Dialogando com as pesquisadoras anteriores, Martinet complementa a definição, dizendo que a 
linguística é o estudo científico da linguagem humana. Diz-se que um estudo é científico quando se 
baseia na observação dos fatos e se abstém de propor qualquer escolha entre tais fatos, em nome de 
certos princípios estéticos ou morais. ‘Científico’ opõe-se a ‘prescritivo’. No caso da linguística, 
importa especialmente insistir no caráter científico e não prescritivo do estudo (MARTINET, 1978, 
11). 
 
É por isso que é atribuído a paternidade da linguística enquanto ciência a Saussure e não aos estudos 
sobre a linguagem antes dele, como é o caso das gramáticas gregas e dos neogramáticos, os quais 
buscavam estudar uma língua e prescrever uma forma ideal e tida como correta, muito menos aos 
comparativistas-históricos cujo objetivo era descrever e comparar idiomas ao longo do tempo, mas 
em um viés filológico. 
 
Porém, devemos nos lembrar que a linguística é uma ciência relativamente nova, com pouco mais de 
100 anos. E, desde a sua fundação, o seu objeto de estudo foi se expandindo, à medida que outras 
teorias foram sendo desenvolvidas. 
 
Sobre esse fato, é relevante nos recordarmos da fala de Cabral (2014, p. 88) no que diz respeito à 
pluralidade de teorias linguísticas: 
 
É de suma importância que cada vez mais teorias façam parte da linguística, para que cada recorte 
feito possa ser aprofundado, abdicando do todo, mas detendo-se com atenção especial a sua teoria e 
seu respectivo objeto. 
 
Cada teoria linguística, portanto, acaba criando um novo recorte de pesquisa em relação à vasta e 
plurifacetada linguagem humana. 
 
Aliás, ficou curioso para saber como isso é feito? Então veja os tópicos que virão a seguir: 
 
O objeto de pesquisa do Gerativismo 
 
O Gerativismo, como você viu anteriormente, pesquisa a capacidade humana de gerar e entender uma 
língua a partir do viés inatista, isto é, tirando os casos patológicos, todos nascemos com uma aptidão 
natural de falar uma língua. 
 
Considerando isso, segundo Vitral (1992, p. 69) o Gerativismo, 
 
[...] vai se ocupar, privilegiadamente, da sintaxe das línguas, mas não é a sintaxe das línguas seu 
objeto de estudo. A sintaxe das línguas é apenas um meio para se descrever uma entidade teórica 
chamada de Gramática Universal. Este é o objeto de estudo da Gramática Gerativa. 
 
Com o intuito de detalhar a Gramática Universal, foram desenvolvidos outros dois conceitos, os 
princípios e os parâmetros. Assim, todos esses elementos estão ligados ao objeto de estudo do 
Gerativismo. 
 
A fim de ilustrar melhor tal objeto, vamos empregar o exemplo do termo sintático sujeito. 
 
1. Carlos saiu agora 
2. Charles left new 
 
A sentença (1) é da língua portuguesa e a sentença (2) é da língua inglesa. 
 
A segunda é a tradução da primeira. Contudo, observem que, sintaticamente, ambas são iguais, isto 
é, estão ordenadas a partir do sujeito > verbo> complementos. 
 
Agora, notem o outro exemplo: 
 
3. Gabriela falou que vai se casar 
4. Gabriela said that she is going to get married 
 
Novamente, a sentença (3) é da língua portuguesa e a sentença (4) é da língua inglesa, sendo que a 
segunda é a tradução da primeira. Todavia, notem que a segunda oração na sentença (3) possui o 
sujeito oculto (que vai se casar). 
 
Já em (4), a segunda oração possui sujeito manifestado por meio do pronome “she” (she is going…). 
Isso se deve, porque, na língua inglesa, sempre deve haver a manifestação do sujeito. 
 
Em função disso, segundo a afirmação de Kenedy (2010, p. 137), o “princípio” as propriedades 
gramaticais que são válidas para todas as línguas naturais, ao passo que “parâmetro” deve ser 
compreendido como as possibilidades [...] de variação entre as línguas. 
 
Nesse viés, um princípio das línguas é de que existe o termo sintático “sujeito”, o qual interage com 
o “verbo” e com o “complemento”. Por decorrência disso, o parâmetro é que o sujeito pode não 
aparecer em algumas sentenças do português, mas sempre vai se manifestar no inglês. Logo, tais 
aspectos integram uma parte da Gramática Universal gerativista. 
 
O objeto de pesquisa da Sociolinguística 
 
A Sociolinguística, de acordo como foi exposto anteriormente, é uma teoria linguística a qual pesquisa 
a língua dentro de uma comunidade específica de falantes, analisando os elementos linguísticos e 
sociais e também enfocando nas denominadas variantes. 
 
Desta forma, para Luchessi e Araújo (2016, p. 71), o objeto de estudo da Sociolinguística é os padrões 
de comportamento linguístico observáveis dentro de uma comunidade de fala e os formaliza 
analiticamente através de um sistema heterogêneo, constituído por unidades e regras variáveis. 
 
Considerando isso, vamos te mostrar um exemplo de objeto de pesquisa desse ramo da linguística: 
 
Na língua Portuguesa falada no Brasil, manifestar a palavra que designa a terceira pessoa do discurso 
pode ser feita a partir de mais de uma forma: 
 
Variante 1 - Nós pescamos o peixe. 
 
Variante 2 - A gente pesca o peixe. 
 
Ou ainda. Na língua Portuguesa falada no Brasil, pronunciar a palavra “nós” pode ocorrer de duas 
formas diferentes: 
 
Variante 3 - Nós [n′os] “nós”. 
 
Variante 4 - Nós [ n′oiz] “nóiz”. 
 
Note que a manifestação da unidade linguística “nós” pode ocorrer de duas formas distintas em 
relação ao nível fonético da língua, ou seja, ao som. 
 
Já a manifestação da unidade linguística “terceira pessoa do discurso”, também pode ocorrer de duas 
formas possíveis, ou seja, a partir do “nós” e do “a gente. Esse aspecto, por sua vez, está no nível 
morfológico, ou seja, no nível da palavra. 
 
Nesse viés, o sociolinguista registra essas variantes, no geral, isso é gravado, trata o material, 
contabiliza a frequência disso e observa quais elementos extralinguísticos estão relacionados a tais 
manifestações, ou seja, qual grupo social fala mais uma variante e não outra, qual é a mais bem aceita, 
qual é estigmatizada, qual gênero tal variante é mais recorrente etc. 
 
Aliás, ressaltamos que a sociolinguística não julga qual dessas variantes é a melhor, é a forma ideal a 
ser usada pelos falantes da língua portuguesa, diferentemente da gramática normativa tradicional. 
 
Objeto de pesquisa da Linguística Textual 
 
Relembrando brevemente sobre a Linguística Textual, essa é a vertente da linguística que se ocupa a 
estudar os fenômenos linguísticos associados ao texto, ou seja, os fatores de produção, de recepção e 
de interpretação