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Linguística Básica - Trilha de Aprendizagem TODAS

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coletividade sob a forma duma soma de sinais depositados em cada cérebro, mais ou 
menos como um dicionário cujos exemplares, todos idênticos, fossem repartidos entre os indivíduos. 
Trata-se, pois, de algo que está em cada um deles embora seja comum a todos e independente da 
vontade dos depositários (SAUSSURE, 2012, p. 27). 
 
Um exemplo disso são as diversas línguas naturais que existem no mundo, como o português, o 
italiano, o tupi, o krenak etc 
 
Figura 7 – A dicotomia Língua 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Nesse viés, a Língua (Langue) é coletiva, sendo um tesouro depositado em cada mente humana. 
Devido ao ser caráter coletivo, ela é um fenômeno compartilhado por todos os usuários do idioma. 
 
Portanto, se ela tem essa singularidade, os elementos que a compõe se comportam de maneira 
sistemática e homogênea. 
 
Dialogando com Saussure (2012), Silva (2011, p. 39) afirma que 
 
[...] a língua faz a unidade da linguagem, ficando no âmbito da homogeneidade e do abstrato, sem 
considerar a exterioridade. O objeto da linguística é uma língua na qual se possam examinar as 
relações sistêmicas, abstraindo-se totalmente o uso. 
 
É interessante também pontuar as características de sistematicidade, homogeneidade e coletividade 
que a língua tem em sobreposição ao falante que a usa. Para Costa (2012, p. 116), a existência da 
língua 
 
[...] decorre de uma espécie de contrato implícito que é estabelecido entre os membros dessa 
comunidade. Daí seu caráter social. Para Saussure, o indivíduo, sozinho, não pode criar nem 
modificar a língua. 
 
Desta forma, um falante apenas não consegue alterar o sistema de uma língua, fato muito similar a 
questão da arbitrariedade do signo, conforme foi estudado no tópico passado. Esse fato, inclusive, é 
muito recorrente com algumas crianças, quando estão aprendendo a desenvolver uma língua. 
 
Em alguns momentos, elas inventam palavras próprias, contudo, isso não se sustenta diante da 
unidade do idioma o qual elas estão aprendendo. Sobre isso, você já se deparou, ou conhece alguém 
que teve essa experiência? 
 
Agora, veremos o outro lado da Língua, que é a Fala (parole). Essa nada mais é do que a realização 
individual da sua outra metade, ou seja, a execução da língua “[...] jamais é feita pela massa; é sempre 
individual e dela o indivíduo é sempre senhor, nós a chamaremos fala (parole)” (SAUSSURE, 2012, 
p. 21). 
 
Indo ao encontro do mestre genebrino, Costa (2012, p. 116) nos diz que a Fala 
 
Trata-se, portanto, da utilização prática e concreta de um código de língua por um determinado falante 
num momento preciso de comunicação. Em outras palavras, é a maneira pessoal de utilizar esse 
código. Daí o seu caráter individual. De acordo com Saussure, a língua é a condição da fala, uma vez 
que, quando falamos, estamos submetidos ao sistema estabelecido de regras que corresponde à língua. 
 
Um caso que pode ilustra isso é a palavra “você” na Língua Portuguesa. No Português, para se referir 
a outra pessoa com quem se fala, utilizamos “você”. 
 
(1) “Você saiu” = alguém que não está falando fez a ação de sair. 
 
Agora, imagine que a palavra “você” pode ser dita de várias na língua portuguesa, como se vê abaixo: 
(2) “Você” / “ocê” / “cê” 
 
Então, (1) é representa a língua (langue), ao passo que (2) é a fala (parole). No primeiro caso, essa 
palavra é um exemplo de unidade que compõe a estrutura da Língua Portuguesa, logo, é uma 
característica homogênea. Já o segundo caso contém manifestações individuais da unidade anterior, 
por sua vez, é uma característica heterogênea. 
 
A partir desse exemplo, somos levamos a uma consequência teórica que muito marcou o 
estruturalismo saussureano. Como a fala é aplicada individualmente e de modo heterogêneo, é 
inviável estabelecer uma unidade, muito menos sistematizá-la, diferentemente, da língua, a qual é 
possível formar uma estrutura. 
 
Por isso que o mestre genebrino elegeu a língua enquanto objeto de estudo da linguística, porque: 
 
Em sua concepção, a língua faz a unidade da linguagem, ficando no âmbito da homogeneidade e do 
abstrato, sem considerar a exterioridade. O objeto da linguística é uma língua na qual se possam 
examinar as relações sistêmicas, abstraindo-se totalmente o uso (SILVA, 2011, p. 39). 
 
A língua e a fala coexistem no dia a dia comunicativo dos falantes, todavia, para Saussure (2012) o 
estudo da linguística deve privilegiar a primeira em detrimento da segunda. 
 
Aliás, por essa opção teórico-metodológica, “[...] excluía[se] a subjetividade na linguagem, as 
unidades transfrásticas, as variedades linguísticas, o texto, as condições de produção, a história” 
(SILVA, 2011, p. 39). 
 
De igual maneira, segundo Ferigolo (2009, p. 74), também foi desconsiderado o sujeito enquanto 
falante, pois, 
 
Nesse sistema, não há lugar para o estudo do sujeito, já que ele é apenas o usuário da língua, cujo 
funcionamento não depende dele – a língua já está dada e não cabe a ele alterá-la ou criticá-la, mas 
das relações criadas e mantidas entre os signos linguísticos que a constituem. 
 
Essa postura teórica gerou, futuramente, questionamentos e contestações de outras vertentes da 
ciência da linguagem, a exemplo da Pragmática. Na visão de Halliday (1978 apud SILVA, 2011, p. 
45-56), o elemento “sujeito” cumpre um papel fundamental na comunicação, pois 
 
[...] os interlocutores desempenham funções nas diversas situações comunicativas em que estão 
envolvidos. Essas funções acabam influenciando o próprio sistema da língua, pois a comunicação, 
inserida em contextos diversos, requer do falante a utilização de expressões que sejam adequadas a 
cada situação 
 
Assim, a partir do que foi exposto, podemos fazer um quadro que resume essa dicotomia saussuriana: 
 
DICOTOMIA LÍNGUA X FALA 
 
 
 
Todavia, um fato precisa ser frisado, uma vez que muitas pessoas acabam fazendo uma pequena 
confusão no que tange à concepção de Saussure da sobreposição da língua em detrimento da fala. 
 
A fim de solucionar isso, Costa (2012, p. 116) afirma que 
 
Isso não significa que se possa estudar a língua independentemente da fala, uma vez que, entre os 
dois objetos, existe uma estreita ligação: a língua é necessária para que a fala seja compreensível e 
para que o falante, consequentemente, possa vir a atingir os seus propósitos comunicativos: por outro 
lado, a língua só se estabelece a partir das manifestações concretas de cada ato linguístico efetivo. 
Assim, a língua é, ao mesmo tempo, o instrumento e o produto da fala. 
 
Conceituar a Diacronia e a Sincronia 
A terceira dicotomia que estudaremos diz respeito à diacronia e à sincronia. Porém, antes de as 
conceituarmos, é interessante relembrarmos uma parte da na unidade anterior, a qual focou na 
trajetória linguística. 
 
Na época em que Ferdinand de Saussure iniciava suas pesquisas em meados do séc. XIX, dois ramos 
de estudos sobre a linguagem imperavam no continente europeu: os comparativistas-históricos e os 
neogramáticos. 
 
Na perspectiva dos comparativistas-históricos, 
 
As investigações passaram a ter como um de seus principais objetivos o agrupamento dessas línguas 
em famílias [...]. Entre essas famílias, temos a indo-europeia, que reúne, entre outras, a maior parte 
das línguas europeias, assim como as línguas do chamado grupo indo-irânico, como o persa e o 
sânscrito, língua sagrada utilizada pelos hindus nos cerimoniais religiosas há cerca de 1.220/800 a.C. 
(COSTA, 2012, p. 117). 
 
Ou seja, esse tipo de estudo da linguagem pré-saussuriano objetivava identificar semelhanças entre 
línguas, a fim de estipular o grau de parentesco ao longo do tempo sob uma ótica histórica, além de 
buscar a “língua mãe” denominada indo-europeu. 
 
Ademais, é nesse período que surge a ideia de tronco linguístico, ou seja, existe uma língua base, 
tronco, a partir da qual partem as ramificações, as diversas línguas derivadas.