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1 CONHECIMENTO COMUM

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1 CONHECIMENTO COMUM, CONHECIMENTO TEOLÓGICO E CONHECIMENTO FILOSÓFICO
 Primeiramente, tratemos de entender o que vem a ser conhecimento e sua importância. Podemos dizer que conhecer é ter noção de algo. Assim, o conhecimento tem início com a informação sobre determinado assunto ou situação. Podemos dizer também que o conhecimento se inicia pelo vivenciar, pela curiosidade. Ele tem origem, desse modo, na curiosidade, na vontade de ir além do que se sabe, do que se está vendo ou daquilo com o que se está tomando contato. Trata-se de desvendar, decifrar, decodificar. Segundo Matallo Jr. (2000, p. 13),
a preocupação com o conhecimento não é nova. Praticamente todos os povos da Antiguidade desenvolveram formas diversas de saber. Entre os egípcios a trigonometria, entre os romanos a hidráulica, entre os gregos a geometria, a mecânica, a lógica, a astronomia e a acústica, entre os indianos e muçulmanos a matemática e a astronomia, e entre todos se consolidou um conhecimento ligado à fabricação de artefatos de guerra. As imposições derivadas das necessidades práticas da existência foram sempre a força propulsora da busca dessas formas de saber.
 O conhecimento começa a ser obtido a partir da leitura, da convivência com amigos, da escola e dos grupos sociais dos quais fazemos parte. A observação, os sentidos, o raciocínio, a tradição e, por que não dizer, a família também são fontes de conhecimento. Nossas relações sociais são ainda uma excelente fonte de informação (por exemplo, o convívio familiar, afetivo, nas relações de trabalho, nos bancos escolares, nos bate-papos informais com amigos).
Figura 1 – A leitura é uma das principais fontes de conhecimento. Permite conhecer diversos assuntos e ter contato com diferentes linguagens. Livros, revistas, jornais, pôsteres, fôlderes – qualquer tipo de mídia impressa e não impressa – possibilitam o acesso a miríades de informações inimagináveis
Todas essas opções podem ser consideradas fontes de conhecimento e estão associadas a diferentes formas de pensar, agir e explorar ideias e assuntosNo entanto, fica a dúvida:
Qual a diferença entre a fala de um cientista que afirma que a temperatura da Terra vem aumentando de forma sistemática e a fala de um indivíduo que, independentemente de ter ou não formação acadêmica, discorda do aquecimento global? Qual a diferença entre a busca de respostas para a origem do mundo e a busca de respostas para a finalidade da vida humana? Qual a diferença entre atribuir a existência do mundo a um ser superior, criador e onipresente, e entender que o mundo se constituiu a partir de uma sucessão de improváveis eventos?
 Veremos agora, portanto, as características do conhecimento comum, do conhecimento filosófico e do conhecimento teológico.
 1.1 Conhecimento comum
 De acordo com Santos (1989), o conhecimento comum é elaborado a partir das nossas opiniões e daquilo que os nossos sentidos captam, não estando sujeito a qualquer tipo de crítica ou verificação. Quando alguém diz: “Acho que vai chover”, não há nesse enunciado qualquer força de verdade, qualquer compromisso com a verdade. Quando alguém diz: “Aquela estrada parece perigosa”, tampouco há nessa fala qualquer indício de certeza; aliás, o que é perigoso para mim, pode não sê-lo para outra pessoa. Em contrapartida, a ciência busca romper com o distanciamento entre o que é dito e a realidade à qual o dito se refere. Como afirma Santos (1989, p. 35), “o abandono dos conhecimentos do senso comum é um sacrifício difícil. A observação científica é sempre uma observação polêmica e, por isso, a teoria [é construída] contra um conhecimento anterior”.
Vejamos: para desconstruir a afirmação “Acho que vai chover”, um cientista pode apresentar o histórico de precipitações pluviais nos últimos dias, ou no mesmo período em anos passados; caso os dados mostrem uma probabilidade grande de ocorrência de chuva, ele poderá dizer: “Há X% de probabilidade de chover no dia de hoje”, ou “Há Y% de probabilidade de não chover no dia de hoje”. É possível perceber, portanto, a diferença entre afirmar que vai chover e prever chuva dentro de determinados parâmetros de probabilidade: a primeira afirmação é usual no contexto do senso comum; a segunda, no contexto do mundo científico.
Podemos realizar o mesmo procedimento em relação ao enunciado sobre o perigo da estrada. Um cientista partiria, inicialmente, da definição de perigo: o que representa perigo na estrada? Número de acidentes fatais? Número de desabamentos? Em qualquer dos dois casos, bastariam os dados de ocorrência de acidentes na estrada para confirmar ou negar a afirmação realizada no âmbito do senso comum. Aliás, essa afirmação poderia ser negada se associássemos perigo a outra variável: teríamos então uma situação em que, caso perigo fosse representado por número de acidentes fatais, seria possível afirmarmos ser a estrada perigosa; caso perigo significasse número de curvas acentuadas, poderíamos negar ser a estrada perigosa. Marconi e Lakatos (2003, p. 76) confirmam essa abordagem com outro exemplo:
Saber que determinada planta necessita de uma quantidade X de água e que, se não a receber de forma “natural”, deverá ser irrigada pode ser um conhecimento verdadeiro e comprovável, mas nem por isso científico. Para que isso ocorra, é necessário ir mais além: conhecer a natureza dos vegetais, sua composição, seu ciclo de desenvolvimento e as particularidades que distinguem uma espécie de outra.
O senso comum não é universal. Ele depende das condições sociais e históricas de cada grupo social.
Segundo Santos (2008), o senso comum é, essencialmente, um saber prático, que é gerado no fazer e que necessita ser pragmático. Ele serve para que possamos dar sentido às situações que nos são apresentadas a todo momento e agir diante delas. Assim, ele resulta das experiências da comunidade – ou dos grupos sociais –, que lhe dão corpo e significado. Europeus e brasileiros têm opiniões diferentes a respeito da educação dos filhos. No Brasil, os hábitos e costumes diferem de estado para estado, de cidade para cidade. Em consequência, o senso comum não é universal, e depende das condições sociais e históricas de cada grupo social.
O senso comum é superficial. É a consciência diante dos objetos da natureza que faz com que ele seja constituído. O senso comum não se preocupa em teorizar ou apresentar provas que o ratifiquem. Agimos no dia a dia sem qualquer compromisso com a teoria, apenas guiados pelos nossos instintos e por esse saber prático que nos diz o que fazer e como fazer. Assim, o senso comum não é resultado de qualquer procedimento sistemático ou metódico. Santos (2008, p. 90) afirma: O senso comum é indisciplinar e imetódico; não resulta de uma prática especificamente orientada para o produzir; reproduz-se espontaneamente no suceder quotidiano da vida. O senso comum aceita o que existe tal como existe; privilegia a ação que não produza rupturas significativas no real.Ao afirmar que o senso comum é produzido e reproduzido espontaneamente, Santos está dizendo que esse é um saber que não é produzido de modo intencional. Quando receitamos determinado chá para alguém que está resfriado, de forma alguma o fazemos com base em evidências empíricas, tampouco por termos a intenção de testar se esse chá tem algum efeito curativo. Sugerimos o chá por acreditarmos que essa é uma atitude correta, não nos interessando, de maneira nenhuma, excluir algum tratamento medicamentoso. Não temos qualquer intenção de convencer alguém a fazer o mesmo em situações similares; aliás, nem sequer podemos provar qualquer efeito benéfico do chá. Tampouco pretendemos afirmar que a ingestão do chá pode gerar melhores resultados do que a ingestão de um medicamento à base de paracetamol.
Senso comum
Pode-se dizer que o senso comum não pretende ensinar nada; ele apenas quer persuadir.
 Parece razoável, então, considerarmos o que Marconi e Lakatos (2003, p. 76) propõem com base em Mario Bunge (1919), físico argentino:
 Se excluímos o conhecimento mítico (raios e trovões como manifestações