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O EDUCADOR SÓCRATES

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O EDUCADOR SÓCRATES
Maximiliano José Paim¹
Giovanna Oro Ramos²
RESUMO
O presente trabalho tem por objetivo demonstrar o lado de educador do filósofo Sócrates e que,
com esta conduta, marcou por milênios até os nossos dias a figura provocativa do educador que
tem a tarefa de trazer o educando para o desconforto do senso de criticidade necessário diante de
tantas tentativas de conformação por parte do neoliberalismo.
Palavras-chave: Filosofia. Educação. Sócrates. 
1. INTRODUÇÃO
A frase só sei que nada sei, atribuída ao filósofo Sócrates, é usada em grande parte para
informar que não queremos nos responsabilizar em determinadas questões, geralmente espinhosas.
Ela é uma arma de ceticismo e de covardia perante as grandes questões da vida. E geralmente ela
aparece na boca de quem é despossuído de qualquer visão séria acerca da filosofia. Se Sócrates for
tomado como aquele curioso que buscou seriamente investigar os motivos de ser chamado de sábio,
ou de o homem mais sábio de Atenas, o que não é pouca coisa, é possível perceber semelhanças
com o professor da sala de aula que, não apenas transmite o conhecimento a partir de afirmações,
mas que provoca os seus estudantes com perguntas tentando colocá-los em contradições sobre o que
julgam saber.
A partir do livro Sócrates – pensador e educador (GHIRALDELLI, 2015), tento demonstrar
a importância da posição crítica seja do pensador, do filósofo e/ou do professor, quando não todas
plasmadas em uma figura só, diante de qualquer mentalidade em qualquer época em que estejamos.
Hoje, temos um individualismo que não se contenta mais com o ter ao invés do ser, mas forjou o
aparecer como essência do ser.
Para tanto, quero analisar então esta conduta tão necessária nos nossos dias, justificada a
pouco, com o intuito de contribuir para o senso crítico da formação docente, bem como qualquer
cidadão que não queira ser apenas um número para a burocracia republicana. Se, por um lado, Jesus
é necessário para a manutenção de nossa paz no ocidente ao menos, Sócrates é necessário na
medida que há uma espécie de ideologia do animal de rebanho, para usar a expressão de Nietzsche,
que quer ver os cidadãos da pólis como indivíduos isolados, domesticados, desprovidos de
esclarecimento e, o que é pior, desabituados da reflexão.
A visão de Sócrates como educador é restrita. Geralmente ele é visto como o homem
ignorante que perguntava, que nada escreveu, e que, se não fosse pela existência de Platão, teria
1 Maximiliano José Paim
2 Giovanna Oro Ramos
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI - Filosofia (Flx 1405) – Prática Interdisciplinar V - 11/12/19
sido condenado e morto pelo esquecimento, além da cicuta. Por isso, entendi ser necessário usar da
obra de um filósofo brasileiro que se dedica há muitos anos a trazer novas narrativas para tratar do
tema de Sócrates.
O professor, sobretudo de ciências humanas, traz consigo a árdua e igualmente nobre tarefa
de educar o jovem para a independência cidadã como alguém que sabe analisar as situações da vida
e tem discernimento da importância do seu papel na sociedade. Há um bom tempo, a educação foi
encampada pela ideologia neoliberal como local de treinamento e formação de indivíduos e/ou
empreendedores que podem ter seu próprio mundo individual e que parecem não mais pertencer ao
mundo coletivo. Sócrates nunca foi tão atual.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Sócrates, também chamado de mosca de Atenas, não ganhou este apelido por outro motivo
que não fosse o de indagar acerca da veracidade do conhecimento de sua época. Para tanto, a partir
do enigma proferido pela pitoniza do Oráculo de Delfos de que ele era o homem mais sábio da pólis
naqueles tempos, resolveu partir para a busca do significado do enigma. Como ele, na sua
ingenuidade, pobreza e ignorância, saberia de algo?
Para Ghiraldelli (2005, p. 30),
Era uma investigação sobre a posição anunciada com fé a respeito de si mesmo na condição
de cidadão de Atenas. Um general que se diz corajoso e um religioso que se diz pio devem
efetivamente assim ser.
Passou ele então a indagar os seus compatriotas e a buscar alguém que soubesse mais do que
ele, alguém que respondesse às suas questões. O que ocorreu, no entanto, foi que os seus
interlocutores demonstraram que não tinham segurança naquilo que diziam saber. Desta forma, se
aqueles que diziam saber algo já não tinham muito a ensinar, Sócrates então muito menos, afinal,
ele ao menos dizia que nada sabia. Disto resultava em diálogos sem que se chegasse a um saber
efetivo.
Para Abrão (2004, p. 43, 44),
Destruindo as respostas fáceis dos interlocutores, ele mostra que o pensamento deve ser
mais prudente. Se as respostas saem fáceis é porque a pergunta foi mal formulada, e apenas
contorna o problema. Quando, por exemplo, se indaga se o exercício militar torna corajoso
o homem, as possíveis respostas sempre escorregam em torno das vantagens e das
desvantagens que esse treinamento oferece, sem alcançar o verdadeiro problema: o que é a
coragem. 
Entra em cena o lado educador de Sócrates. A mosca de Atenas se coloca como aquela que
quer fazer com que seus concidadãos examinem aquilo que dizem saber e, sobretudo, examinem a
si mesmos. O conhecimento deve ser reelaborado, mas antes há que se por em dúvida o que se sabe.
Para Amorim e Grün,
A estratégia de Sócrates sempre fora o diálogo e no decorrer desse diálogo fazia com que
seus interlocutores fossem se auto-descobrindo, desconstruindo algumas verdades e
construindo outras. Sócrates, ao questionar seus interlocutores, fazia com que as certezas,
embasadas num conhecimento secular, fossem fragilizadas e reformuladas ao mesmo
tempo. Sócrates proporcionava ao seu interlocutor a busca pela verdade, o próprio
interlocutor alcançava e dava à luz seu conhecimento. Pois a prioridade em Sócrates é fazer
com que o interlocutor, o sujeito do diálogo, busque e encontre em si suas próprias
verdades.
E ainda, Amorim e Grün (apud 2011, p. 3, 4) dizem,
Podemos acrescentar à figura de Sócrates a colocação feita por Jaeger (2001). Para o autor,
Sócrates concebe o diálogo como apresentação primordial do pensar filosófico e percurso
único capaz de nos levar ao entendimento e compreensão das nossas relações com os
outros. Sem se apresentar como “dono da verdade”, Sócrates também é um aprendiz, ao
passo em que seu interlocutor vai elaborando suas próprias verdades. Neste ponto,
compartilhamos do pensamento gadameriano para fundamentar, de maneira imanente, a
prática pedagógica embasada no diálogo vivo (GADAMER, 2000b, p. 10): “creio que só se
pode aprender através da conversação”. Gadamer, neste mesmo trabalho também indica
que “educação é educar-se”, e “formação é formar-se”. 
 
O saber depende, portanto, da confraria, daquilo que em filosofia se chama dar e receber
razões.
3. MATERIAIS E MÉTODOS
Para a realização deste paper foi utilizado nesta narrativa fundamentalmente o livro Sócrates
– pensador e educador, do filósofo e professor Paulo Ghiraldelli Júnior, o livro A História da
Filosofia, da coleção Pensadores, de autoria de Bernadete Siqueira Abrão, e o artigo científico Entre
a Paidéia e a Modernidade, de autoria de Filipi Vieira Amorim e de Mauro Grün, ambos da
UNIPLAC.
FIGURA 1: CHARGE DE UM DIÁLOGO IMAGINÁRIO ENTRE DEUS E SÓCRATES
FONTE: http://pos-aula.blogspot.com/2012/06/rindo-com-filosofia.html
Acessado em 04/12/19.
4. CONCLUSÃO
Este trabalho fez uma incursão na forma de como Sócrates filosofava e demonstrou que este
modo próprio do filósofo pode ser seguido pelo professor dentro da sala de aula. A provocação e a
crítica do que se sabe tem no filósofo grego um assento milenar que mostra grande potencial de
encorajar os estudantes a terem um posicionamento menos passivo diante dos fenômenos do
mundo.

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