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O criminoso nato e a fundada suspeita (creiof)

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O CRIMINOSO NATO E A FUNDADA SUSPEITA 
 
 
Conrado José Neto de Queiroz Reis 
 
Prof. Ms Manoel Severino Moraes de Almeida 
 
Faculdades Integradas Barros Melo - AESO 
 
Pós-Graduação em Ciências Criminais Militares 
 
30/10/12 
 
RESUMO 
 
Esse artigo objetiva abordar a situação fática e jurídica da busca pessoal realizada 
sem mandado por policiais de serviço, como forma de discutir sua legalidade frente aos 
questionamentos sociais e sua motivação baseada em estereótipos que devem ser 
evitados. 
 
PALAVRAS-CHAVE: Busca pessoal; Legalidade; Estereótipos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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INTRODUÇÃO 
 
Ante o recrudescimento da violência, mormente nos grandes centros urbanos, a 
polícia ostensiva percebe uma legitimação para praticar indiscriminadamente a 
abordagem com busca pessoal, que independe de mandado, mas deve ser baseada na 
fundada suspeita. 
 
Por ser uma norma de conteúdo subjetivo, alguns policiais tentam justificar a sua 
atuação apenas com base na legitimação dada por parte da sociedade. Ocorre que, por 
se tratar de um constrangimento, mesmo que autorizado pela lei, outra parcela da 
sociedade questiona a abordagem policial, alegando que é feita com maior frequência em 
pessoas estereotipadas principalmente pela aparência física. 
 
A criação de estereótipos pela força policial, a ponto de traçar um determinado 
perfil do criminoso disfarçado de tino policial, uma vez que a busca pessoal, quando é 
feita, geralmente é motivada pela aparência, superando até mesmo o preconceito racial, 
uma vez que negro de boa aparência e com boa indumentária também escapa à revista, é 
bastante temerário, posto que tal procedimento deve fundar-se tão somente na lei, 
quando extremamente necessário de acordo com elementos concretos de que sirvam de 
fundamentação. 
 
Não se pode olvidar que esse vício, além de basear-se na população carcerária, 
tem arrimo nas ideias de Cesare Lombroso, que se aproveitou de sua profissão de 
médico, desempenhada no sistema penitenciário italiano, para autopsiar cadáveres dos 
presos e concluir sobre estigmas criminógenos, o qual, após necropsiar 383 cadáveres, 
ao dissecar o famoso facínora Milanês Vilela, encontrou em seu crânio, a fosseta occipital 
média, que era característica do homem primitivo. Tal vestígio o levou a concluir que 
havia uma relação entre o instinto sanguinário e a regressão atávica, fazendo publicar, 
posteriormente, “L‟Uomo delinquente”, em 1876, obra que inaugurou a Escola Positivista, 
conforme esclarece Dias e Andrade (1997), a qual pauta-se pelos seguintes critérios: 
negação do livre-arbítrio, determinismo e previsibilidade dos fenômenos humanos. 
Segundo Lombroso: 
 
 
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Talvez interesse conhecer como conseguir chegar as atuais 
conclusões que apresento. Em 1807 eu realizava umas investigações 
sobre cadáveres e seres humanos vivos nas prisões e asilos de 
anciãos na cidade de Pavia. Desejava fixar as diferenças entre loucos 
e delinqüentes, mas não estava conseguindo. Repentinamente, na 
manhã de um dia de dezembro, fui surpreendido por um crânio de um 
bandido que continha anomalias atávicas, entre as quais 
sobressaíam uma grande fosseta média e uma hipertrofia do cerebelo 
em sua região central. Essas anomalias são as que encontramos nos 
vertebrados inferiores. (LOMBROSO: 1906, 665). 
 
Nesse diapasão, criou-se um estereótipo que repercutiu na criminalização de 
condutas praticadas por determinadas pessoas ou grupos sociais, como os capoeiristas 
no Brasil, reprimidos pelo Código Penal da República dos Estados Unidos do Brasil 
(Decreto número 847, de 11 de outubro de 1890), no Capítulo XIII — Dos vadios e 
capoeiras, senão vejamos: 
 
Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e 
destreza corporal conhecida pela denominação Capoeiragem: andar 
em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão 
corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa 
ou incerta, ou incutindo temor de algum mal; Pena — de prisão 
celular por dois a seis meses. A penalidade é a do art. 96. Parágrafo 
único. É considerada circunstância agravante pertencer o capoeira a 
alguma banda ou malta. Aos chefes ou cabeças, se imporá a pena 
em dôbro. 
 
 
Este trabalho visa analisar a interligação entre a fundada suspeita e o estereótipo 
do criminoso nato de Lombroso, mitigado pela questão da classe social do indivíduo que 
mais é revistado em abordagem policial, cujos agentes tentam justificar essa 
discriminação numa legitimação bastante questionável do ponto de vista sociológico. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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1 FUNDADA SUSPEITA 
 
Embora seja um conceito subjetivo, a fundada suspeita deve recair sobre 
elementos concretos repousados em atitudes do suspeito que autorizem a intervenção 
policial, segundo a doutrina de Nucci: 
 
Fundada Suspeita: é requisito essencial e indispensável para a 
realização da busca pessoal, consistente na revista do indivíduo. 
Suspeita é uma desconfiança ou suposição, algo intuitivo e frágil, por 
natureza, razão pela qual a norma exige fundada suspeita, que é 
mais concreto e seguro. Assim, quando um policial desconfiar de 
alguém, não poderá valer-se, unicamente, de sua experiência ou 
pressentimento, necessitando, ainda, de algo mais palpável, como a 
denúncia feita por terceiro de que a pessoa porta o instrumento usado 
para o cometimento do delito, bem como pode ele mesmo visualizar 
uma saliência sob a blusa do sujeito, dando nítida impressão de se 
tratar de um revólver. Enfim, torna-se impossível e impróprio 
enumerar todas as possibilidades autorizadoras de uma busca, mas 
continua sendo curial destacar que a autoridade encarregada da 
investigação ou seus agentes podem – e devem – revistar pessoas 
em busca de armas, instrumentos do crime, objetos necessários à 
prova do fato delituoso, elementos de convicção, entre outros, agindo 
escrupulosa e fundamentadamente. 
 
 
 
Tal subjetivismo esvaziado de subsídios palpáveis também é combatido pela 
jurisprudência. Assim já se pronunciou o Pretório Excelso: 
 
EMENTA: HABEAS CORPUS. TERMO CIRCUNSTANCIADO DE 
OCORRÊNCIA LAVRADO CONTRA O PACIENTE. RECUSA A SER 
SUBMETIDO A BUSCA PESSOAL. JUSTA CAUSA PARA A AÇÃO 
PENAL RECONHECIDA POR TURMA RECURSAL DE JUIZADO 
ESPECIAL (HC 81305, Relator(a): Min. ILMAR GALVÃO, Primeira 
Turma, julgado em 13/11/2001, DJ 22-02-2002 PP-00035 EMENT 
VOL-02058-02 PP-00306 RTJ VOL-00182-01 PP-00284). 
Competência do STF para o feito já reconhecida por esta Turma no 
HC n.º 78.317. Termo que, sob pena de excesso de formalismo, não 
se pode ter por nulo por não registrar as declarações do paciente, 
nem conter sua assinatura, requisitos não exigidos em lei. A “fundada 
suspeita”, prevista no art. 244 do CPP, não pode fundar-se em 
parâmetros unicamente subjetivos, exigindo elementos concretos que 
indiquem a necessidade da revista, em face do constrangimento que 
causa. Ausência, no caso, de elementos dessa natureza, que não se 
pode ter por configurados na alegação de que trajava, o paciente, um 
“blusão” suscetível de esconder uma arma, sob risco de referendo a 
condutas arbitrárias ofensivas a direitos e garantias individuais e 
caracterizadoras de abuso de poder. Habeas corpus deferido para 
determinar-se o arquivamento do Termo. 
 
 
 
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Não obstante o fato de a busca pessoal estar autorizada em lei e servir para 
verificar uma possível ilicitude, bem como estar até certo ponto legitimada por parte da 
sociedade, não se pode olvidar que tal procedimento representa uma intervenção 
constrangedora, que pode atentar contra a dignidade da pessoa humana a depender da 
forma como se é feita, o que pode ensejar a responsabilidade civil do Estado e ação 
regressiva contra o agente causador em caso de dolo ou culpa, cuja qualidade intrínseca 
não pode ser violada sem a existência de elementos mínimos de concretude. Sobre a 
dignidade da pessoa