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Policial corrupto criminoso habitual ou delinquente ocasional creiof

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POLICIAL CORRUPTO: CRIMINOSO HABITUAL 
OU DELINQUENTE OCASIONAL? 
 
 
Conrado José Neto de Queiroz Reis 
 
Prof. Ms Lucas Galindo Tavares Filho 
 
Faculdades Integradas Barros Melo - AESO 
 
Pós-Graduação em Ciências Criminais Militares 
 
30/10/12 
 
RESUMO 
 
Esse artigo objetiva abordar a situação fática e jurídica da corrupção policial no 
âmbito externo, como forma de discutir sua causa e possível gênese, abordando a 
questão do indivíduo como membro de uma sociedade patrimonialista na qual as 
autoridades são as primeiras a buscarem privilégios disfarçados de prerrogativas. 
 
PALAVRAS-CHAVE: Corrupção; Sociedade Patrimonialista; Privilégios. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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INTRODUÇÃO 
 
A corrupção policial tornou-se um fenômeno de grande repercussão no país, em 
razão dos diversos flagrantes divulgados pela imprensa televisiva. A mídia dá destaque à 
corrupção externa, extramuros do quartel, ou seja, aquela praticada com a participação 
ativa do cidadão comum, que, desavisadamente, também incorre em crime, apesar de 
criticar a ação do policial. É o famoso “jeitinho brasileiro”, expressão famosa utilizada para 
explicar como o brasileiro consegue transformar uma situação adversa a seu favor, ainda 
que isso implique em infringir a lei (DAMATTA: 1984). 
 
Este fenômeno envolve desde a simples liberação de um veículo irregular, até a 
soltura de um criminoso preso em flagrante, mediante pagamento de propina. O grande 
problema é saber por que determinado policial age em desconformidade com a lei, 
mesmo sabendo que é o maior responsável por evitar a prática do ilícito penal. O objetivo 
deste trabalho não é apresentar as circunstâncias mais alegadas nos debates sobre o 
tema, como salário baixo e impunidade, mas sim discutir se tal indivíduo já era 
considerado corrupto antes de assumir o cargo público ou transformou-se em razão da 
função, que oportuniza a deflagração de tais situações. 
 
Corrupção é a o ato de receber ou solicitar qualquer vantagem indevida, pecuniária 
ou não, para exercer, deixar de exercer ou retardar alguma atividade prevista na lei, em 
razão do seu cargo ou função, ou aceitar promessa de tal vantagem. Este trabalho aborda 
apenas a corrupção policial, que é o exercício do poder de polícia pela autoridade 
investida em cargo público para a realização de fins particulares de quem deveria ser o 
responsável direto pelo combate ao crime. 
 
Este trabalho visa analisar a corrupção policial não como um problema 
institucionalizado, mas sim como algo inerente à imoralidade do brasileiro que, exercendo 
qualquer parcela de poder, mesmo minimamente, fatalmente realizará sua prática 
degradante, até porque o mal exemplo do vício vem dos estamentos superiores da 
sociedade brasileira, que servem de instigação ao desvio de conduta. 
 
 
 
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1 HABITUALIDADE E OCASIONALIDADE 
 
A grande indagação desse trabalho é: o policial corrupto sente necessidade de 
obter vantagem indevida ou se aproveita da situação que se lhe apresenta no momento? 
 
Para Ferri apud Farias Júnior (206, p.294): 
 
O criminoso habitual é dotado de fraqueza moral. Começa pela 
prática de um crime ocasional, exclusivamente contra a propriedade, 
ainda na infância e juventude e, por degenerescência mesológica, 
acaba se assemelhando ao criminoso nato. 
 
Já o criminoso ocasional é aquele indivíduo que age por impulsividade por não 
resistir à tentação. Nesse sentido, Newton Fernandes (1995, p. 595): 
 
Criminosos ocasionais são indivíduos fracos, tíbios e que por um 
momento cedem à pressão do ambiente. De se notar, porém, que as 
pressões a que eles cedem, não têm características de 
insuportabilidade e vão realmente a débito de suas tibiezas, pois, tais 
pressões ocorrem com pessoas nitidamente sintônicas com a vida 
social, que não se deixam levar, pois não existem nelas o fator 
predisponente a agir sobre a personalidade, impelindo-as, eventual e 
momentaneamente a cometerem delitos. 
 
O criminoso ocasional geralmente pratica o delito por influência de outra pessoa ou 
do meio em que vive. No caso dos policiais de trânsito, essa conduta é aprendida e 
divulgada como troca de favores, o que incute na mente do policial que ele não é 
criminoso, mas sim apenas tolerante com a situação que se lhe apresenta. 
 
Mas e o policial que pega o “arrego” dos comerciantes ou do tráfico? Este se 
aproxima mais do criminoso habitual. E o que libera um criminoso que é flagrado no 
momento do crime? Este último parece ser ocasional, mas se passar a procurar situações 
que lhe propiciem o poder de comercializar com a função pública se transformará num 
criminoso habitual. A resposta não é fácil, pois exige a análise de muitas variáveis. 
 
 
 
 
 
 
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2 IMPULSO PREEXISTENTE 
 
“Quase todos os homens são capazes de suportar adversidades, mas se quiser por 
à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder" - Nearly all men can stand adversity, but if 
you want to test a man's character, give him power. ("The Reader's digest" - Volume 67, 
Página 200, DeWitt Wallace, Lila Bell Acheson Wallace - The Reader's Digest Association, 
1955). 
 
Essa expressão do Presidente dos Estados Unidos da América Abraham Lincoln é 
muito importante para tentar explicar a tese aqui delineada de que o policial corrupto já o 
era antes mesmo de assumir o cargo público, uma vez que apenas lhe faltava 
oportunidade para praticar tal desvio de conduta. Não se pode chamar de honesto a 
pessoa que não exercita parcela do poder ou que nunca teve sua personalidade testada, 
pois nada fez nem deixou de fazer. Os policiais ficam expostos cotidianamente a 
diferentes situações que exigem decisões rápidas, cujos valores são colocados à prova. 
Essa é a diferença, ou seja, o nível de exposição é maior do que aquele de um cidadão 
comum. 
 
Não se trata aqui de definir o policial corrupto como um criminoso nato, mas sim de 
visualizar aquele indivíduo como tendente a praticar esse tipo de ilícito, quer seja agente 
público, quer seja particular, desde que se lhe apresente a oportunidade de realizar o seu 
teste. 
 
Nesse quadro antropológico, a corrupção é resultado de uma estratégia cultural de 
se beneficiar com a compra da imunidade que distingue os cidadãos dentro do ambiente 
social. 
 
Não se pode deixar de abordar aqui a sociedade capitalista atual do consumo 
desregrado como instigadora de uma cultura da valorização do poder aquisitivo, o que 
conduz alguns indivíduos mais fracos a buscarem meios alternativos para alcança-lo. A 
escola criminológica da anomia explica que a falta de oportunidade leva à prática de atos 
irregulares, para se atingir a meta cobiçada. Nesse particular, alguns policiais, por 
estarem “amarrados” a um estatuto arcaico que exige a dedicação exclusiva à atividade 
policial, podem se sentir incentivados a se corromper como forma de compensar a perda 
de oportunidade de trabalhar em outra área, instigado pelo status conferido pelo alto 
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padrão de vida. Dessa foram, parte desses policiais corruptos considera o crime de 
corrupção como um fenômeno normal na sociedade brasileira, porque partilham os 
mesmos objetivos, mas os meios estão desproporcionalmente distribuídos. 
 
De acordo com Robert King Merton, anomia significa uma incapacidade de atingir 
os fins culturais, devido à insuficiência dos meios institucionalizados, o que gera conduta 
desviante. Grande parte da criminalidade tem raízes em conflitos sociais face às 
situações de carências, desigualdade econômica e intelectual além de outros conflitos 
não resolvidos, fatos estes evidenciados na perspectiva da teoria da Anomia. Nesse 
contexto, o crime é a manifestação de um desregulamento social fruto da estimulação de 
desejos, decorrentes da modernidade consumerista especialmente. 
 
Já para Émile Durkheim, a anomia seria uma crise moral da sociedade, uma 
patologia gerada por regras