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Resumo - artigo sobre depressão na adolescencia

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Resumo – Artigo: Aspectos clínicos da depressão em crianças e adolescentes (Saint-Clair Bahls)
O interesse científico na depressão entre crianças e adolescentes é um desenvolvimento recente, pois até a década de 70 se acreditava que nessa idade fosse inexistente ou extremamente rara. Desde o reconhecimento oficial da sua existência pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA (NIMH) em 1975 o interesse sobre o assunto tem crescido, e estudiosos tem percebido um aumento na frequência e uma diminuição da idade em que se inicia. 
Os dados usados no artigo foram levantados no sistema Medline, com as palavras-chave depressão, infância e adolescência e características clínicas no período de 1991 a 2000, e manualmente de referências bibliográficas.
Os transtornos depressivos são compreendidos atualmente como fenômenos iguais, sendo que, de acordo com Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), os sintomas básicos de um episódio depressivo maior são iguais em adultos, crianças e adolescentes. A Classificação Internacional das Doenças (CID-10) lida com os transtornos depressivos de forma igual independentemente da idade. Os autores que falam transtornos depressivos na infância e adolescência, por outro lado, já dizem que os sintomas variam com a idade, citando a importância da maturação e dos processos de desenvolvimento.
Em crianças pré-escolares (seis a sete anos), as manifestações clínicas mais comuns se dão por meios físicos como dores de cabeça, fadiga e tontura, sendo seguidos por fobias, irritabilidade, agitação, hiperatividade, falta de apetite e alterações no sono. O prazer de brincar e de ir à pré-escola diminui, tem dificuldade em adquirir as habilidades sociais comuns à sua idade. A ideação suicida nessa idade é considerada rara, ocorrendo apenas em casos especiais, mas alguns dizem que o comportamento autodestrutivo como bater a cabeça com frequência e força, morder-se, engolir objetos perigosos e uma propensão a acidentes podem ser o equivalente suicida para as crianças que não manifestam suas emoções verbalmente.
Nas crianças escolares (sete a doze anos), o humor depressivo já é manifestado de forma verbal, sendo muitas vezes relatado como tristeza, irritabilidade e/ou tédio. Essas crianças podem mostrar uma falta de habilidade em se divertir, aparência triste, choro fácil, fadiga, isolamento, fraco relacionamento com seus pares, baixa autoestima, declino ou baixo desempenho acadêmico, ansiedade de separação, fobias e podem expressar o desejo de morrer. Elas também podem relatar concentração fraca, queixas somáticas, perda de peso, insônia e sintomas psicóticos humor-congruente (alucinações auditivas depreciativas e, menos frequentemente, delírios de culpa e pecado). É frequente que os professores sejam os primeiros a perceber qualquer mudança de comportamento decorrente da depressão. A observação das fantasias, sonhos, desejos e brincadeiras, tanto nas crianças pré-escolares e nas escolares, pode revelar a depressão.
A depressão em adolescentes (a partir dos doze anos) costuma apresentar sintomas muito parecidos com a dos adultos, mas existem algumas diferenças. O adolescente deprimido não está constantemente triste, mas sim aparenta estar irritado e instável. A perda de energia, desmotivação, retardo psicomotor, sentimentos de desesperança e culpa, alterações de sono, isolamento, dificuldades de concentração, dificuldades no desempenho acadêmico, baixa autoestima, ideias e tentativas de suicídio (desenvolvimento do pensamento abstrato os torna altamente vulneráveis) e problemas graves de comportamento (drogas, álcool e agressividade por exemplo) são outros sintomas que podem surgir na depressão entre adolescentes. Alguns autores mencionam as diferenças entre adolescente do sexo feminino, que costumam apresentar sintomas mais subjetivos como sentimento de vazio, raiva e tédio, e adolescentes do sexo masculino que relatam sentimentos de desprezo, desafio e desdém, e demonstram problemas de conduta.
Entre os fatores de risco da depressão em crianças e adolescentes, está presente a existência de depressão em um dos pais, o que aumenta o risco em pelo menos três vezes. Os estressores ambientais também são fatores de risco, como o abuso físico e/ou sexual, assim como a perda de um dos pais, irmão ou amigo íntimo. 
As pesquisas indicam que a média, a depressão maior na infância surge em torno dos 9 anos de idade, e na adolescência entre 13 aos 19 anos de idade, com o primeiro episódio durante entre cinco e nove meses. A recuperação varia, mas a maioria se recupera em um período de cerca de dois anos, mas mesmo após a recuperação permanece um prejuízo psicossocial. Quanto mais cedo o surgimento da depressão maior a tendência ao prejuízo.
O risco de recorrência é maior alguns meses após o primeiro episódio. As crianças e adolescentes com depressão tem um grande risco de recorrência, estendendo-se até a idade adulta. Alguns fatores considerados preditores de recorrência são o início precoce, inúmeros episódios anteriores, gravidade do episódio, presença de sintomas psicóticos, presença de estressores, comorbidade e falta de adesão ao tratamento. Alguns autores dizem que o aparecimento de episódio depressivo maior na infância e na adolescência é um preditivo de transtorno bipolar no futuro, mas ainda faltam evidências dessa relação. 
As crianças e os adolescentes deprimidos costumam apresentar altas taxas (maior que a dos adultos) de comorbidade com outros transtornos psiquiátricos. Os mais comuns nas crianças são os transtornos de ansiedade, o transtorno de conduta, o transtorno desafiador opositivo e o transtorno de déficit de atenção, e nos adolescentes acrescentam-se os transtornos relacionados a substâncias e os transtornos alimentares. A probabilidade de transtornos comórbidos aumenta com a severidade do quadro depressivo, e sua presença pode indicar uma evolução mais grave e um prognóstico pobre. 
O suicídio entre crianças e adolescentes é uma manifestação grave, cuja ocorrência tem aumentado nas últimas décadas, se tornando uma das maiores causas de mortes violentas na adolescência. 
A ideação é comum em crianças na fase escolar e adolescentes, mas as tentativas são incomuns nas crianças, aumentando com a idade e se tornando mais comuns após a puberdade. São fatores de risco para o comportamento suicida na infância e adolescência a idade, presença de tentativas anteriores (o melhor preditor), história familiar de transtornos psiquiátricos (especialmente com tentativa de suicídio e/ou suicídio em si), ausência de apoio familiar, presença de arma de fogo em casa, doença física grave e/ou crônica, presença de depressão e comorbidade com transtornos de conduta e abuso de substâncias.
Muitos jovens depressivos não são identificados e nem encaminhados para tratamento. Pelo menos metade dos adolescentes que cometem suicídio fizeram ameaças e tentativas anteriormente. Entre os precipitantes do comportamento suicida nessa faixa etária estão as perdas, crises interpessoais com família ou amigos, estressores psicossociais, abuso físico e sexual, problemas legais ou disciplinares, e a exposição ao suicídio de amigos, familiares ou mesmo através da mídia.
Concluindo, a depressão entre crianças e adolescentes é de grande importância atualmente, principalmente quando se observa os dados relevantes ao suicídio nessa faixa etária. A presença de transtornos depressivos na infância e na adolescência é comum e grave, principalmente por estar surgindo com mais frequência e mais cedo. As manifestações clínicas são as mesmas tanto nas crianças quanto nos adultos, mas deve-se prestar atenção às características próprias de fases do desenvolvimento infanto-juvenil que modelam essas manifestações, agrupando os sintomas mais comuns para cada faixa etária.