A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
209 pág.
HELENA

Pré-visualização | Página 48 de 48

já anunciam um cenário que seria garimpado 
profundamente pelo Realismo, e muito mais em Memórias 
Póstumas de Brás Cubas.
Em Helena, é comum se perceber que a ironia, recurso 
muito utilizado pelo autor em suas obras, começa a se tornar 
algo frequente e assume condição de ferramenta depreciativa 
da sociedade. É como se o autor fizesse uso desse recurso para 
chamar a atenção do leitor em relação ao caráter duvidoso das 
pessoas. Observe o fragmento da descrição de uma cena:
“Camargo não respondeu logo; olhou para o papel, 
como se quisesse adivinhar o conteúdo. O silêncio foi mui-
to demorado para não causar impressão no moço, que aliás 
nada disse, porque acreditava que era efeito da comoção 
natural do amigo em tão dolorosa situação.”
“Camargo era pouco simpático de primeira vista. 
Tinha as expressões duras e frias, os olhos analisadores 
e espertos, de uma esperteza incômoda para quem olhava 
para eles, o que o não fazia atraente. Falava pouco e seco. 
Seus sentimentos não transpareciam. Tinha todos os visí-
veis sinais de um grande egoísta(...)”
Helena.indd 205 10/02/20 11:35
206
Clássicos da Literatura Brasileira
Helena
Dr. Camargo era amigo da família. Na sala estavam D. 
Úrsula e Estácio. Os dois estavam marcados pela dor da perda 
do conselheiro Vale. O normal seria o médico mostrar os mes-
mos sentimentos de sofrimento, mas, no lugar disso, mostra 
certo interesse material diante da procura de um testamento. 
Na expressão “viva curiosidade” está presente a descrição 
sutil do caráter do médico, que será desenvolvido ao longo 
da narrativa.
Outro aspecto levado em consideração sobre a ironia ma-
chadiana é o ataque sutil aos bons costumes burgueses. E, nessa 
obra, pode-se dizer de fato que esse ataque é sutil. Isso porque 
só vem a se tornar realmente uma marca distinta da prosa de 
Machado de Assis em obras posteriores, por exemplo. Podemos 
observar isso no fragmento a seguir:
“A gaveta estava fechada; Estácio deu a chave ao mé-
dico; este abriu o móvel sem nenhuma comoção exterior. 
Interiormente estava abalado. O que se lhe podia notar nos 
olhos era uma viva curiosidade, expressão em que, aliás, 
nenhum dos outros reparou. Logo que começou a revolver 
os papéis, a mão do médico tornou-se mais febril. Quando 
achou o testamento, houve em seus olhos um breve lampejo, 
a que sucedeu a serenidade habitual.”
“Recebê-la, porém, no seio da família e de seus afetos, 
legitimá-la aos olhos da sociedade, como ela estava aos da 
lei, D. Úrsula não compreendia, nem lhe parecia que alguém 
pudesse entendê-lo. A aspereza destes sentimentos tornou-
-se ainda maior quando lhe ocorreu a origem possível de 
Helena. Nada sabia da mãe, além do nome; mas essa mulher 
quem era? em que atalho sombrio da vida o conselheiro 
havia encontrado essa moça? Helena seria filha de um en-
contro passageiro, ou nasceria de algum afeto desaprovado 
embora, mas verdadeiro e único? A estas interrogações não 
podia responder D. Úrsula; bastava, porém, que lhe surgis-
sem no espírito, para lançar nele o tédio e a irritação.”
Helena.indd 206 10/02/20 11:35
207
Clássicos da Literatura Brasileira
Machado de Assis
A condição da sociedade burguesa era a de manter as 
aparências. Isso pode ser facilmente notado na preocupação 
de D. Úrsula tinha em relação à chegada de Helena à casa. O 
que poderia suscitar essa chegada era mais importante do que 
o acolhimento ou do que o realizar da vontade do conselheiro 
Vale em seu testamento.
As obras de Machado de Assis apresentam também um 
aspecto interessante em relação à construção das personagens. 
De forma geral, as personagens em um romance podem ser ca-
racterizadas quanto à importância do papel que desempenham 
e quanto à representação desse papel. Quanto ao papel, podem 
ser principais ou secundárias — dividindo-se em protagonista, 
antagonista, secundário — e, quanto à representação dele, po-
dem ser planas ou redondas. Se forem planas, não apresentam 
desenvolvimento ou alteração de postura psicológica ao longo 
da narrativa. Se forem redondas, apresentam modificação de 
caráter ao longo da história.
Em Helena, os personagens não são muitos, mas apre-
sentam a continuidade, ao mesmo tempo que apresentam a 
descontinuidade de suas condições tipológicas. Em outras 
palavras, uma personagem que parecia ser principal assume 
roupagem secundária ao longo do texto, e essa condição pode 
ser retomada se necessário for para a estruturação da obra. Não 
são muitas personagens, mas já se encontra certa densidade na 
construção de cada uma.
Os personagens principais são aqueles que fazem parte do 
núcleo da narrativa e que são importantes para que a história 
encontre sustentação e verossimilhança. Helena é a personagem 
que dá nome à obra e que apresenta-se como elemento novo. Em 
relação a ela, o autor constrói uma boa impressão, para depois 
desconstruí-la colocando-a como refém de um segredo que po-
deria mudar sua sorte. Estácio é o personagem que apresenta 
mesma força que Helena. É representado como uma pessoa 
equilibrada, coerente, cheia das virtudes que estruturam um 
homem de sua época. No entanto, nutre um sentimento sem 
nome que eclodiria em uma paixão pela suposta irmã. Ele tem 
grande amizade por Mendonça, mas, devido à aproximação 
Helena.indd 207 10/02/20 11:35
208
Clássicos da Literatura Brasileira
Helena
dele com sua irmã, a amizade passa a ser deixada de lado. Isso 
mostra a complexidade da estruturação dos personagens. Com 
isso, Machado de Assis estabelece uma verdadeira análise do 
comportamento social e dá à Literatura outra roupagem, defe-
rentemente do Romantismo, que construía cenário de idealiza-
ção para o desenvolvimento dos enredos.
Além dessas personagens, podemos contar ainda com D. 
Úrsula, irmã do conselheiro Vale e tia de Estácio, e Padre Mel-
chior, amigo da família e confidente em horas de desequilíbrio. 
Ainda que o ataque de Machado de Assis à religião não seja evi-
dente, a construção desse personagem aponta para um padre 
cheio de fé nos desígnios de Deus, mas que é frequentemente 
atacado pela dinâmica social que mostra resultados diferentes 
de sua fé. Mendonça é o amigo de Estácio e apaixonado por 
Helena. Salvador é o pai de Helena, que é revelado apenas ao 
final do romance. Esses são os personagens que movem o nú-
cleo da narrativa.
Helena.indd 208 10/02/20 11:35
	Helena_CC.pdf
	Helena.pdf